A alquimia da oração Filósofos, como Nietzsche e Schopenhauer, diziam que atrás da matéria está a vontade. Ou seja, existe uma vontade atrás de cada coisa material. É esta Vontade ou energia misteriosa que chamamos de Deus. Se procurarmos analisar todos os fenômenos milagrosos ocorridos através dos tempos, descobriremos que, em todas as situações e em todos os lugares onde se realizaram milagres, o indivíduo, objeto do fenômeno — aquele que recebeu a graça ou o prodígio —, foi tomado de repente por uma emoção muito forte, que lhe possibilitou realizar tarefas além da sua capacidade. A emoção é a chave do segredo para que se possa acessar a energia misteriosa que existe dentro de cada um de nós. Temos que fazer alguma coisa para nos tornar sensível; só assim podemos alcançar a condição indispensável para dar início à oração. É preciso aprender a orar. Vejamos uma oração para ser repetida diariamente, na busca da cura de qualquer doença, tendo as palavras necessárias e suficientes: “O poder infinito de Deus está fluindo através do meu corpo e está me curando”. Ou: “A força poderosa de Deus está me curando”. Não é preciso pedir, nem sequer propor troca de favores. Os verbos, ou as palavras, empregados na oração, devem ser colocados no tempo presente, e nunca no futuro. Toda oração deve ser praticada com amor no coração, pois essa é a força principal de onde tudo o mais deriva, energia motriz de todos os milagres. Para desfrutar dos completos benefícios das nossas orações, devemos praticá-las, no mínimo, duas vezes ao dia, durante o tempo que se fizer necessário. Recomenda-se não revelar o seu propósito a ninguém, para não perder o efeito. Somos todos partes da criação de Deus; só nos falta descobrir o que já existe dentro de nós, para acreditar em nossas próprias energias. A autoestima é imprescindível para sermos atendido em nossas orações. Ela é a soma da autoconfiança com o autorrespeito. Ela reflete o julgamento implícito da nossa capacidade de lidar com os desafios da vida (entender e dominar os problemas) e o direito de ser feliz (respeitar e defender os próprios interesses e necessidades). Desenvolver a autoestima é desenvolver a convicção de que somos capazes de viver e somos merecedores da felicidade e, portanto, capazes de enfrentar a vida com mais confiança, boa vontade e otimismo, que nos ajudam a atingir nossas metas e a sentirmo-nos realizados. Desenvolver a autoestima é expandir nossa capacidade de ser feliz. Autoestima, seja qual for o nível, é uma experiência íntima; reside no cerne do nosso ser. É o que EU penso e sinto sobre mim mesmo, não o que o outro pensa e sente sobre mim. Quando crianças, nossa autoconfiança e nosso autorrespeito podem ser alimentados ou destruídos pelos adultos – conforme tenhamos sido respeitados, amados, valorizados e encorajados a confiar em nós mesmos. Mas, em nossos primeiros anos de vida, nossas escolhas e decisões são muito importantes para o desenvolvimento futuro de nossa autoestima. Estamos longe de ser meros receptáculos da visão que as outras pessoas têm sobre nós. E de qualquer forma, seja qual tenha sido nossa educação, quando adultos o assunto está em nossas próprias mãos. Posso projetar uma imagem de segurança e uma postura que iludem virtualmente a todos e ainda assim tremer secretamente ao sentir minha inadequação. Posso preencher todas as expectativas dos outros e, no entanto, falhar em relação às minhas; posso conquistar todas as honras e apesar disso sentir que não cheguei a nada; posso ser adorado por milhões e despertar todas as manhãs com uma nauseante sensação de fraude e vazio. Chegar ao “sucesso” sem conquistar uma autoestima positiva é ser condenado a sentir-se um impostor que aguarda intranquilo ser desmascarado. Assim como a aclamação dos outros não cria a nossa autoestima, também não o fazem os conhecimentos, a competência, as posses materiais, o casamento, a paternidade, a dedicação à caridade, as conquistas sexuais ou as cirurgias plásticas. Essas coisas podem às vezes fazer com que nos sintamos melhor sobre nós mesmos temporariamente, ou