A história de uma garota que sofre muito desde o nascimento. As causas são fisiológicas, neurológicas, sociais e físicas, tudo o que está reservado para ela é sofrimento.
Em quadros bastante amplos e com uma coloração quente, Camilo Solano expressa bem o estado de espírito das personagens, algumas vezes de forma tão exagerada que beira ao horror ou ao cômico, mas sempre de forma condizente com o clima desesperançoso e pessimista da história.
Pelo discurso, tanto na voz da protagonista quando na do autor está muito claro que Maria veio ao mundo sem estar preparada para ele e o pior, que nunca estará. A ideia aqui não é que existem momentos tristes em meio a momentos felizes da vida, mas o exato oposto, entretanto mesmo esses momentos fugazes de felicidade são tirados com muita rapidez e facilidade. A moral é que você pode contar com a tristeza, ela sempre estará lá.
O discurso sobre o poder da música salvá-la da sua timidez, empodera-la diante da gagueira, permitir encontrar o lugar dela no mundo perde fôlego e amparo já que tudo isso levou ela para o mesmo lugar de todo o resto.
O mundo não é um mar de rosas, é verdade, e histórias tristes representam uma parcela da realidade, mas uma história cujo desenvolvimento se dá por uma série de eventos que denotam a vida miserável de alguém, com pequenas felicidades escorrendo pelas próprias mãos também não abarca toda experiência de viver no mundo.
A história tem poder pelo menos na sua forma de narrar, que está muito além do que está escrito, a história é fragmentada e não linear, o que pode representar as rupturas que a vida de Maria sofre, a própria disfemia (gagueira) e instiga no cérebro do leitor a tentativa de encaixar as peças do que está acompanhando. As passagens são interrompidas bruscamente por páginas pretas, essas que evidentemente contribuem para a sensação de pausa e silêncio entre os acontecimentos, formam mais uma camada sobre o cenário de tristeza e aumenta o peso visual do enredo.
É uma história de alguém machucado, que quer contar sobre mazelas, e tão somente causar a sensação de observador impotente diante da tragédia e a nós não cabe nada além de se indignar, ou sofrer com ela.
Minha experiência com esse tipo de história nunca é positiva, por mais que o incômodo seja uma ideia desse modelo de obra, não consigo concordar com essa forma como algumas lentes vêem o mundo.