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    Murder in the Cathedral -

    T. S. Eliot

    Faber and faber
    1982
    94 páginas
    3h 8m
    ISBN-9: 057108611
    3.7
    13 avaliações
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    It is a poetic drama that portrays the assassination of Archbishop Thomas Becket in Canterbury Cathedral in 1170, first performed in 1935. Eliot drew heavily on the writing of Edward Grim, a clerk who was an eyewitness to the event. (Wikipedia)

    Resenhas (1)Ver mais
    Sofia picture
    Sofia15/10/2022Resenhou um livro
    0

    "Human kind cannot bear very much reality"

    A peça conta a história do martírio de Thomas Becket, arcebispo da Cantuária, e de seu assassinato a mando do rei Henry II. No dia 29 de dezembro de 1170, Becket foi assassinado por quatro cavaleiros dentro de uma catedral, logo após voltar de um exílio de sete anos na França. Recentemente, ele havia excomungado alguns membros influentes do clero inglês devido a um procedimento errado da parte deles -- Becket tomou partido do Papa, e com isso provocou a fúria do rei, a quem esses clérigos estavam obedecendo. Essa decisão seria o catalisador de uma série de intrigas que levariam a sua morte. Eliot poderia ter falado sobre essas intrigas: os detalhes do jogo de poder, o passado de Becket como chanceler, os conflitos entre França e Inglaterra, o papel do clero etc. Mas ao invés disso ele escolhe submetê-las à narrativa da jornada espiritual de Becket e de seu martírio, para a qual elas se tornam mero pano de fundo, meros eventos "no tempo." Becket volta ao seu país de origem e é recebido com as súplicas de um coro de mulheres desoladas, que antevêm a sua morte e temem ser tiradas de seu estado de inércia -- "living and partly living", elas estariam "content if we are left alone." Ele então encontra quatro tentadores, demônios de sua mente com quem ele deve batalhar. O primeiro expressa a tentação dos prazeres da carne. O segundo, do poder político. O terceiro sugere a Becket que ele faça uma insurreição contra o rei pela França e os barões, e assim faça justiça na terra. Finalmente, o quarto tentador, o único inesperado, fala da tentação do próprio martírio. O arcebispo se livra dos tentadores, temos um interlúdio com a missa do Natal, e na segunda parte os quatro cavaleiros do rei aparecem na igreja. Primeiro, eles tentam um acordo, mas quando isso falha eles partem para cima de Becket. Os padres trancam as portas, tentando salvá-lo, porém ele ordena que elas sejam abertas. Nesse ponto, Becket já colocou seu destino nas mãos de Deus inteiramente, já não pertence mais a esse mundo. Como ele mesmo diz: "I am not in danger: only near to death." Ele é apunhalado pelas quatro espadas dos quatro cavaleiros e morre. Talvez seja esse o momento mais interessante da peça. Inesperadamente, os quatro cavaleiros quebram a quarta parede e começam a falar com a plateia como se estivessem em um tribunal ou um auditório. De valentões idólatras, eles passam a réus carismáticos, cientes de seu crime, mas ao mesmo tempo advogados de si mesmos. Como burocratas obedecendo ordens de um superior, eles pedem à plateia que analise a situação fria e racionalmente: "Please give us at least the credit for being completely disinterested in this business." O rei pregava a subordinação da esfera religiosa à política; Becket queria o oposto. Se antes o arcebispo tinha sido um chanceler exemplar, ele se tornara um fanático egoísta que não pensava mais no bem do povo, e só na religião. Tendo isso em vista, não seria possível justificar o assassinato de Becket como um mal necessário? Há dois níveis de retórica operando aqui. Primeiro, a retórica dos próprios cavaleiros, que apelam à plateia para que compreendam seus motivos. Há também a retórica da peça em si, a moral da história, que atinge um ponto culminante durante esse diálogo. No mundo secular, liberal e racional, os cidadãos devem concordar com os cavaleiros (ainda que isso não justifique o assassinato). Afinal, somos a favor da separação da Igreja e do Estado, e contra o fanatismo religioso. A cena é uma provocação, ela convoca os espectadores a interagir ativamente com o que estão presenciando. Ela pergunta: Como você pode torcer pelo Becket, se você se alinha politicamente com seus assassinos? Essa cena, como outras, nos lembra que, apesar de a peça se passar no século XII, há muito de moderno nela. Eliot, que estava escrevendo nos anos 1930, não queria escrever um enredo histórico qualquer, e sim algo que pudesse ter relevância moral para a realidade em que ele vivia, que ele acreditava afligida pelo materialismo e pelo vazio espiritual. Evidentemente, os limites da peça vão se situar nos limites do pensamento político (cristão) do Eliot, e na sua miopia ideológica particular. Aqui, como em toda sua obra, o autor brilha no vácuo, no absurdo, no espaço esvaziado de sentido e estéril. Encontramos isso no The Waste Land: "I knew nothing, looking into the heart of light, the silence." Na peça, lemos: "the Void, more horrid than active shapes of hell; emptiness, absence, separation from God (...) Not what we call death, but what beyond death is not death." Quando ele tenta preencher esse vazio com um conteúdo positivo, uma lição de moral cristã, ele é pouco convincente senão para aqueles que já concordam com seu ponto de vista religioso e aristocrático. Eliot traz a retórica da persuasão, mas ele se comunica por imagens, por aforismos místicos, não pela lógica da oratória. Em outras palavras, ele não vai persuadir ninguém. Enfim, na mesma medida que a peça é ideologicamente frustrante, ela também tem momentos de imensa beleza poética e temática. O texto é atravessado pela problemática da passagem do tempo e dos ciclos temporais, que se manifestam nas transformações da natureza. É o coro que vai articular isso, trazendo imagens de bichos e plantas que se tornam grotescas, degradadas; expressando ansiedade pelas estações que vêm e vão causando sofrimento aos homens: "What sign of the spring of the year? Only the death of the old: not a stir, not a shoot, not a breath. (...) And the world must be cleaned in the winter, or we shall have only a sour spring, a parched summer, an empty harvest." Destaco ainda a minha passagem favorita da peça, uma fala do Becket: "We do not know very much of the future Except that from generation to generation The same things happen again and again. Men learn little from others’ experience. But in the life of one man, never The same time returns. Sever The cord, shed the scale. Only The fool, fixed in his folly, may think He can turn the wheel on which he turns." Só pela poesia já vale a recomendação da peça!

