É um pouco complicado falar sobre esse livro porque a leitura foi COMPLETAMENTE diferente do que eu imaginava quando recebi o exemplar de cortesia da editora. Ainda assim, a Companhia das Letras nunca decepciona, e apesar de ser um livro complexo, a experiência foi... Interessante.
A Vida Pelos Outros não pode ser considerado um simples romance, nem um livro de autoajuda (o que eu inicialmente imaginei que fosse), ou uma antologia de contos, mas sim uma reunião de casos e experiências que embora pareçam fictícias e em alguns casos até absurdas, refletem a realidade de pessoas que decidiram empenhar as suas existências em prol de uma filosofia ou do bem maior (como dizia o Dumbledore).
O mais interessante em todos esses testemunhos é que nenhuma mudança (interna ou externa) foi feita de uma hora para outra. São pessoas que tomaram decisões simples como se tornar vegetariano para evitar o abuso animal, ou lutar por qualquer outra causa específica e isso foi apenas o início de uma verdadeira revolução em suas vidas como se elas entrassem em um caminho sem volta.
Todos os relatos são extremistas e a maioria das pessoas abdicam da própria saúde e bem-estar para continuar defendendo os ideais, deixando os empregos para trabalhar voluntariamente em projetos sociais, mesmo sabendo que não receberão lucro algum com aquilo para poderem viver. Ou pessoas que venderam a própria casa porque "ter um teto" parece algo supérfluo se comparado àqueles que sequer tem comida. Pessoas que aceitam sobreviver com o mínimo possível (30 reais por mês) para doar todo o resto do dinheiro - que em alguns casos era MUITO dinheiro - a causas e pessoas carentes, sem perceber que eles próprios se tornaram pessoas carentes.
Eu sou vegetariano há MUITO tempo e sentia uma cutucada sempre que algum relato se iniciava com alguém aderindo ao vegetarianismo, sabendo que aquela história se desenrolaria e no final... Bem, o final não seria tão diferente de todos aqueles outros: pessoas sobrevivendo no extremo da pobreza, sem casa, sem emprego ou vida social, pois tanto a família quanto os amigos se afastavam ao perceber que essas pessoas estavam "enlouquecendo"...
O livro é denso e esses relatos apesar de serem contados pela figura narradora com certo distanciamento, torna os testemunhos tristes como se houvesse um julgamento pela pessoa que os descreve. Ao fim da leitura eu tive também a impressão de que a obra nos induz à não tentar ser essas pessoas perfeitas, ou os bons samaritanos, o extremo oposto do que eu imaginei quando peguei o livro em mãos, supondo que ele tentaria nos convencer a ser uma pessoa melhor.
Pelas palavras da própria autora: “Tentar ajudar é, na melhor das hipóteses, inútil, e, na pior, prejudicial; mas parar de tentar é desistir da humanidade. Os humanitários são hipócritas condescendentes, mas são melhores do que nós.”