mais confortáveis em situações particulares, mas conforto não é autoestima. A tragédia é que existem muitas pessoas que procuram a autoconfiança e a autoestima em todos os lugares, menos dentro delas mesmas, e, assim, fracassam em sua busca. Veremos que a autoestima positiva pode ser entendida como um tipo de conquista espiritual, isto é, uma vitória na evolução da consciência. Quando começamos a entender a autoestima dessa forma, como uma condição da consciência, entendemos quanta tolice há em acreditar que, se pudermos causar uma boa impressão nos outros, teremos uma autoavaliação positiva. A arrogância, a jactância e a superestima de nossas capacidades são atitudes que refletem uma autoestima inadequada, e não, como imaginam alguns, excesso de autoestima. Uma das características mais significativas da autoestima saudável é que ela é o estado das pessoas que não está em guerra consigo mesma ou com os outros. A autoestima é o componente avaliador do autoconceito. Nosso autoconceito determina nosso destino, isto é, a visão mais profunda de nós mesmos influencia todas as nossas escolhas significativas e todas as nossas decisões e, portanto, determina o tipo de vida que criamos para nós. Viver conscientemente significa assumir a responsabilidade pela percepção consciente adequada à ação na qual estamos engajados. Isso não significa que temos de gostar do que vemos, mas que reconhecemos o que é e o que não é, e que desejos, temores ou negações não alteram os fatos. A autoaceitação não implica uma ausência de vontade de mudar, melhorar ou evoluir. A verdade é que ela é uma precondição de mudança. Se aceitarmos de fato o que sentimos e o que somos, a qualquer momento de nossa existência, podemos nos permitir ser plenamente conscientes da natureza de nossas escolhas e atos, e nosso desenvolvimento não será bloqueado. Somos sempre mais fortes quando não tentamos lutar contra a realidade. Não podemos espantar um sentimento negativo gritando com ele, ou gritando com nós mesmos, ou cedendo à autocensura. Porém, se pudermos nos abrir para a nossa experiência, permanecer conscientes e lembrar que somos maiores do que uma única emoção, poderemos, no mínimo, começar a transcender os sentimentos indesejáveis e, muitas vezes, dispersá-los, uma vez que a aceitação plena e sincera tende, com o tempo, a dissolver os sentimentos negativos ou indesejáveis, tais como a dor, a raiva, a inveja ou o medo. Podemos com certeza aprender a dizer: “Estou sentindo medo e posso aceitar esse fato, mas eu sou mais do que o meu medo”. Em outras palavras, não devemos nos identificar com o medo. Pense: “Reconheço meu medo e o aceito. Posso lembrar como me sinto quando não estou com medo”. Esse é um recurso muito poderoso para lidar com o medo (ou com qualquer outro sentimento indesejável). São atos que você pode aprender, ensaiar mentalmente e praticar quando surgirem as situações de medo. Quando se explora o mundo do medo, da dor, da inveja, da confusão, ou do que for, você estará explorando o mundo da autoaceitação. Não fique numa posição antagônica diante de sua própria experiência. Se você permitir que a posição antagônica se desenvolva, intensificará os pontos negativos e se privará dos positivos. Quando lutamos contra um bloqueio, ele se torna mais forte; quando o reconhecemos e aceitamos, ele começa a se enfraquecer, porque a manutenção de sua existência requer oposição. Aceitar a nós mesmos é aceitar o fato de que as coisas que pensamos, sentimos e fazemos são todas expressão de nosso ser, no momento em que ocorrem. Os erros que desejamos encarar são os degraus de uma escada que leva a uma maior autoestima. Podemos ter medo de nossos pontos positivos tanto quanto de nossas fraquezas. Nossos pontos negativos colocam o problema da inadequação; nossos pontos positivos, o desafio da responsabilidade. Às vezes é mais fácil aceitar os próprios defeitos do que as próprias virtudes. A autoaceitação, em última análise, refere-se a uma atitude de autovalorização e de compromisso que deriva fundamentalmente do fato de que estou vivo e