Já não tenho palavras para descrever a atenção de David Duchovny com as palavras. A sua preocupação com cada mínimo detalhe é tanta, que, ao final, ele não encerra com o habitual "the end", mas "an end", pois, pouco antes, numa fala, um dos personagens argumenta que não existe um único final, mas vários. Todos igualmente falsos e reais acontecendo em algum lugar, em algum tempo diferente.
Outro ponto que se destaca, para os leitores que acompanham os seus outros trabalhos, são as conexões entre a sua vida e a obra. Emer está longe de ser um halter-ego de David Duchovny, mas vive a mesma situação que ele viveu com o pai na Basílica de Sacré Cur, que inspirou o capítulo do homônimo do livro, e a sua música "Strange in the sacred heat", que quase foi título do disco. As aflições de um judaico não praticante em constantes crises de fé também constituem uma conexão notória com a sua pessoa.
Acredito que uma tradução para o português será muito afetada, pois será difícil traduzir diversas das expressões praticamente criadas por David, assim como é difícil traduzir Guimarães Rosa e o seu inventismo para o inglês. Além disso, as referências estaduinidenses e as fábulas universais pouco cultuadas na América do Sul também soarão um pouco estranhas a nós, brasileiros.
No entanto, não há nada que possa ofuscar o brilho dessa história. Por vezes, tive a sensação de estar lendo um livro de realismo mágico com forte inclinação à literatura urbana e adulta. A mordaz crítica à sociedade patriarcal, as encantadoras descrições, a miscelânia de folclores e crenças, o refinado humor... Tudo isso torna Miss Subways mais uma obra-prima do melhor escritor vivo.