O argentino César Aira, nascido em 1949, apesar de pouco conhecido no Brasil tem vários títulos lançados por aqui: A Trombeta de Vime (2002), As Noites de Flores (2006), Como me Tornei Freira (2013), Os Fantasmas (2017), entre outros. Ano passado (2017), uma nova editora carioca, a Papéis Selvagens, lançou este Continuação de Ideias Diversas. Justificou sua escolha como uma busca pela promoção e divulgação do "(...) trabalho de narradores que inventam formas de contar histórias e formas de ser em literatura hoje, lançando mão dos recursos do romance, do conto, das memórias, da autobiografia, da biografia ou do diário." Isso é exatamente o que o leitor vai encontrar aqui e um pouco mais: as tais ideias diversas do título.
Por exemplo, a seguinte: "Esta é uma ideia que tenho faz muito tempo, quase poderia dizer que desde sempre. Seu enunciado é simples demais: toda a complicação e a dificuldade de fabricar miniaturas poderiam ser evitadas fazendo-as maiores." Prático, não? Mas como fazer para se ter ideias brilhantes assim? Talvez porque desde muito cedo, aos catorze anos, Aira já lia Kafka, Proust e Borges. Depois ele afirma que aos vinte lia os livros que as pessoas costumam ler aos quarenta. E hoje em dia não tem muita paciência para ler novos autores que utilizam a narrativa com os verbos no presente: para ele o modo lógico de contar uma história é sempre o passado.
A maior parte dos inúmeros textos que compõem este livro, quase todos bastante curtos, menos de meia página em média, diz respeito a temas que envolvem literatura. Mas Aira aborda também questões ou ideias ligadas às demais artes, especialmente cinema, pintura, escultura. Quase sempre são digressões, divagações que faz. A certa altura ele pergunta: "Por que são infelizes os escritores? Para que o que escrevem tenha que ser tão bom para ter valido a pena sacrificar a felicidade por isso." Algumas páginas depois ele se põe a escrever de outra maneira o início de A Metamorfose, de Kafka, em que um pacífico inseto se vê transformado num homem, com todos os problemas de ser um homem, um verdadeiro pesadelo...
Este resumo dá uma ideia muito pálida daquilo que o leitor vai encontrar em Continuação de Ideias Diversas. O que me levou à procura deste volume foi a leitura, algum tempo atrás, de um conto de Aira que especialistas argentinos em literatura, numa votação, escolheram como décimo lugar entre os cem melhores do século XX do país, Muchacha Punk (Garota Punk), que faz parte de Vinte Ficções Breves, uma antologia de histórias curtas de autores argentinos e brasileiros contemporâneos. É um conto sensacional, em que um Aira mais comportado (ou focado, digamos assim) nos leva a uma Londres que existiu nos anos 1970. Ou na cabeça dele, por apenas uma noite de um remoto dezembro.
Lido entre 27 e 29/12/2018.