Minotauro -

    Benjamin Tammuz

    Rádio Londres
    2017
    189 páginas
    6h 18m
    ISBN-10: 8567861227
    Português Brasileiro

    No dia do seu quadragésimo primeiro aniversário Alexander Abramov, um agente secreto israelense desconectado da família e em plena crise existencial, encontra em um ônibus de Londres uma linda e jovem inglesa que tem metade da sua idade e logo a reconhece como a mulher que ele tem procurado durante toda a sua vida. Apesar de eles nunca terem se encontrado, Alexander está certo de que a garota é uma parte vital do destino dele. É o começo de uma obsessão que leva o homem a usar todas as técnicas da sua profissão e sua rede de contatos para tomar controle da existência da jovem, sem jamais revelar a própria identidade. A única forma de comunicação entre os dois é uma densa troca de correspondência. Quatros vidas se encontram e se entrelaçam neste grande romance, híbrido originalíssimo de spy novel e reflexão existencial, formando um enredo intrincado e cheio de suspense que cativa o leitor desde a primeira linha e o conduz lentamente até o trágico, culminante final.

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    Nanci23/03/2015Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Ao som de Mozart

    “Minotauro”, do escritor israelense Benjamin Tammuz, foi publicado originalmente em 1980. No Brasil, foi traduzido por Nancy Rozenchan, com edição da Rádio Londres, em 2015. A atmosfera é de ações clandestinas ou misteriosas, com texto ágil e cortes bruscos, que marcam o deslocamento do protagonista pelo tempo e espaço. Assim, sua história se entrelaçará com as demais, além de lhe permitir avaliar sua identidade, sua crise existencial: seu tempo e circunstância no mundo. O livro é dividido em quatro capítulos e nos apresenta, sem obedecer àquela divisão, quatro personagens: o protagonista é Alexander Abramov, agente secreto; Téa – uma jovem belíssima, por quem Alexander nutre uma obsessiva paixão; e dois personagens menores (G.R. e Nikos Trianda), igualmente seduzidos pela beleza hipnótica de Téa. Não há muito que dizer sobre os personagens, pois Tammuz os retratou com traços fugidios. Em contrapartida, se o leitor entrar no jogo ao substituir um dos personagens, encontrará um questionário extenso pela frente, não só de perguntas práticas, como outras de caráter íntimo: “Eu (Téa) aceitaria, sem reservas, as cartas anônimas e os discos de Mozart, presentes de Abramov, por mais de uma década?”; “Eu (Abramov) arriscaria tudo, em nome de uma obsessão?”; “Eu (Téa) trocaria a chance de encontrar um grande amor por uma fantasia?” (Téa ficou noiva de G.R., mas o casamento não aconteceu); “Eu (Trianda) enfrentaria um rival invencível, que só existe nas cartas e nos pensamentos de Téa?” Minotauro não apenas questiona o quanto e como nos deixamos envolver por mentiras; ele também nos desarma com o imenso poder de uma história bem contada e, não sei se serei clara na comparação, não se trata de "A" melhor história lida, seja um romance epistolar, de espionagem ou de amor. O que sobressai é a SEDUÇÃO – a linguagem como lugar da sedução; as palavras diabólicas, as situações-limite que misturam tortura, insanidade e prazer. Acima de tudo, Tammuz capturou e impregnou suas páginas com um fascinante elemento da sedução: o suspense. Acabei de ler Minotauro [imagine uma tela de Picasso] totalmente desencaminhada. Parabéns, Tammuz. Missão cumprida! “Não poderei explicar: desde o dia de que me lembro de mim, eu a procurei. Era claro para mim que você existia, mas eu não sabia onde. O meu trabalho me trouxe à cidade em que você vive. O meu trabalho é uma sequência de conjecturas, hipóteses, riscos. Escolhi este trabalho porque jamais amei alguém, além de você, apesar de ter tentado amar. Liguei a minha vida a um trabalho duro e cruel, porque eu precisava amar. Assim, amo o país a que sirvo, suas montanhas, seus vales, o pó, o desespero, suas estradas e seus caminhos.” [página 16] “Nikos soube que nenhum homem ocuparia no coração de Téa o lugar que o espectro tinha conseguido nas cartas. Se o Anônimo se apresentasse em carne e osso, talvez fosse possível derrotá-lo. Talvez a própria Téa tivesse se enjoado dele. Mas uma imagem feita de palavras e de tempo não podia ser aniquilada.” [página 103] “Recentemente pensei de novo sobre os três círculos que existem na música. (...) Agora vem a vez do terceiro círculo, por que o que é música, na realidade? É uma fala. Mas o compositor não fala com palavras e sim com símbolos.(...) E este mundo sobre o qual o compositor relata é um lugar real, (...) um lugar secreto, que pertence ao próprio ser humano. (...) Mas o compositor está disposto a dar licença para entrar. A questão é para quem ele dá licença. Penso que somente para quem é capaz de romper o terceiro círculo por forças próprias. Se o ouvinte tem força e inteligência para irromper no centro da música (...) ele é capaz de entender, e por isto tem autorização para adentrar (...) este centro que não é somente um local secreto, mas um lugar perigoso. (...) Se a pessoa o penetra, como suportará toda esta beleza e permanecerá viva?” [páginas 146/ 7] “Mas você e eu, Téa, estivemos – apesar de tudo já estivemos (...) naquele terceiro círculo, no coração da música (...) Estivemos imersos sós, ardendo na luz. Era uma luz que nenhum orgasmo tem capacidade de acender; estivemos juntos no amor cuja força é maior do que aquela com a qual as pessoas amam a si próprias. Lamento que jamais saberei o que sente uma pessoa quando sai deste círculo e encontra você ao seu lado. (...) Pois não é possível que não sinta que há um caminho de volta ao círculo interior, retornar a ele e sair dele até o dia da morte. E então talvez permanecer dentro dele para sempre. E talvez não sozinho. É possível acreditar nisso, com você junto comigo. E você está comigo, Téa.” [página 204]

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