Agonias e Bonanças -

    Keinichi Kaneko

    Pantemporâneo
    2011
    72 páginas
    2h 24m
    ISBN-13: 9788562402104
    Português Brasileiro

    Kenichi Kaneko tem dificuldade de falar sobre ele e sobre sua arte. Com razão, porque toda interpretação envolve subjetividade que mascara a mais verdadeira realidade - até porque, nunca se chegará a um acordo sobre o que isso significa. No entanto, mesmo sabedor dessa dificuldade, dá testemunho pessoal de grande valia, pelas lições que encerra. Eu também tenho dificuldade em falar sobre a pessoa e a arte de Kenichi Kaneko, ainda mais sabendo que ele sempre achará que qualquer coisa que se diga sobre ele e sua arte, para o bem ou para o mal, soará artificial. Mesmo assim, arrisco fazê-lo. O pouco que conheço de Kaneko, esse meu colega, leva-me a dizer que ele é um artista japonês tanto quanto é um artista brasileiro, ou melhor, é a um só tempo oriental e ocidental. Nasceu no Japão, sim, e passa a maior parte de sua vida no Brasil. Tem o obstáculo natural de se expressar oralmente em português, como costuma acontecer com os estrangeiros de línguas não latinas, mas ultrapassa isso com enfrentamento e se expressa de maneira muito compreensível na língua nova que aprendeu sozinho, nas ruas. Pode errar na pronúncia, na concordância verbal ou nominal; acerta na mensagem que transmite. Vale-se da sua origem para interpretar a terra nova a que se dirigiu e na qual criou novas raízes, sem esquecer da antiga: entre uma e outra, fica com as duas. Observa o choque de culturas e vira-se para ser de lá e de cá. Acho que consegue. São muitos, entre nós, os artistas nipo-brasileiros. Kaneko parece-me ser o mais nipônico dos brasileiros e o mais brasileiro de todos os japoneses. Sua formação tem influência europeia que somou à oriental. Tem razão em se classificar como um mestiço cultural, artista e pessoa complexa que de fato é. Isso lhe dá uma visão “estratégica” e singular para interpretar tudo que mexer com ele, seja angustiante, seja extasiante. No terreiro das agonias, os fenômenos naturais (como um tsunami), as consequências da Guerra, a miséria e as agruras pessoais têm espaço a ponto de declarar que “sempre estou andando na beira da morte”. No entanto nem tudo são dores; há o alento das bonanças e das alegrias, sobretudo a de estar vivo. Sempre está, com suas dúvidas e sua pintura (que é sua vida), em busca do equilíbrio. Olhando e olhando-se, Kaneko reflete em sua obra profunda emoção e sinceridade. Tem grande domínio técnico, mas não se deixa escravizar por ele. Pelo contrário, é artista muito criativo e inventivo, atento a todas as possibilidades que a pintura, em si, lhe pede para mostrar por onde anda seu sapato.

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