O Véu Pintado (Coleção Catavento #58) -

    W. Somerset Maugham

    Globo
    1963
    214 páginas
    7h 8m
    ISBN-10: 8501017256
    Português Brasileiro

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    Carla Silva12/04/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Economia que funciona como sutileza

    Maugham está entre os primeiros escritores "para adultos" que li; entre os 13 e os 16 anos, estava lendo Oscar Wilde, Dostoiévski, Jack London, Françoise Sagan... e Maugham, com "Histórias dos Mares do Sul". Mais tarde, seria a vez de "Servidão Humana" que me impressionou. Mais tarde ainda - nos últimos tempos de faculdade - "O fio de navalha", que me irritou e decepcionou. Viria ainda a ler "Um drama na Malásia". Mas a má impressão de "Navalha" pode ter atrapalhado outras possíveis leituras do autor. "O véu pintado" me impressionou; a trama não é original - um caso de adultério - mas torna-se assim pelos detalhes - a descoberta feita pelo marido, e a "solução" dada por este ao futuro dele e de Kitty - e pela força de seu casal de protagonistas, Kitty e Walter Fane. Os caracteres são bem explorados e, no caso do marido, Walter, habilmente construídos; mas somente acompanhando toda a história, até seu desfecho, apreendemos toda a complexidade do personagem. Kitty atravessa a prova- ultimato de Walter, prova e ultimato que lhe revelam o verdadeiro caráter do amante, e a revelam para si mesma. Ela descobre profundezas de si que não conhecia; é levada a pensar, ao invés de passar levianamente pelas situações. O climax, ou o apogeu da história, pareceu-me mais ou menos oculto pelo autor: o fato de que Walter também desconhece essa Kitty... O estilo de Maugham corre pela página; não há ruídos, tropeços, cansaços em passagens determinadas; lê-se com facilidade essa história de traição ,desilusão, vingança, e transformação. Apenas me pareceu que Maugham poderia ter "mergulhado" mais em Kitty antes da cena final - seu retorno para a família. Terá sido de propósito, por sentir que comprometeria a fluidez do texto? Não sei. O que fica, ao término da leitura, é a impressão de - não exatamente sutileza, um campo mais de Henry James, Edith Wharton e Ishiguro; mas de economia e concisão, o que pode substituir às vezes a sutileza num texto. E o personagem de Walter Fane - de uma sensibilidade exacerbada, unida a vida mental demasiado lúcida, vívida; a inteligência que o tornou arrogante nos seus silêncios, e a sensibilidade doentia que o atraiçoou; seu fim deixa uma suspeita (ao menos nesta leitora): a compreensão de que se enganara com Kitty, aliada a essa sensibilidade que o impossibilitou o perdão, não o terá levado ao suicídio? Que julgue o próximo leitor.

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