O primeiro volume das obras selecionadas de Lutero traz os primeiros escritos da caminhada do monge agostiniano como reformador, abrangendo os anos de 1517 a 1519. Àquela altura, Lutero ainda não apresentava todas as formulações doutrinárias que posteriormente foram acrescidas até a elaboração das confissões basilares do luteranismo.
A doutrina do purgatório [ainda que numa perspectiva diferente daquela adotada pela igreja romana], a invocação dos santos, a penitência como sacramento, além de uma tímida postura que divergia da transubstanciação e da concessão de apenas uma das espécies eucarísticas no sacramento do altar, são elementos notáveis nesses primeiros escritos.
Certamente estou alinhado a muitos posicionamentos de Lutero nesse início de jornada, pois aqui fica evidente que ele pretendia tão-somente uma reforma com o intuito de reparar os abusos e excessos que se alastravam pela igreja latina. A perspectiva do purgatório não como um punitório, mas como um meio de continuidade e conclusão da obra redentora e santificadora que se inicia em vida definitivamente é algo que poderia ter sido reconhecido sem nenhuma objeção bíblica.
De todo modo, o que fica visível a partir de uma leitura atenta é que muitos fundamentos por trás do estandarte da reforma nasceram de inquietações e angústias pessoais muito íntimas do próprio Lutero, bem como da necessidade de dar uma resposta enérgica às subversões promovidas dentro da igreja romana.
Assim, a repulsa ao purgatório passa a ser uma consequência extremada da comercialização de indulgências e da mercantilização da fé. A doutrina do purgatório sustenta as indulgências e, como havia uma usurpação do clero, colocando as indulgências como sendo mais valiosas que o evangelho e o arrependimento diário, a solução mais natural e fácil seria desconsiderar absolutamente tudo relacionado ao tema das indulgências.
De igual modo, a confiança irracional e quase demoníaca que alguns cristãos depositavam em si próprios e nas suas próprias obras, alguns chegando ao ponto de reconhecerem falsamente que poderiam chegar à salvação a despeito de qualquer obra redentora de Cristo, fez com que Lutero se apegasse à justificação somente pela fé como uma necessária reação ao abuso dos autossuficientes.
Nesse último caso também podemos reconhecer a preocupação e angústia de Lutero ao pensar na insuficiência de suas próprias obras e esforço diante de um Deus justo, bem como na insuficiência de seu esforço diante da própria morte do Deus encarnado que sofre na cruz.
Portanto, o livro apresenta um panorama completo e muito bem organizado dos pensamentos de Lutero no início da reforma, partindo da publicação das 97 teses contra a escolástica até a tríade de sermões sobre os sacramentos da penitência, do batismo e da eucaristia. Muito daquilo que viria a ser base da doutrina luterana já está presente nesses escritos, tendo sido apenas aprimorado posteriormente.
Há pequenos deslizes gramaticais que poderiam ter sido evitados pelos tradutores/revisores, mas não é nada tão grave que prejudique a leitura e a compreensão adequada do conteúdo do texto.
Particularmente, concluo que a reforma luterana é teologicamente e historicamente muito compreensível (comentário que não consigo fazer a respeito dos demais movimentos reformados que surgem a partir dos outros reformadores após Lutero). Entretanto, reconheço que a resposta das confissões luteranas para alguns tópicos muito específicos poderiam ter sido melhor ponderadas.