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    Fadas e copos no canto da casa -

    Mariana Salomão Carrara

    Quintal Edições
    2017
    185 páginas
    6h 10m
    ISBN-13: 9788557030060
    Português Brasileiro
    4
    26 avaliações
    Leram35Lendo2Querem308Relendo0Abandonos0Resenhas3
    Favoritos3Desejados308Avaliaram26

    À época de seu vigésimo aniversário, Bianca narra em tempo real sua vida em uma casa de prostituição no interior, misturando o tempo da narração aos seus devaneios de infância. O universo fantástico da menina gira num sufocante ciclo de vínculos que ela ao mesmo tempo nutre e corrompe, enquanto procura disfarçar, com certa arrogância, a profunda carência que a mantém dependente dos outros. O monólogo ágil, permeado por falas dos outros personagens em discurso livre, flui em vários ritmos, em sintonia com as ocorrências na vida de Bianca, que variam de uma lenta e digressiva tarde ao sol para graves episódios de violência. A narradora é fantasiosa, revolvendo fatos muitas vezes obscuros, ainda sob a "pseudonévoa da sua imaginação", mas aos poucos revela os dados revoltantes da sua biografia e um passado rompido pela perversidade e moralismo masculinos. Sentimos a voz da menina amadurecer ao longo de suas tragédias atuais ou revividas, enquanto abandona seu esforço de simular um desapego geral. O que não sucumbe, apenas, é a contundente solidão que dá o tom de todo o romance. Romance finalista e menção honrosa do Prêmio Nascente USP 2009

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    Renata Borges picture
    Renata Borges05/11/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Pseudonévoa...

    Bianca está prestes a completar 20 anos, com vários deles passados na casa de prostituição localizada numa pequena cidade do interior de São Paulo. Não que o foco seja o seu aniversário ou que, ao mesmo tempo, não o seja. Em uma linha narrativa que só pode ser descrita como o embrenhar na mente da própria personagem, segue-se o fluxo de pensamento de Bibi. Desculpando a redundância da afirmação, mas é exato, o leitor se torna a própria personagem-narradora. A história começa num ponto sem fim, apenas mais um dos dias decorados com os abajures de renda vermelha, sobrecarregados pelo cheiro misto de sexo, cigarro e álcool. E, com a passagem dos dias, vem o despertar de Bibi para um amor, muito provavelmente fruto de sua pseudonévoa carente, que anseia por cuidados, atenção. Nesse ponto, é necessário destacar que o amor-romance em nada se aplica aqui e, tampouco, é ele quem dá marcha à história. Em meio à rotina sufocante, ela passa os dias com sua fada particular, Lisa, a mulher que tomou papel tão imenso em sua vida, que faz parte do seu imaginário ora como fada e da sua realidade, ora como amante, ora como amiga, ora como mãe. Lisa é tudo aquilo que Bibi precisa. E há o amor, aquele que Lisa esconde, aquele que Bibi tenta roubar para si, e o que pensa receber de Lauro e de cada cliente que recebe. Lauro, figura esta que se faz de aparente respeito, vai se abrindo aos olhos de Bibi-narradora-leitora, num processo um tanto quanto mais longo que os demais homens que a rodeiam e preenchem sua cama, costumam levar. Aos poucos, vemos surgir os fragmentos que compõem Bibi, essa que acompanhamos o respirar, abrir dos olhos e sentir: a família, o namorado, a escola. Tudo emaranhado, vindo em rastros, como os próprios pensamentos costumam fazer na mente de cada um. E, a cada descoberta, uma realidade se abre para o leitor-narrador-Bibi, que desbrava seu próprio passado enquanto o revela em memórias amargas, sofridas e sentidas. Tudo que fora construído mostrando quem fora construído. São, de fato, tantas alegorias implantadas na vida de Bibi, que, por vezes, ela chega a quase se enganar de um sentimento ou outro, passando então a quase enganar também o leitor que adentrou sua mente. Mas, como se propriamente a história de Bibi não falasse tanto por si só, Copos e Fadas no Canto da Casa é um manifesto. Um manifesto sobre a corrupção da infância, do desvalor da palavra do outro. Sobre o silenciar das mulheres, sobre a objetificação. Machismo. Sobre incompreensão e violência. Da física à emocional, de todas elas juntas. É sobre traição, sanidade, a perda dela. Perda da inocência. E é sobre realidade. É sobre a dureza que as pessoas ao redor impuseram a quem não compreendiam. Não há de se culpar a vida quando os agentes possuem nomes e rostos. Esse livro me silenciou por alguns dias, tentei me expressar ao terminar a leitura e não saíram mais que meia dúzia de palavras, que não compreendiam tudo. Assim como Bibi, que costuma falar de sua pseudonévoa, que a leva aos mais tênues pensamentos, a intensidade da história não está apenas nos acontecimentos momentâneos e lembrados pela personagem, mas pela intensidade com que são descritos. É uma leitura dura, tensa, intensa. Porque é difícil se deparar com a realidade do outro. Ler, do conforto da sua cama e ser lembrado da realidade de que existirem incontáveis Bibis, Lisas, Lobas, Lauros e Aristóteles, é mais que um mero cair da cama. Isso porque todos os personagens são ao mesmo tempo figuras enigmáticas e abertas, claras e confusas de ler, representando mais do que aparentam: são expressões e reflexos da realidade e, por isso, impressionam, assustam, marcam. Um salve à narrativa de Carrara, nunca antes fui tão personagem quanto em Fadas e Copos. Três dias intensos de leitura e uma história que marcou mais que a pele, marcou a memória. Levarei Bibi, sua pseudonévoa e tudo o mais comigo, para a vida.

    3 curtidas

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    • 5 estrelas27%
    • 4 estrelas38%
    • 3 estrelas31%
    • 2 estrelas4%
    • 1 estrelas0%
    Mariana Salomão Carrara profile picture

    Mariana Salomão Carrara

    Tem um livro de contos (Delicada uma de nós) e dois romances publicados (Idílico, e Fadas e copos no canto da casa). Recebeu prêmios nacionais como Off-flip, SESC-DF, Felippe D'Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, e Josué Guimarães. Publicou um conto na revista do SESI/SP, outro na revista do SESC-SP e um na Revista Liberdades, do IBCCRIM. Foi finalista e recebeu a menção honrosa do Prêmio Nascente USP 2009 com uma primeira versão do romance Fadas e copos no canto da casa. É Defensora Pública desde 2011.

    10 Livros
    468 Seguidores
    São Paulo, Brasil

    Mariana Salomão Carrara