A instituição familiar e a ordem sexual exploradora vigente não serão perdoadas.
Os padrões sexuais de nossa sociedade não são "naturais", são, antes, frutos de uma rígida e subjetiva ordem sexual, incutida e fortalecida pelas instituições exploradoras, como a família e a escola, disseminadas, ainda, pela herança cultural opressora.
O desejo-livre, oposto do desejo-produtor, é um perigo, nada mantém e nada gera a não ser prazer. O desejar precisa estar associado ao mercado, à dominação e propriedade. A ordem sexual é pilar essencial para qualquer regime explorador, mantê-la, em qualquer regime dessa característica, torna-se, então, uma necessidade dos exploradores.
Com muita inteligência, perspicácia e sarcasmo típico, o filósofo e romancista Tony Duvert defenderá esses e outros entendimentos. O Sexo Bem Comportado foi construído em cima de uma famosa coleção de enciclopédias sexuais - à época, consideradas progressistas, o que Duvert, sempre muito subversivo, discordou brutalmente - lançadas na década de 70. Em 1973, a versão original em francês do livro é lançada e um ano mais tarde, o livro aparece em língua portuguesa, publicado pela editora Edições Afrontamento, em Portugal.
Voltemos ao livro. Nele, Tony ainda dirá que a captação das crianças e da infância pelas instituições exploradoras é essencial para o manter da ordem. Castradas de vida social e pessoal, entregues desde sempre à instituição familiar e escolar, a criança é, à força, reduzida a um oco fantoche, apta para reproduzir aquilo que se quer e precisa. Qualquer imprevista e improvável revolta será rapidamente capitulada pelo uso do terror físico e psicológico. A criança é, em suma e nas palavras de Duvert, uma escrava. Escravo necessário.
A adolescência é um mar-morto, um resquício de revolta pode aparecer, nada que possa reverter os antecessores anos de castração, submissão e exploração, claro... O adolescente poderá debater-se, mas a sua capitulação é inevitável. Sua formação foi no seio familiar-reprodutor-da-ordem, as instituições frequentadas foram as com os mesmos interesses. A criança privada no espaço público e pública no espaço privado não será um adolescente capaz de subverter toda a ordem, castração, alienação, submissão em si incutidas, o seu futuro é, quase sempre, inevitável: assim que possível, será dono de sua própria fração de instituição familiar, procriará, educará-sob-a-ordem-vigente, em suma: fará aquilo que foi treinado para fazer, reproduzirá a ordem exploradora vigente.
Escrevo essa concisa resenha - ah, sim, ainda haveria muito para comentar - após reler O Sexo Bem comportado e confirmar que este é o livro mais subversivo que já tive prazer de ler. Uma gota de pimenta em cada olho nos fará quebrar visões petrificadas sob a sociedade como um todo.
É uma lástima, mas não surpreendente, que tenhamos apenas dois livros de Tony Duvert em língua portuguesa (O sexo bem comportado e Retrato de homem faca, ambas edições lançadas em Portugal) e nem um lançado no Brasil. Anos 70, época em que esses livros deveriam brotar por aqui, o Brasil enfrentava, infelizmente, grandes e tristes problemas. Anos de chumbo, anos de ditadura ceifaram-nos intelectualmente.
Os resultados? Nada se fala e nada se debate sobre filosofia da infância no Brasil, um assunto frio, indiferente, que até mesmo a academia renega, Enquanto isso, a ordem disseca, livre e perversa, as crianças e a infância. Até quando? De forma latente, esse país clama por uma filosofia e filósofos da infância.
A definição de filosofia pelo platonismo é: "investigação da dimensão essencial e ontológica do mundo real, ultrapassando a opinião irrefletida do senso comum que se mantém cativa da realidade empírica e das aparências sensíveis.", e por essa definição enxergamos o poderio filosófico deste livro e de Tony Duvert.
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Semiotext(e) - A pequena grande editora independente. (Sobre esta edição)
Editora americana que trabalha com textos subalternos e marginais, a Semiotext(e) tem feito um magnífico trabalho na tradução das obras de Tony Duvert, que começa a (re)aparecer na língua inglesa. Desde 2007, já são quatro livros, alguns textos e ensaios traduzidos do francês para o inglês. Só podemos esperar ansiosamente por mais!