consciente de que existo. É uma experiência mais profunda do que a autoestima. É um ato de afirmação pré-moral, pré-racional, uma espécie de egoísmo primitivo que é direito de nascença de qualquer organismo consciente e que, no entanto, qualquer ser humano tem o poder de combater ou anular. É preciso assumir e agir de acordo com as próprias percepções e convicções, sem medo de desafiar ou ir contra os valores de pessoas influentes. Somente assim honramos ao nosso próprio ser. A falta de auto-honestidade ou autofidelidade gera raiva, frustração, medo e principalmente culpa. Quando saímos da infância e desenvolvemos nossos próprios valores e padrões, a manutenção da integridade pessoal assume uma importância maior para a nossa autoavaliação. Integridade significa integração de convicções, padrões, crenças e comportamentos. Quando nosso comportamento é coerente com nossos valores declarados, temos integridade, liberdade de escolha e independência pessoal. Um mau autoconceito é uma profecia que se cumpre por si e leva ao mau comportamento. Você precisa lembrar que, quando age, em algum nível está sempre lutando para satisfazer suas necessidades (como acontece com todos os organismos vivos). Nossos atos relacionam-se sempre com os nossos esforços para sobreviver, ou para proteger o “eu”, para manter o equilíbrio, para evitar o medo e a dor, para nos nutrir ou para crescer. Mesmo que o caminho escolhido esteja errado, mesmo que objetivamente estejamos engajados em autodestruição, subjetivamente, em algum nível, estamos tentando cuidar de nós mesmos. Um dos piores erros que podemos cometer é dizer a nós mesmos que o sentimento de culpa representa necessariamente algum tipo de virtude. A rigidez intransigente com nós mesmos não é motivo de orgulho. Ela nos deixa passivos e impotentes. Não inspira mudanças, paralisa. Sofrer é talvez a mais simples das atividades humanas; ser feliz é talvez a mais difícil. E a felicidade requer não a rendição à culpa, mas a emancipação da culpa. Pense em alguma característica negativa que você se atribui. Imagine então três situações na vida nas quais você não a demonstra. Veja depois se pode pensar em quaisquer situações nas quais você manifestou o comportamen to oposto. Realize esse exercício – de preferência fazendo anotações – com todos os traços negativos de caráter que você tende a se atribuir. Isso lhe dará oportunidade de abrir mão das ofensas e agressões à sua autoestima e, mais ainda, de acertar nas circunstâncias em que você se comporta de uma forma que não admira. Tente então identificar as razões por que essas situações parecem causar esse comportamento. O próximo passo – e novamente o caderno será útil – é projetar três reações alternativas que você poderá ter perante aquelas circunstâncias. Experimente essas reações na sua imaginação. Veja de qual você gosta mais e qual lhe serve melhor. Pratique, imaginando-se nesse novo e mais desejável comportamento. Veja você mesmo desempenhando com sucesso o seu novo papel e depois saia e ponha em prática o que já ensaiou. Já foi bem estabelecido que esse é um sistema comprovado de incrementar a sua eficácia no mundo. Se você perseverar, mesmo depois dos contratempos e das “recaídas” iniciais, descobrirá que subestimou radicalmente o seu poder de mudar (como todos tendem a fazer). Talvez eu deva enfatizar que assumir o que há de melhor em nós e sentir prazer com isso não é ser arrogante, pretensioso ou pomposo. Mas também não devemos querer mentir – para nós mesmos ou para os outros – sobre quem e o que somos. Não temos de nos desculpar perante a inveja nem tentar aplacá-la. A autoestima saudável proíbe esse tipo de capitulação. Nossa concepção de “ser” não se forma em um instante; tem uma história; desenvolve-se com o tempo. Se a nossa meta é avaliar a nós mesmos e a nosso comportamento de maneira adequada, abrindo caminho para uma autoestima mais elevada, precisamos muitas vezes voltar ao passado – àquele “eu” que fomos num momento anterior da nossa história pessoal – para abraçar, “perdoar” a nós mesmos e nos religar ao nosso