Um romance intrigante, em que o principal personagem é um boto. Trama cheia de emoções e peripécias, que dão à narrativa um sabor envolvente. O autor é membro da Academia Paraense de Letras.
Memórias de um Boto - Um romance amazônico
Alcyr Meira
O imaginário amazônico é rico em histórias fantásticas, muito presentes onde a floresta, o rio, a fauna e o isolamento de comunidades colocam o homem diariamente em um contexto de encontros, descobertas, mistérios e interpretações. As narrativas sobre o boto estão entre as de maior identidade cultural, principalmente entre ribeirinhos, aparecendo em transmissões orais ou, quando em registros literários, em contos e poesias diversas. Me divirto com tudo isso e aí que entra o entusiasmo inicial com essa obra, pois em prosa romântica ainda não tinha lido nada sobre o boto. As histórias que conheci são curtas e parecidas, sem grandes aprofundamentos na trama, e agora me deparo com este romance com mais de 500 páginas, onde o tema em questão é abordado com certa riqueza de detalhes, passeando por percepções diversas entre o imaginário pueril, humor e dramas em lutas de realização e sobrevivência. Contextualizando, foi escrito por Alcyr Meira, membro da Academia Paraense de Letras, a descrição é linear, desde o nascimento do boto, com ambientação em Belém e arquipélago do Marajó entre as décadas de 1950 e 1960. Uma particularidade em especial é que o autor enriqueceu a obra com fatos e personagens reais desse fragmento temporário, seja em referências a pessoas ou locais reconhecíveis na cultura popular. Destaque também para as belas ilustrações idealizadas pelo autor. Em linhas gerais, acompanhamos a vida de José Marajó, também conhecido como Zé da Ilha, que é o boto, nascido para os lados de Soure. A primeira parte mostra sua infância e adolescência como cetáceo e a descrição é um tanto pueril. Lembra aqueles romances de aventuras protagonizados por animais, com coisas surrealmente atrativas e curiosas. A partir da metamorfose humana, que o autor abordou em uma mitologia relacionada a Iara, o boto tem as primeiras aventuras em um povoado fictício no Marajó, chamado de Curuparu, com as primeiras conquistas, paixonites, boemia e confusões. Gostei do cenário, de uma Amazônia folclórica como o romantismo a idealiza. Soure dá continuidade como cenário e o desenrolar é em um drama familiar que envolve ambição e hipocrisia. O boto entra em cena como um malandro conquistador e registre-se que a obra desse ponto em diante procura enfatizar mais essa característica que a mitologia inicial. Nova confusão e vem a passagem por Mosqueiro, em envolvimentos com descrições centradas na sexualidade. O boto tem digressões em aprendizagens de suas experiências. A narrativa em Icoaraci é a mais tensa, centrada em uma dupla vingança, com desdobramentos futuros, pela morte dos pais do boto e pelo abalo em uma família devido a traições. Finalmente chegamos a Belém e o desenrolar tem surpresas surreais, como a "humanização definitiva", relacionada ao maior símbolo folclórico da fé paraense. As surpresas tem um lado dramático, que misturam a história de Zé da Ilha com os eventos desencadeados pelo militarismo em 1964. Somam-se a esses dramas também, reencontros com personagens do passado. Enfim, uma obra ideal para quem curte folclore da Amazônia, explorando o tema de maneira curiosa no mito do boto, deixando também em paralelo um pouco da identidade paraense e amazônica.
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