O Incrível Testamento de Dom Agápito
"Há um alerta a se fazer: aquelas pessoas sensíveis a certas extravagâncias do gênero humano ou prezadoras do pudor não devem prosseguir. Este livro não foi escrito para elas". Conheci esse livro, de autoria de um jornalista paraibano, em uma reunião do Círculo do Livro e, naquela ocasião, já me interessei pelo enredo. Dom Agápito, rico mulherengo da cidade de Óbidos - a fictícia brasileira, e não a original portuguesa, nem tampouco a paraense -, falece e deixa um testamento, em que estabelece que, em não havendo herdeiro universal, deixa todo o seu legado para todas as mulheres que testemunharem - e convencerem - algum interlúdio sexual tido com o falecido. A cidade fica em polvorosa e se forma a fila das testemunheiras perante o Concelho (com C mesmo, conforme o livro) firmado pelo juiz, vigário e delegado, que também teriam seu quinhão na herança pelo serviço prestado. Daí em diante, vem uma sucessão de personagens com suas ligações com Dom Agápito, em meio a intrigas, reviravoltas, esperteza, tudo pontuado por um quê de comicidade em diversas passagens. E, apesar do alerta no início do livro, não se trata de um enredo indecente ou escandaloso. O livro é muitíssimo bem escrito em um estilo que lembrou Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por seus capítulos curtinhos e seu diálogo com o leitor, e critica, através de sua sátira, as mazelas humanas. O final foi muito criativo, seguindo por um rumo em que eu não havia pensado e que deixou aquele ar risonho no rosto. Recomendo veementemente.

