Pelo tamanho da obra, é um pouco difícil resenhar os Escritos de Lacan.
Infelizmente iniciei minha leitura na psicanálise lacaniana pelos Escritos. Hoje teria escolhido um caminho diferente. Muito da discussão fica perdida caso o leitor não esteja avisado da formação dos conceitos e problemas que podemos encontrar nos primeiros seminários. Fica claro o esforço de Lacan em articular as discussões mais recentes com o que foi discutido anteriormente nos outros seminários.
Não pretendo fazer aqui uma resenha detalhada dos Escritos, mas deixar algumas impressões rápidas da leitura.
Lacan está sempre insistindo na formação do analista, na definição de ciência e sua articulação com a psicanálise. É curioso notar como todos os textos são construídos através de diálogos externos com outros autores, carregados de ironias e críticas. Talvez essa seja a marca maior de Lacan. Sua teoria sempre está em pé de crítica com outros autores. A principal crítica que encontramos à psicanálise é a falta de rigor teórico dos pares.
Ao contrário do que costumamos ouvir nos cursos de graduação e escolas de psicanálise, Freud não escapa das ironias ácidas de Lacan. Não precisa de muito esforço para encontrar críticas ao empirismo freudiano, à ignorância do projeto freudiano ("Freud nunca soube muito bem o que estava fazendo" - p. 517). Não é à toa que ele fala de uma retomada ao avesso do projeto freudiano. Lacan diz que é preciso "reavaliar a ideia segundo a qual o inconsciente é apenas a sede dos instintos" (p. 498). É por isso que a todo tempo ele insiste na formulação de um inconsciente estruturado como linguagem. Isso, segundo ele, não se confunde "com as diversas funções somáticas e psíquicas", já que "a linguagem, com sua estrutura, preexiste à entrada de cada sujeito num momento de seu desenvolvimento mental" (p. 498).
Também fica evidente a influência da filosofia antiga para a concepção de ciência verdadeira cara a Lacan. Segundo ele, essa ciência teria se perdido com o advento do positivismo lógico e as ciências conjecturais seria um resgate desse modelo.
É curioso notar o desprezo que encontramos no campo psicanalítico em relação à ciência moderna. Lacan está a sempre insistindo na importância da ciência moderna para o surgimento da psicanálise, já que "sua práxis não implica outro sujeito senão o da ciência" (p. 878). Isso porque a ciência moderna promove uma torção radical na noção do sujeito e de sua relação com a verdade.
A matemática, a lógica e linguística também aparecem aqui como disciplinas fundamentais para a psicanálise. Para Lacan, não existe ciência sem suporte matemático. Lacan está dizendo que não existe experiência possível sem a mediação da matemática.