    1 curtida

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    • 2 estrelas8%
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    Thomas Stearns Eliot

    Eliot nasceu nos Estados Unidos, mudou-se para a Inglaterra em 1914 (então com 25 anos) e tornou-se cidadão britânico em 1927, com 39 anos de idade. T. S Eliot residia em Londres. Depois da guerra, nos anos vinte, ele passou muito tempo com outros grandes artistas na avenida Montparnasse, em Paris, onde foi fotografado por Man Ray. A poesia francesa exerceu grande influência na obra de Eliot, em particular o simbolista Charles Baudelaire, cujas imagens da vida em Paris serviram de modelo para a imagem de Londres pintada por Eliot. Ele começou então a estudar sânscrito e religiões orientais, chegando a ser aluno do renomado armênio G. I. Gurdjieff. A obra de Eliot, após a sua conversão ao cristianismo pela Igreja Anglicana, é frequentemente religiosa em sua natureza e tenta preservar o inglês arcaico e alguns valores europeus que ele julgava serem importantes. Publicou o poema The Waste Land em 1922; em 1927 obteve a nacionalidade britânica. Em 1928, Eliot resumiu suas crenças muito bem no prefácio de de seu livro "Para Lancelot Andrews": "O ponto de vista geral [dos assuntos do livro] pode ser descrito como classicista na literatura, monarquista na política e anglo-católico na religião." Essa fase inclui trabalhos poéticos como Ash Wednesday, The Journey of the Magi, e Four Quartets. Recebeu o Nobel de Literatura de 1948.

    59 Livros
    131 Seguidores
    Missouri, Estados Unidos

    Thomas Stearns Eliot