Ligações Perigosas -

    Choderlos de Laclos

    Anima
    1987
    315 páginas
    10h 30m
    Português Brasileiro

    Ninguém consegue escapar do poder corruptor da Marquesa de Merteuil e do Visconde de Valmont. Nada lhes escapa ileso, nenhum nicho de pureza, nenhum pudor, nenhum escrúpulo. Estes dois personagens extraordinários do Choderlos de Laclos represantam a semente subversiva da ordem moral pela sedução, que tem tudo para vingar, pois seu desejo antecede a ela e já reside desde o início com alguma discreção no coração dos homens. Assim surgiu o mito da serpente e do pecado original, das intrigas de Lady Macbeth, do Fausto seduzido pelo Mefisto de Goethe, da sensualidade avassaladora das mulheres criadas por D. H. Lawrence e por Flaubert. O romance Ligações Perigosas, do escritor francês Choderlos de Laclos, é uma daquelas obras raras que jamais saem de evidência, e de fato é amada e relida por diferentes gerações de leitores desde o final do século XVIII, quando foi publicado pela primeira vez. As razões deste imenso sucesso não se resumem às cartas, às vezes ingênuas, às vezes irônicas, mas geralmente cheias de humor e de uma espécie de elegante maledicência, própria do estilo do autor. A razão principal do sucesso de Ligações Perigosas é o fato de que as situações nele apresentadas são situações eternas, são exemplos da condição humana, sua força e suas fraquezas, revezando-se de modo imprevisível, e constituindo em seu perene conflito e aventura de viver. Na época em que Ligações Perigosas foi escrito a França vivia uma situação limite em sua história. A aristocracia parisiense, da qual fazem parte os personagens de Laclos, ainda mantinha as aparências do poder, mas já havia perdido a essência do poder, que logo viria para as mãos dos revolucionários e suas execuções sumárias na guilhotina. As intrigas palacianas e o jogo da sedução e do prazer apresentados por Laclos são desempenhados por uma nobreza inteiramente alienada e distante da realidade de seu país. (Ao reclamarem à rainha Maria Antonieta que o povo não tinha pão para comer, ela respondeu simplesmente: Ora, que comam brioches...) A alienação custou o fim de uma época de ouro, e os palácios nunca mais desfrutaram do esplendor daqueles dias. Mas Laclos não poderia prever a derrocada, e nem parecia interessado em tal possibilidade. Ele foi o retratista sensível e brilhante dos tempos dourados em que o Rei Sol, de sua corte suntuosa, excitava os espíritos e os corpos da jovem nobreza nos castelos da França

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    Felipe Severo11/11/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    "Os tolos estão neste mundo para nossos pequenos prazeres"

    Esta é a filosofia que rege a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, os dois inescrupulosos protagonistas de "As relações perigosas". Membros da aristocracia francesa pré-revolucionária, não tendo mais nada para se preocupar na vida a não ser o jogo de aparências de sua classe, os dois ocupam seu tempo seduzindo, criando intrigas e destruindo reputações apenas por divertimento. Cada um está em uma empreitada própria: o Visconde quer seduzir uma mulher casada e religiosa, para fazê-la renegar suas crenças; a Marquesa quer "desvirtuar" uma jovem recém saída do convento, noiva de um antigo amante seu. Mas como "são os melhores nadadores que se afogam", as coisas saem de controle e tudo caminha para um final maravilhoso. O livro é um romance epistolar composto por 175 cartas e mais algumas notas, e é engraçado que até as notas de rodapé acrescentam novas camadas à trama. É preciso ver através do verniz da escrita culta e formal, ler nas entrelinhas mesmo, para captar o porquê deste livro ter causado tanto escândalo em sua época: toda história gira em torno de sexo e traição e qualquer tipo de sentimentalismo é ironizado. Apesar da edição que eu tenho ser a clássica de capa dura com corte dourado, escolhi esse livro para ler nas minhas idas à praia. Isso me fez pensar no quando o escritor pouco ou nada sabe sobre seu leitor. Choderlos de Laclos dificilmente pensou que seu romance, uma crítica mordaz à classe dominante de seu tempo, continuaria sendo tão interessante e divertido para um jovem leitor brasileiro mais de 200 anos depois. Acho essa uma das belezas da literatura. Adorei!

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