Agostinho torna a advogar em favor da graça - um dom gratuito, que vem de Deus, não levando em consideração quaisquer méritos do homem. Embasado fortemente nas Escrituras (e não poderia ser diferente), o Bispo de Hipona torna a se dirigir a irmãos de fé que se veem enredados com esse difícil tema, evitando que se deixem levar pela heresia do pelagianismo.
Aqui estão, provavelmente, os últimos escritos desse pensador genial - os dois textos que finalizam a edição parecem ter sido escritos após as "Retratações" (que até são mencionadas no decorrer da obra). E ainda aqui Agostinho insiste sobre a graça como um dom gratuito, não devendo o homem se vangloriar de nada - afinal, o que o homem possui que não lhe foi dado? É a quem concedeu os dons (tais como castidade, justiça, até mesmo o pensamento) que devemos louvar.
Deus é que concede, inclusive, a fé e a perseverança. Aqui, Agostinho adentra um caminho espinhoso - e tem plena ciência disso: afinal, se a fé e a perseverança dependem unicamente de Deus, é de se perguntar não apenas por que alguns são agraciados com isso (e outros não), mas também por que certas pessoas são predestinadas e outras condenadas. O bispo de Hipona insiste que, de acordo com as Escrituras, a descendência do homem está contaminada pelo pecado e, diante disso, a condenação nada mais seria do que um justo preço. Mas aqui é que reside, precisamente, a graça de Deus, que salva o homem gratuitamente. E quanto aos que são condenados ou salvos, em diversas passagens Agostinho insiste que os desígnios de Deus são insondáveis, mas Ele é justo.
Trata-se de um escrito em que vemos Agostinho confessar a dificuldade em abordar certas questões - e chega até a aconselhar um modo de tratá-las (a saber, como escolher palavras e frases mais adequadas) para os cristãos. Esse autor genial deixa patente o quão espinhosa pode ser a sua defesa de alguns pontos da fé cristã, mas não se furta a fazê-lo - nem a confessar a magnitude da questão e a sua própria ignorância sobre determinadas situações.