Bianca está prestes a completar 20 anos, com vários deles passados na casa de prostituição localizada numa pequena cidade do interior de São Paulo. Não que o foco seja o seu aniversário ou que, ao mesmo tempo, não o seja.
Em uma linha narrativa que só pode ser descrita como o embrenhar na mente da própria personagem, segue-se o fluxo de pensamento de Bibi. Desculpando a redundância da afirmação, mas é exato, o leitor se torna a própria personagem-narradora.
A história começa num ponto sem fim, apenas mais um dos dias decorados com os abajures de renda vermelha, sobrecarregados pelo cheiro misto de sexo, cigarro e álcool. E, com a passagem dos dias, vem o despertar de Bibi para um amor, muito provavelmente fruto de sua pseudonévoa carente, que anseia por cuidados, atenção. Nesse ponto, é necessário destacar que o amor-romance em nada se aplica aqui e, tampouco, é ele quem dá marcha à história.
Em meio à rotina sufocante, ela passa os dias com sua fada particular, Lisa, a mulher que tomou papel tão imenso em sua vida, que faz parte do seu imaginário ora como fada e da sua realidade, ora como amante, ora como amiga, ora como mãe. Lisa é tudo aquilo que Bibi precisa.
E há o amor, aquele que Lisa esconde, aquele que Bibi tenta roubar para si, e o que pensa receber de Lauro e de cada cliente que recebe. Lauro, figura esta que se faz de aparente respeito, vai se abrindo aos olhos de Bibi-narradora-leitora, num processo um tanto quanto mais longo que os demais homens que a rodeiam e preenchem sua cama, costumam levar.
Aos poucos, vemos surgir os fragmentos que compõem Bibi, essa que acompanhamos o respirar, abrir dos olhos e sentir: a família, o namorado, a escola. Tudo emaranhado, vindo em rastros, como os próprios pensamentos costumam fazer na mente de cada um. E, a cada descoberta, uma realidade se abre para o leitor-narrador-Bibi, que desbrava seu próprio passado enquanto o revela em memórias amargas, sofridas e sentidas. Tudo que fora construído mostrando quem fora construído.
São, de fato, tantas alegorias implantadas na vida de Bibi, que, por vezes, ela chega a quase se enganar de um sentimento ou outro, passando então a quase enganar também o leitor que adentrou sua mente.
Mas, como se propriamente a história de Bibi não falasse tanto por si só, Copos e Fadas no Canto da Casa é um manifesto. Um manifesto sobre a corrupção da infância, do desvalor da palavra do outro. Sobre o silenciar das mulheres, sobre a objetificação. Machismo. Sobre incompreensão e violência. Da física à emocional, de todas elas juntas. É sobre traição, sanidade, a perda dela. Perda da inocência. E é sobre realidade. É sobre a dureza que as pessoas ao redor impuseram a quem não compreendiam. Não há de se culpar a vida quando os agentes possuem nomes e rostos.
Esse livro me silenciou por alguns dias, tentei me expressar ao terminar a leitura e não saíram mais que meia dúzia de palavras, que não compreendiam tudo. Assim como Bibi, que costuma falar de sua pseudonévoa, que a leva aos mais tênues pensamentos, a intensidade da história não está apenas nos acontecimentos momentâneos e lembrados pela personagem, mas pela intensidade com que são descritos.
É uma leitura dura, tensa, intensa. Porque é difícil se deparar com a realidade do outro. Ler, do conforto da sua cama e ser lembrado da realidade de que existirem incontáveis Bibis, Lisas, Lobas, Lauros e Aristóteles, é mais que um mero cair da cama. Isso porque todos os personagens são ao mesmo tempo figuras enigmáticas e abertas, claras e confusas de ler, representando mais do que aparentam: são expressões e reflexos da realidade e, por isso, impressionam, assustam, marcam.
Um salve à narrativa de Carrara, nunca antes fui tão personagem quanto em Fadas e Copos. Três dias intensos de leitura e uma história que marcou mais que a pele, marcou a memória. Levarei Bibi, sua pseudonévoa e tudo o mais comigo, para a vida.