Como já é de praxe (e um recurso editorial/comercial muito eficiente), as edições de "Berserk" encerram histórias ou arcos e começam outros no mesmo volume, para garantir o velho efeito do "gancho para a próxima edição". No caso deste volume 16, ele conclui o "Capítulo das crianças perdidas" (a história dos elfos do Vale da Neblina) e começa o "Capítulo dos acorrentados". Aqui, Miura começa a trabalhar um tema que até então tinha ficado de escanteio no universo de "Berserk": a religião. Não a religião na forma demoníaca dos God Hand e seus Apóstolos, mas o cristianismo em seu molde fanático e paranoico da Idade Média. Miura destaca os Cavaleiros das Correntes Sagradas, uma espécie de exército de elite do Vaticano incumbido de verificar as ocorrências de heresia e lidar com elas daquele jeitinho que tornou a Inquisição europeia tão famosa nos livros de História. Desde o volume anterior eles estavam à caça de Guts, que vem deixando uma trilha de corpos por onde passa (as crianças "elficadas" e os Apóstolos, que voltam à forma humana depois de mortos).
O ponto mais interessante deste volume, em minha opinião, é que aqui Guts começa a sofrer as consequências de sua natureza "berserker". Por ter tido contato com a dimensão demoníaca e sobrevivido ao sacrifício, e por se deixar dominar por aquela fúria incontrolável que o faz agir como um borrão de violência, Miura passa a sugerir que Guts carrega uma fera demoníaca dentro de si. Não chega bem a ser uma grande revelação, pois o Cavaleiro da Caveira já o alertou acerca do caminho sombrio que ele terá de percorrer em sua jornada de vingança no mundo das trevas. Quanto de sua humanidade vai resistir à missão, esta é a questão.