A reforma protestante é um assunto que costuma suscitar paixões de católicos e protestantes. Se de um lado temos uma crítica acalorada, do outro temos os louros de um projeto quase divino.
Brentano propõe um caminho sincero de avaliação do reformador abordando o que nenhuma posição extremista consegue produzir em sua totalidade: a complexidade de Lutero. E isso se baseando em seus próprios escritos, cartas, no testemunho de seus seguidores e adversários contemporâneos.
Em resumo, o autor capta toda as características de sua personalidade complexa, sem soar indulgente ou crítico, mas realista. É uma leitura que desmistifica o ícone ao passo que provoca reflexões de um homem criado num contexto extremamente diverso. Crise no clero, disputas sociais, problemas no Império, guerras. São varios os ambientes em que as ações de Lutero encontraram eco. E com isso, o autor lida com as muitas contrariedades da vida do reformador. Sua crítica ao papado (muitas vezes desproporcionada), suas alianças com uma parte da nobreza entusiasta da reforma, sua relação com os camponeses sedentos por uma reforma social, seus debates e disputas acaloradas com adversários e amigos (como Erasmo), com um todo muito complexo da personalidade de homem colérico e decidido a não retroceder um passo.
Aos católicos a leitura é valida no sentido em que dá contexto e profundidade as ações do reformador. Aos protestantes, diria até que mais importante é esta leitura pelo efeito "desmitologizador" que ela causa. Afinal, há muitos eventos por trás da imagem do homem de causou o protestantismo que quase nunca são abordados ou são romantizadas excessivamente.
Para quem gosta do tema e de uma abordagem não somente histórica, daquelas que narram os eventos apenas, Brentano aqui estuda como cada detalhe se conecta ao contexto de sua personagem. Vale muito a leitura.