Imagino que a maioria das pessoas que compram livros pela capa de vez em quando pelo menos tem esperança de que ele seja bom. Quando eu comprei esse, em setembro do ano passado, não tinha. Vi várias resenhas negativas e, depois de vários meses e problemas para o livro chegar aqui em casa, estava convencida de que acabaria detestando. Ainda mais depois de ele ser lançado no Brasil e ainda ter tanta gente o criticando do mesmo jeito que eu tinha visto lá fora.
Minha surpresa por ter gostado é tão grande, que ainda estou esperando alguém vir me falar que foi tudo uma ilusão ou que eu li o livro errado. Não estou falando que o achei ótimo, excelente ou qualquer coisa assim. Mas gostei da leitura, entendi o que a autora queria fazer e agora consigo olhar para o livro sem qualquer rancor de quem comprou pela capa e acabou não gostando.
Apesar da capa de contos de fadas, a história tem um tom bastante sombrio e doloroso. Foi claramente inspirada no conto original, não no da Disney, e está longe de ser romântica e divertida. É um livro sobre uma garota que vive sob opressão, assédios e abusos e nunca viu nada diferente. É sobre uma garota de quase dezesseis anos que ainda está tentando se descobrir, que se apaixona pela ideia, que quer fugir e acredita com todas suas forças na próxima coisa, que será melhor do que sua situação atual, sem ter realmente uma noção do que está fazendo. É sobre uma garota que por acaso é uma sereia.
Uma das coisas que eu mais gostei do livro foi a autora não ter fugido de assunto nenhum. Ela não mediu assédios ou maldade, nem fingiu que dar pernas a uma sereia também significa que ela vai descobrir o que tem entre elas (apesar de ter feito questão de usar esse eufemismo o livro todo). Ela não teve medo de descrever machucados e corpos. Foi revigorante ver alguém assumir todos os detalhes da diferença entre uma sereia e uma humana e não fugir da sexualidade de sua personagem no meio do caminho.
Outra coisa que me ganhou foi que o romance, afinal, não existe. Ainda bem. Fiquei o livro todo com medo de que a autora criasse no final desculpas para tentar me convencer sobre o garoto, que nem merece ser nomeado de tão patético que é, mas ela não me decepcionou. O livro é sobre a pequena sereia Gaia e as mulheres à sua volta.
Talvez eu tenha gostado tanto por não achar que um livro feminista tenha que ter só personagens bem resolvidas e empoderadas desde o começo. Aqui, a autora quis apresentar uma sociedade onde o machismo foi levado ao extremo e depois a desconstruir para a protagonista. E eu acho que ela fez isso muito bem. Não faria o menor sentido Gaia ter mais voz e atitude do que tinha. O final do livro, aliás, foi a única parte em que eu achei que seu desenvolvimento foi apressado e forçado. De resto, estava indo tudo muito bem para mim. Um livro feminista não precisa ter uma sociedade utópica ou personagens feministas desde o começo. Ele só precisa ter o questionamento e expor o que está errado ou como deveria ser.
A narrativa desde o começo é bastante irônica e crítica, e eu acho que isso deve ter sido algo que incomodou muita gente. Já percebi que muitos leitores querem seus protagonistas entendendo tudo que eles entendem e tendo as mesmas reações. Ainda bem que tanta gente ficou inconformada com a falta de atitude da Gaia, porque isso significa que foram criados em uma circunstância em que tinham espaço para ter uma voz e uma opinião. Mas não foi assim com a Gaia, então não tem como esperar que seu desenvolvimento seja coerente se a autora a fizer ter atitudes que ela nem sabia serem possíveis.
A coisa mais importante que um leitor deve ter ao abrir um livro é empatia pelos personagens. Eles são diferentes da gente, têm atitudes diferentes, falam coisas que nunca diríamos, pensam, sentem, tomam decisões e chegam a conclusões que talvez nossas experiências nos preveniriam de chegar. Mas eles são eles, e a única coisa que eles precisam é ser coerentes com sua história, sua experiência, sua personalidade. Nesse sentido, Louise O'Neill fez um trabalho maravilhoso com Gaia.
Eu poderia ter dado até uma nota mais alta, mas aquilo de ela ter corrido um pouco com o desenvolvimento da Gaia no final me incomodou. Além disso, apesar de ter gostado da escrita, ela poderia ter sido mais fluida. E, o que realmente me fez tirar uma estrela, o enredo não é dos melhores. Gosto dos questionamentos da protagonista - e ainda bem, porque o livro é quase só feito deles, - mas queria mais em questão de acontecimentos.
Esse não é um livro feliz, esperançoso, romântico ou revolucionário como várias fantasias por aí. É livro pesado, sofrido, sobre uma garota desesperada que já não sabe como se salvar e do que precisa se salvar. É um livro lindo e fiquei bem feliz pelo que aconteceu no final. Eu realmente gostei e ainda estou surpresa com isso! Recomendo só para poucas pessoas, mais adultas, mais abertas às experiências e dores de outros.