Eu sinceramente não sei como esse livro conseguiu me decepcionar tanto, ele tinha absolutamente tudo pra funcionar: mitologia japonesa, uma protagonista meio kitsune, caçadores de demônios e uma jornada que se passa no Japão feudal (tipo Kimetsu no Yaiba). Parecia muito incrível no papel, mas acabou sendo uma das leituras mais frustrantes e cansativas que já tive. A protagonista (Yumeko) não conseguiu me cativar, eu até entendia perfeitamente a intenção da autora: a Yumeko foi criada em um templo, isolada do mundo, então fazia sentido que ela fosse muito inocente, gentil e ingênua. O problema é que isso rapidamente deixa de ser uma característica e vira a personalidade inteira dela, a Yumeko passa o livro inteiro sendo a garotinha fofinha, inocente, que não sabe o quão atraente é e que escapa de qualquer situação perigosa simplesmente porque todos ao redor ficam encantados por ela. Em nenhum momento ela é desenvolvida, não existe evolução nenhuma e ela termina o livro do mesmo jeito que começou: passiva, sem graça e com uma inocência tão exagerada que deixa de parecer humana.
E aí temos o Tatsumi, que deveria ser o grande interesse do livro. Ele claramente foi escrito pra ter aquela vibe de guerreiro frio e emocionalmente fechado, quase um Sasuke Uchiha. E eu adoro o Sasuke, então teoricamente eu deveria ter gostado do Tatsumi também, mas não! O Tatsumi é como pegar esse arquétipo e retirar tudo o que o torna interessante, ele é sério o tempo inteiro, responde tudo como um robô e não demonstra nenhuma nuance ou personalidade própria. Todas as interações dele com os outros personagens são extremamente maçantes, porque ele parece incapaz de agir como um ser humano normal. Não há química, não há tensão interessante, não há nada, só um homem eternamente emburrado dizendo frases secas. A pior parte disso tudo é que o livro ainda tenta fazer a gente acreditar que todo mundo está fascinado por Yumeko e que Tatsumi está desenvolvendo sentimentos profundos por ela. Mas como? Eles mal têm conversas interessantes, o relacionamento dos dois é construído em cima de absolutamente nada.
Outro grande problema é a trama, parece que ela nunca anda. O livro joga uma quantidade absurda de informações em cima do leitor logo nas primeiras páginas: pergaminhos super importantes, clãs, monges, yokais, onis, samurais, demônios, espíritos, dragões, etc. Acho que umas dez criaturas diferentes já tinham aparecido nas primeiras 10 páginas. É informação demais, rápido demais e da forma mais superficial possível, nada é explicado direito. O tal pergaminho importantíssimo, que deveria ser o centro da história, recebe explicações extremamente rasas. Os demônios existem porque sim, os clãs também existem porque sim, nada é justificado. As regras do mundo são vagas e confusas, o livro parece presumir que o leitor vai aceitar qualquer coisa sem questionar, mesmo quando nada faz sentido. Em vez de desenvolver as ideias com calma, a autora vai jogando mais e mais conceitos na história e espera que isso pareça super complexo. E isso é especialmente decepcionante porque um dos maiores atrativos do livro era justamente uma história inspirada na mitologia japonesa. Eu gosto muito de fantasia baseada em culturas asiáticas (apesar de eu ter mais familiaridade com a cultura chinesa, também gosto bastante da japonesa), então achei que esse seria um daqueles livros ricos em ambientação e referências interessantes, só que tudo parece extremamente artificial e mal elaborado.
A sensação que ficou é que a autora pegou vários elementos superficiais da cultura japonesa e foi espalhando pelo texto sem realmente construir algo consistente, em vez de soar natural, ficou parecendo uma versão caricata do Japão feita para impressionar pessoas que só conhecem anime. Os personagens ficam soltando palavras em japonês aleatoriamente no meio das frases (como baka, nani, ano, ne, sugoi, etc) e os honoríficos (chan, kun e san) aparecem de forma completamente inconsistente. Às vezes são usados, às vezes não, sem nenhuma lógica, parece aquele tipo de pessoa que assiste anime e começa a enfiar palavras japonesas no meio das frases para parecer legal. Isso me fez perder o gosto total pela história, porque nunca parecia algo autêntico. Parecia apenas vergonha alheia, o livro inteiro tem uma energia de "coisa de otaku", mas do pior tipo possível: é aquele tipo de obra que acha que repetir palavras em japonês e colocar um protagonista sombrio automaticamente cria profundidade.
A escrita também não ajuda em nada. Os diálogos são incrivelmente rasos, artificiais e simplistas. A trama tenta ter uma atmosfera mais madura, quase de fantasia para adolescentes mais velhos, mas os personagens falam de um jeito tão direto e infantil que às vezes parecia que eu estava lendo um livro para crianças. Isso torna impossível levar qualquer conflito a sério, principalmente o vilão, que nunca parece ameaçador de verdade. No fim, o livro me deu uma experiência bem exaustiva, foi provavelmente um dos livros mais difíceis que eu já me forcei a terminar nos últimos tempos. Continuei lendo porque achei que em algum momento a história iria melhorar, que os personagens iriam ganhar profundidade ou que o mundo finalmente faria sentido, Mas isso nunca aconteceu. E, sinceramente, não tenho a menor intenção de ler os outros dois livros da trilogia. Se o primeiro já conseguiu ser tão frustrante, eu não faço questão nenhuma de descobrir como isso continua.