Eu tenho uma certa resistência a livros que contam histórias reais. Um pouco contraditório para uma jornalista, mas já era assim antes de qualquer formação superior. O meu problema com esse tipo de literatura é que muitas vezes as pessoas possuem boas histórias, mas não pesquisam as técnicas que vêm com a escrita. Escrever um livro é muito mais do que colocar no papel o que se viveu, e em A história de um resgate temos uma equipe que parece ter se atentado a isso.
A jornada de Anjali é contada por Rafael Marques. No início eu não tinha expectativas muito altas mas, mesmo o estilo do autor não sendo meu favorito, ele consegue descrever sentimentos e possui uma certa harmonia durante o texto. É algo difícil de explicar, mas durante a prosa podemos notar nuances poéticas que tornam a narrativa única.
Os sofrimentos da pequena tamang são brutais e tão distantes da minha realidade que compreendo que o maior mérito da obra é nos alertar para estes crimes tão graves. O tráfico humano foi a atividade ilegal que mais cresceu neste século, é parte da nossa realidade e vivemos alheios a isso. Esse livro é uma denúncia que precisa ser ouvida para que todo o sistema criminoso seja punido.
Houve algumas escolhas de revisão que me incomodaram na leitura, especialmente o excesso de reticências. É uma coisa pequena, mas que em alguns momentos interrompeu meu fluxo de imersão no que estava sendo narrado. Um detalhe que tem mais relação com gosto pessoal do que com a qualidade do material. A diagramação é cuidadosa e o livro é lindo, mas o uso de fontes cursivas nos trechos narrados pela menina também me incomodou.
Por fim, chorei e sorri com a história de Anjali. Eu realmente espero que ela consiga realizar o sonho de transformar sua comunidade.