O livro O Comprador expõe o sentido da vida como ele parece ser: absurdo. É uma ficção envolvente sobre a condição de existir do ser humano. E o que cada um faz com ela.
A narrativa apresenta um encontro de grandes consequências entre o bilionário Ludwig Wistemburg e o pequeno garçom italiano Francesco, no restaurante Entrecôte DIvoire, em Céligny na Suíça. Ludwig compra a vida de Francesco em uma assombrosa troca comercial voluntária entre as partes, mediante vultoso retorno do investimento.
A condição financeira antagônica dos personagens evidencia o mesmo lugar do vazio, que reina soberano nas duas vidas.
A ambientação é amparada finamente pelo conhecimento do autor sobre arte, música clássica e literatura. As referências culturais inspiram sensações que favorecem a tradução daquelas vidas estranhamente intrincadas, sendo decompostas. Como quando o diário de um perverso é iniciado por Ludwig ao som dos fragmentos da peça Mysterium, do compositor russo Alexander Scriabin, escolhida por Ludwig para ocasiões especiais de euforia ou desespero.
Trocas de cartas entre comprador e cliente articulam o mais solene e livre despejo de espíritos, soltura da dignidade humana e descarga emocional entre Ludwig e Francesco.
Os personagens arriscam uma tentativa alucinada para encontrarem algum sentido da vida. Ou para abandoná-lo. E o fazem com liberdade e renúncia. A liberdade grotesca de comprar e vender uma vida. E a renúncia da própria liberdade para servir voluntariamente a outrem, conceito introduzido por Étienne de La Boétie no seu Discurso da Servidão Voluntária.
É uma obra que precisa de pouca luz para brilhar, emprestando as palavras do narrador ao descrever na primeira página a sala de armas do castelo da residência de Ludwig Wistemburg. Sobre a cadeira Luís XV destaca-se um quadro do artista Camille Corot. Uma paisagem de natureza morta com força arrebatadora dá ideia da força de uma vida abastadamente sem vida. Uma obra com elementos de reflexão sobre o sentido da vida, a natureza do ser humano e a liberdade, a dominação e a opressão, que podem ser voluntárias. Claudia Lubi