eu-criança e ao nosso euadolescente. Quando aprendemos a perdoar a criança que já fomos pelo que ela não sabia, ou não podia fazer, ou não podia enfrentar, ou sentiu, ou não sentiu; quando entendemos e aceitamos a criança que estava lutando pela sobrevivência da melhor maneira que podia, o eu-adulto deixa de ser um adversário do eu-criança. Nenhuma parte está em guerra com a outra. Nossas reações adultas tornam-se mais adequadas. A autorresponsabilidade, concebida de maneira racional, é indispensável para uma boa autoestima. Evitar a autorresponsabilidade nos torna vítimas com relação a nossas próprias vidas. Ficamos desamparados. O que está em jogo não é o grau da nossa capacidade produtiva, mas a nossa escolha de exercer as potencialidades que possuímos. Quando tentamos viver de uma maneira inautêntica, somos sempre a primeira vítima, pois a fraude, em última instância, dirige-se a nós mesmos. A maioria recebeu uma educação que torna a apreciação da autenticidade muito difícil. Aprendemos muito cedo a negar o que sentimos, a usar uma máscara e, afinal, a perder contato com muitos aspectos do nosso eu interior. Tornamo-nos inconscientes de grande parte do nosso eu interior – em nome do ajustamento ao mundo que nos cerca. Autoestima não deve ser confundida com egoísmo. Quanto maior o nível da autoestima do indivíduo, mais ele tratará os outros com respeito, gentileza e generosidade. As pessoas que não vivenciam o amor-próprio têm pouca ou nenhuma capacidade de amar os outros. Bem, se “egoísmo” significa “estar preocupado com interesses particulares”, é claro que a busca da autoestima e do desenvolvimento pessoal é egoísta. Assim como a busca da saúde física. Assim como a busca da sanidade. Assim como a busca da felicidade. Assim como a busca do ar que respiramos. Ao apoiar a autoestima dos outros, apoiamos a nossa própria. Assim, a autoestima é beneficiada quando vivemos com benevolência. Quando vivemos em sintonia com o melhor que há em nós, provavelmente extrairemos o melhor dos outros. Aconselhar ou criticar geralmente tem efeitos reversos. Uma das experiências que as pessoas esperam ter na terapia (ou fora dela) é ser vistas e entendidas. Para compreender o outro, precisamos conhecer o contexto em que seu comportamento faz algum sentido ou em que ele se sente desejável, ou mesmo necessário, até se, objetivamente, tudo for totalmente irracional. Uma das características dos terapeutas eficientes, bem como dos melhores professores e treinadores, é que eles sabem que seus clientes têm um potencial maior do que eles mesmos às vezes reconhecem. Se quisermos alimentar a autoestima de outra pessoa, devemos nos relacionar com ela a partir da nossa própria visão de seu mérito ou valor, promovendo uma experiência de aceitação e respeito. Precisamos lembrar que quase todos nós tendemos a subestimar nossos recursos interiores – e manter esse ponto presente em nossa consciência. Somos capazes de realizar mais coisas do que acreditamos. Se isso permanecer claro para nós, os outros poderão adquirir esse conhecimento quase por osmose. Pode ser muito difícil continuar acreditando em uma pessoa quando ela parece não acreditar em si mesma. E, no entanto, um dos maiores presentes que podemos oferecer é a nossa recusa em aceitar de cara o autoconceito negativo da pessoa, vendo através dele o eu mais profundo e mais forte que existe como uma potencialidade dentro de nós. Nem sempre conseguimos obter sucesso – podemos apenas tentar. Na melhor das hipóteses, traremos para fora o melhor que a pessoa tem dentro de si. Na pior, fortaleceremos o melhor em nós mesmos. O individualismo não é um adversário da comunidade, mas o seu pilar mais importante. Honrando nosso eu, ajudamos a construir uma comunidade com autoestima saudável. Fazer surgir uma forte emoção, ser afirmativo, otimista e grato, bem como manter elevada a autoestima, eis aí a alquimia da oração.
A Alquimia Da Oração
Terry Lynn Taylor
Pensamento
1969
152 páginas
5h 4m
ISBN-13: 9788531510441
Português Brasileiro
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