“Sob o olhar quente da noite”- Poesias, livro de estreia na literatura de Jorge Colleta Serafim apresenta já no título, uma característica de sua poesia que está insinuada pelo poeta Thiers Rimbaud no prefácio que escreve à obra. A poesia do autor “é como chuva. Forte, alaga, molha, salpica e pode nos fazer tossir, sem dúvida nos atinge”. E ela nos atinge segundo Thiers porque pretende “abrir espaços e sentidos”. Outro poeta João Nery Pestana afirma por sua vez, que nas poética do autor “as normas constitutivas do discurso são abaladas, e o fazer poético reafirma a função de trabalhar o poema a partir de um elaborado processo de linguagem, prevalecendo, para tanto, o manejo do idioma e a liberdade do verso. Junte-se a isso o fato de que o ritmo – caráter especial assumido pela palavra poética -, nesse poeta representa a mais fiel expressão de seu mundo interior. Seja numa seqüência de sons, sentidos, ou sentimentos, podemos observar o movimento que possui ritmo próprio, nascido dos movimentos desencontrados, mas que formam em seu conjunto uma unidade obediente a uma sucessividade coesa. O mundo da alma do poeta repete o ritmo cósmico, feito do jogo de contrários numa harmonia perceptível em sua síntese. Pelo seu conjunto devemos olhar e acolher esse esforço em exprimir esse ritmo interior. Daí perguntamo-nos: O certo paradoxo do título: “Sob o olhar quente da noite” não remete para uma contraposição mais profunda de certos conceitos, expressando ideias que são incompatíveis e por vezes inconcebíveis à compreensão intelectual, mas que bem traduzem o interior pulsante do poeta? Veja-se o poema “Golfo profundo”: “De mim, / Sou só sentidos, / Nada mais, nada mais, / Ando a me pensar, / Vou e volto em mim / Vôo em sentimentos, / Me conheço em espaços / Elásticos, / Tão próximos, / Longínquos extremos, / Nada mais sou do que / Um voar... / Sou sentidos estranhos / Sou abstrato / Feito fiordes / Procuro minha matéria, / Sou nenhuma... / Ninguém pode me conhecer, / Quem me enxerga, / Não pode me ver / Muito menos me ler, / Me conheço / Nas curvas que me dou, / A minha existência, / Sou um embrulho virtual, / Existo nas cavernas / que me habitam... / Sou nada mais, nada mais...” Vários poemas – como “Consubstanciação”, e “Cada um...”, vão nessa mesma linha existencialista que é afinal e repetindo “o olhar quente da noite” do poeta que, todavia, não se furta a outros olhares críticos sobre a sociedade tresloucada em que infelizmente vivemos, como acontece com “Incertezas” e “Justiça e sua essência”, flerta como o metapoema em ”Jorrar” e “Palavras”, arquiteta poemas erótico como “A pele rubor” e “gatos no telhado” e volta afinal ao existencialismo – aí já sob a ótica da tal incomunicabilidade das almas- , como é o poema “Pensamento” que transcrevemos: “Quem nos vê olhando, / Pensa no que estamos pensando / Bobo engano / Olhar de longe / O instante vazio ninguém percebe / vejo-me estanque / E não sei em que pensava / estando delirante / Impossível aos outros / Verem nossos pensamentos / Se até eu não sei / O que pensava no clique... / Bobo engano / existe uma longa distância / que me habita / No real instante” Livro: Sob o olhar quente da noite – Poesias de Jorge Colleta Serafim, Big Time Editora, 2017 – 144p ISBN 978-85-9485-032-4

