Outro tempo -

    W. H. Auden

    Relógio d´água
    2003
    243 páginas
    8h 6m
    ISBN-13: 9789727087280
    Português

    A Lei, diz o jardineiro, é o Sol, A Lei é o farol Que guia o jardineiro O tempo inteiro. A Lei é a sageza de antigamente, O ralhete estridente do avô impotente A quem os netos deitam uma língua rude, A Lei são os sentidos da juventude. A Lei, diz o padre, com seu ar de vigário, Para um povo bem pouco sacerdotal A Lei está escrita no meu missal, A Lei é o meu púlpito, o meu campanário. A Lei, diz o juiz, empinando o nariz, Num tom severo e isento, A Lei é, como vos disse uma vez, A Lei é, como do vosso conhecimento, A Lei é, mas posso explicar outra vez, A Lei é A Lei. E todavia escrevem os doutos escrivães, A Lei não é certa nem errada, A Lei são apenas infracções Punidas em certas ocasiões A Lei é a roupa usada Em qualquer sítio, a qualquer hora, A Lei é Bom-dia, ou Vá-se embora. Outros dizem, a Lei é o nosso Fado; Outros dizem, a Lei é o nosso Estado; Outros ainda reagem, A Lei é nada, A Lei partiu de viagem. E sempre a multidão com a raiva na voz, A multidão revoltada num escarcéu, A Lei é Nós, E sempre o manso idiota mansamente Eu. Sabendo nós, amor, que não sabemos mais Do que eles sobre a lei, Se eu mais do que tu não sei O que devemos ou não devemos fazer, A não ser que é ponto assente Feliz ou infelizmente Que a lei é E é só o que há a dizer, E se parece, assim, uma absurdidade Identificar a Lei com outra realidade, Ao contrário de tantos outros Não posso eu repetir Que a Lei é, Não podemos, mais do que eles, suprimir A ânsia universal de pressentir Ou de abdicar da nossa posição Em favor de uma indiferente condição. Embora possa pelo menos resumir A tua e a minha vaidade Atrevendo-me a supor Uma ténue afinidade, Podemos, apesar de tudo, presumir, Por hipótese, como o amor. Como o amor não sabemos onde nem porquê Como o amor que não podemos coagir Como o amor de que não podemos fugir Como o amor que amiúde choramos Com o amor que raro guardamos. .... Envolto num ar complacente Junto à fome da flor silente À clandestina vaga da árvore, Junto à alta febre da ave De fome e raiva eloquente De erecto esqueleto imponente, Ergue-se o amante expressivo, Ergue-se o homem deliberado. Sob o Sol descuidado e quente, Entre mais fortes bichos belos, Segue caminho, arma vivente, Com arma e lentes e bíblia, Investigador militante, O amigo, o audaz, o adversário, O ensaísta, o capaz Capaz por vezes de chorar. A pedra sem paixões nem ódios Cerca-o por todos os lados, O Irmanado, o Não Só, O integrado e o odiado, A quem ensinaram os parentes A enfrentar os parvos e os grandes, Os eternos e permanentes, Com o seu dinheiro e o seu tempo. Porque as ténues esperanças maternas São esposas que lhe enfadam a alma Cedo enfadada pela moral Da enfadonha ama, a terna Traidora. E herda puerilmente, Por lídimo pai enganado, O alto torreão encantado Que infelizmente está trancado. E a mando de mortos ignotos, No engodo de boas hipóteses, Assente no banco dos loucos, Ou o banco da decepção, Ei-lo sanguinário e sereno Entre encantos sedutores, Pois grande é a sua visão E grande é o seu amor. Diz o escudo franco do Tempo Que jamais cessará a constante Contenda entre o anho e a tigreza Por mais que ele creia, inconstante, No seu sonho de tempos idos: Caçador e vítima unidos, O leão e a víbora, A víbora e a criança. Cada dia um novo amor O trai. Sobre o verde horizonte Galopa um novo desertor, E as aves murmuram a milhas Emboscadas e armadilhas; Rumará a novas derrotas, A outras dores e maiores Até derrotar a dor.

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