Assim como a minoria das pessoas que conheço, sempre tive dificuldades para engordar. Na infância, eu tinha a impressão de que pessoas gordas estavam sempre sorrindo, até que fui crescendo e vi que a realidade é bem diferente. A sociedade é hostil com pessoas fora do padrão. Por me identificar com assuntos tão diferentes e parecidos ao mesmo tempo, eu decidi ler esse livro logo após ver as entrevistas da autora.
Ao iniciar a leitura de Fome, lembrei-me de quantas vezes eu deixei de sair, à espera do maldito número trinta e seis que nunca alcancei. Lembrei-me das ofensas que ouço, disfarçadas de piadas, quando faz muito vento e cuidado pra não voar. Lembrei-me das pessoas que, após anos sem ver, antes mesmo de um cumprimento já me dizem que eu não mudei nada, como se o corpo fosse a única coisa que inspirasse boas conversas. Às vezes, é como se apenas o corpo padrão tivesse o direito de abrir a boca.
Ao dar continuidade à leitura, notei que a escrita da autora é bem direta, intercalando o passado distante com o recente. Os capítulos são curtos e dão dinâmica à narrativa; há alguns trechos que se repetem para reafirmar o que foi dito. Pouco depois da metade, a estabilidade do relato estava quase me fazendo parar para continuar outro dia, daí cheguei ao capítulo oitenta e quatro, que quase me fez cair da cadeira (risos de desespero). Então terminei de ler no mesmo dia.
Achei esse livro muito interessante e honesto. É bem bacana a maneira como a autora reconhece os poucos privilégios que teve na vida. Há uma parte em que ela diz algo sobre o vegetarianismo que me intrigou um pouco, mas nada que desmereça um relato tão necessário quanto o de Roxane Gay. Eu pensei que o tema racismo fosse mais abordado no livro, mas talvez isso tirasse o foco do próprio subtítulo, sei lá.
Acredito que nossa sociedade está precisando de narrativas como essa para desconstruir nossas mentes repletas de preconceitos. Sendo assim, não ouso dizer que Fome é um livro incrível, mas com certeza é urgente.