Acho que esse não é um livro que sirva muito bem como uma introdução aos filósofos da antiguidade, isso se devendo a abordagem que ele faz deles. Se você, leitor não especializado, buscar adentrar na filosofia por esse livro, recomendo que desista. Dou dois motivos para tal: primeiramente, esse não é um livro que informe, a maneira de um manual, o que pensaram certos filósofos. Bem dizendo, Onfray faz um comentário bastante pessoal dos pensadores da antiguidade, de modo que, caso os conheçamos de antemão (talvez pelos mesmo manuais que o autor critica...), teremos um proveito muito maior dessa obra; por fim, porque essa é uma "Contra história", ou seja, é um escrito que se coloca contrariamente a certa tradição histórica da filosofia, sendo que, para bem compreender a crítica, é melhor conhecer o seu objeto de análise, isto é, a história "usual" da filosofia.
Quanto a execução, o livro faz umas escolhas bem legais que podem suscitar polêmicas, como a não utilização de notas de rodapé e outros recursos que os filósofos abusam para demonstrar erudição, mas também, para promover o rigor no pensamento. Em que medida isso torna o livro superficial, eis algo que não sei dizer, pois pouco entendo de filosofia antiga - esse é um ponto que eu gostaria que fosse explorado e analisado por especialista ou crítico.
Toda a escrita de Onfray é literária, pessoal e bastante gostosa de se ler. Aliás, esse é um dos trunfos do livro, ser leve, pouco denso, o que é um alento quando se está lendo filosofia por algum tempo, já que a complexidade do assunto frequentemente impõe um peso desgraçado à escrita.
A escolha dos filósofos é bem interessante, pegando o "lado b" da filosofia, passando por aqueles filósofos ditos menores, lidos a partir de sua relação com os ditos maiores. Assim, passamos por Filodemo e Lucrécio ao invés de Aristóteles e Platão, por exemplo. O critério de escolha parece ser a existência de algumas características compartilhadas por esses filósofos: o materialismo, o hedonismo, a não religiosidade (ou não religiosidade cristã, ao menos), etc. No geral isso torna as coisas bastante interessantes já que, de fato, há preferências na maneira de se contar a história da filosofia e, quando lemos um manual, vemos que ele pouco se detem em figuras como Filodemo e Lucrécio. No entanto, Onfray não explora muito profundamente o motivo dessas escolhas, ao menos, não pelos pontos de vistas que poderiam prejudicar a visão que deseja promover. Platão é largamente ensinado não meramente pelo tipo de específico de filosofia que ensina, afinal, há muitos filósofos que são semelhantes a Platão (Leon de Hebreu, Plotino, etc), mas também pela inserção e importância histórica a qual esse filósofo possui. Nesse sentido, pouco importa o tipo de filosofia que esse pensador carregue - idealista, transcendentalista - mas sim o fato de que ele foi muito lido e influenciou muita gente, de maneira que conhecê-lo é, para aquele que deseja aprender filosofia, muito mais importante que conhecer Demócrito, por exemplo. Isso não significa que devemos esquecer ou deixar de estudar Demócrito, mas apenas que Platão, gostemos ou não (e eu nem gosto muito), é essencial.
Nisso, creio, está o problema do livro: ele é uma imensa apologia unilateral de um outro lado da filosofia a qual só faz sentido se aceitarmos a divisão de Onfray na qual a filosofia tem a linha idealista e a materialista, havendo, portanto, dois lados nessa história. Eu não gosto muito disso, embora me sinta mais contemplado na linha materialista em que o autor está, pois me parece redutor encarar a história da filosofia dessa maneira. Em muitos momentos parece que os pensadores que Onfray aborda são grandes expositores das mesmas verdades as quais ele próprio sustenta, por sinal, há vários anacronismos assim no livro, mas que em geral, são colocados como forma de provocação mais que erros de análise. Nesse sentido, alguns temas que são muito interessantes quanto a Grécia antiga e poderiam contribuir para uma revisão histórica do tema, mas que não convém a apologia de Onfray, são deixados de lado, como a existência de filósofas e de várias representações femininas nos mitos gregos com imensa importância para o pensamento do período (Diotima, por exemplo). Ao menos nesse primeiro volume a história da filosofia permanece sendo a história dos filósofos.
Enfim, há uma série de aspectos os quais poderiam ser analisados, creio que vários objeções podem ser colocadas quanto à minha leitura, mas fico por aqui.