A Tragédia de Um Povo, escrito em 1996 e publicado no Brasil em 1999, infelizmente encontra-se esgotado, mas para os fãs do assunto o livro foi publicado em 2017 em Portugal. A portentosa edição portuguesa ganhou prefácio à edição do centésimo aniversário. A edição lusitana foi feita com carinho e o livro é muito bonito possuindo capa dura e excelente acabamento – digno do seu conteúdo e reputação do autor. Figes entrega seis páginas com mapas e cento e sete fotografias. Os mapas auxiliam para situar o leitor na Rússia europeia, a frente oriental russa na Primeira Guerra Mundial, a cidade de Petrogrado – berço da revolução – e os detalhes da Guerra Civil. Nas fotografias temos o cotidiano da vida russa, a corte e os czares, a vida no campo e os camponeses, personalidades políticas, enfim. Por ser uma grande obra vale o investimento importando de Portugal ou numa viagem comprar por lá.
A obra de Orlando Figes levou mais de seis anos para ser escrita e ao final da leitura percebemos o quanto valeu a pena o esforço do autor. Como no subtítulo, Figes abrange os anos de 1891 a 1924. 1891 em diante porque precisamos entender o contexto político, econômico e social em que estava submetida a Rússia. Finda em 1924, ano em que Lenin - mentor da revolução - morre e vai com ele o modo de governar, bem como já se avizinhava um novo governo com um novo líder. São trinta e três anos abordados profundamente.
O acontecimento da revolução foi marcante na história da humanidade. Figes escreveu um livro à altura do fato. Com uma excelente narrativa e abrangência ampla mergulhamos na sociedade russa – dos czares à vida militar, o ambiente político e a massa camponesa. O contexto político é um destaque à parte, e embora seja um pouco enfadonho, é preciso um pouco mais de atenção visto que é contextualizado os fatos políticos com a revolução e os seus desdobramentos; e levará o leitor mais atento a perceber o efervescente drama político. Outro destaque é a força dramática que o autor consegue explorar. Quando não estamos na área política, o drama humano é descortinado e temos uma visão humana de como os russos sofreram com o caos generalizado e o país enfrentando as trevas do anarquismo impactando no povo em todos os aspectos. São explorados os sentimentos e o drama humano com os desenrolar dos fatos. Reações de personalidades como do próprio Lenin, Gorki, Lvov, Trotski, além de simples trabalhadores e camponeses demonstra a revolução sob diferentes perspectivas.
O leitor percebe a abrangência dos motivos que levaram Figes a batizar seu grandioso livro como A Tragédia de Um Povo – tragédia econômica, tragédia política e tragédia social. O título foi acertado e merecido, pois tratou-se de uma tragédia numa escala inimaginável, onde os protagonistas – trabalhadores, soldados, intelectuais e camponeses – viram o seu mundo consumido pela revolução com desdobramentos em violência e uma sangrenta ditadura. Nunca nas minhas leituras um livro utilizou o conceito “tragédia” no sentido pleno. A história russa entrelaçada com a revolução e a forma como Figes encaixa na construção e desenvoltura do texto demonstra plenamente o que uma tragédia pode vir a ser.