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    O olho mais azul -

    Toni Morrison

    Companhia das Letras
    2003
    216 páginas
    7h 12m
    ISBN-10: 8535903151
    Português Brasileiro
    4.4
    7396 avaliações
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    Nos Estados Unidos da década de 1940, garotas negras e pobres costumavam ganhar de presente bonecas brancas de olhos azuis e tomar leite em canecas estampados com o rosto da atriz-mirim Shirley Temple. A adolescente negra Claudia MacTeer abomina essa submissão do olas excludente da raça dominadora e dedica-se a desmembrar bonecas brancas com um ódio instintivo e autoprotetor. Mas sua frágil amiga Pecola Breedlove, filha de um negro alcoólatra e violento, reza para ter olhos azuis - um delirante e inconsciente desejo de redenção e ascensão social. Está aberto o caminho para a poesia, para a tragédia, para o peso esmagador da história e para a tomada de consciência das desigualdades raciais, linhas de força deste O olho mais azul, romance de estreia de Toni Morrison, uma das mais talentosas e lúcidas escritoras norte-americnas modernas, ganhadora do Nobel de Literatura de 1993.

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    Resenhas (993)Ver mais
    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo26/03/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O trágico ato de existir para resistir

    A literatura competente não tem barreiras nem limites para acontecer, além de subverter regras pré-estabelecidas. E aqui temos uma joia que se encaixa perfeitamente nessa linha de definição, pois “O olho mais azul” é uma rara peça de arte. Toni Morrison é uma figura singular. Primeira e única mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura, pelo menos até o momento em que esta resenha vem ao mundo, Morrison, que infelizmente faleceu em 2019, foi “a” intelectual estadunidense dos últimos anos. E fica fácil perceber o porquê depois de ler esse livro. É importante contextualizar o momento de lançamento de “O olho mais azul”. O ano é 1970. Os Estados Unidos tinham perdido, apenas dois anos antes, o grande ícone do movimento pelos direitos civis, o doutor Martin Luther King Jr.. É nesse contexto em mente, de um país que àquela época estava fervilhando em suas desigualdades sócio-raciais, que o livro cresce, pois ao olhar para trás e contar uma história que se desenrola logo após o fim da Grande Depressão, Morrison faz uma sólida reflexão sobre a condição dos negros estadunidenses. Em “O olho mais azul”, Toni Morrison oferece a seus leitores uma minuciosa investigação dessa experiência negra na América, em particular da mulher negra e pobre nos Estados Unidos. Com uma narrativa fragmentada extremamente oral e, em momentos chaves, visceral, a autora desnuda a invisibilidade que persiste na mais covarde das violências, o racismo. Não há espaço para inocentes no mundo, irá concluir Morrison. No entanto, é na resistência e dentro da representação literária que ela irá dar voz a experiências e identidades que, antes dela, pertenciam a uma posição marginalizada dentro da literatura. Durante a leitura, em um ponto chave do romance, eu tive um choque. E nesse choque tive certeza de que eu não estava lendo um livro qualquer. É nesse momento, também, que comecei a fazer associações com outras artes, no caso o cinema, ao comparar o que lia com cenas de dois filmes importantíssimos sobre o tema racismo: “No calor da noite” e “Mississipi em chamas”. Ali, nesse ponto, o jogo de espelhos de Morrison é magistral. E há uma personagem inesquecível, claro. É através de Pecola, personagem chave do romance, que mora o calcanhar de Aquiles dos leitores. Ela é apenas uma menina negra que deseja olhos azuis, mas por trás desse desejo há muita dor e sofrimento. Ela deseja olhos azuis porque sofre discriminação de raça, gênero e classe. Deseja olhos azuis porque é abusada por negros e brancos, e sofre dos primeiros um abuso físico e psicológico (vejam que escolha dolorosamente interessante!!). É do ódio, portanto, que se constrói a sua personalidade. É no estigma que carrega, de não compreender a complexa realidade e valores de uma ideologia dominante, que Pecola sofre. E nós sofremos juntos através desse sentimento que cabe tão bem à literatura chamado empatia, tão em falta na sociedade ontem, hoje e sempre. Leia, releia, reflita, discuta e indique “O olho mais azul”. E isso se torna obrigatório se você está situado, quer você queira ou não, no lado opressor da nossa sociedade - como é o meu caso. Somente assim é possível aproveitar ao máximo o livro, pois o mundo - em especial o mundo branco - não terá a oportunidade de experimentar uma obra dessa magnitude outra vez. Ou talvez não seja preciso: livros como esse são definitivos, sobrevivem às imperfeições do tempo e recusam imitações mal formuladas.

    244 curtidas

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    Avaliações

    4.4 / 7396
    • 5 estrelas45%
    • 4 estrelas39%
    • 3 estrelas14%
    • 2 estrelas2%
    • 1 estrelas0%
    Chloe Anthony Wofford profile picture

    Chloe Anthony Wofford

    Morrison escreveu 11 romances em uma brilhante carreira literária e premiada que durou mais de seis décadas. Ela ganhou o Prêmio Pulitzer e o American Book Award em 1988 por seu romance de 1987 “Amada”. Ambientada após a Guerra Civil americana na década de 1860, a história era centrada em um escravo que escapou de Kentucky para o estado livre de Ohio. O livro mais tarde foi transformado em um filme estrelado por Danny Glover e Oprah Winfrey. Morrison recebeu vários outros prêmios, incluindo o Prêmio Nobel de Literatura em 1993. Em 1996, ela foi homenageada com a Medalha de Honra da National Book Foundation. Em 2012, o então presidente Barack Obama lhe entregou Medalha Presidencial da Liberdade e, em 2016, ela recebeu o prêmio PEN/Saul Bellow pelo conjunto de sua obra na literatura de ficção americana. “O olho mais azul”, seu primeiro romance, foi publicado em 1970. Foi o livro da Tag Curadoria de Março de 2019. Ela prosseguiu com “Sula” em 1973 e, depois, publicou outros nove romances. Também passou um tempo como editora na Random House e lecionou na Universidade de Princeton.

    74 Livros
    270 Seguidores
    Ohio, Estados Unidos da América

    Chloe Anthony Wofford