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    Os Últimos Dias da Humanidade -

    Karl Kraus

    Antigona
    2003
    452 páginas
    15h 4m
    ISBN-10: 9726081564
    Português Brasileiro
    4.9
    4 avaliações
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    Os Últimos Dias da Humanidade começou a ser escrito em 1915. A primeira versão da obra veio à luz na revista Die Fackel, em 1918-1919, tendo sido publicada em livro em 1922, numa versão revista e alargada. Esta primeira edição portuguesa apresenta uma seleção de 115 cenas das 209 que constituem o texto original. Ninguém levou tão longe a representação do mal absoluto da guerra. Kraus procurou captar o teatro de guerra como fantasmagoria tecnológica e discursiva. Montagem verbal e montagem cênica desenvolvem-se segundo uma lógica recursiva e centrífuga capaz de dar ao horror dos atos e das palavras um alcance social panorâmico. A intensidade do pathos satírico e a multiplicação dos quadros dramáticos permitiu-lhe construir uma estética da mais alta indignação. Para o estado de apocalipse a que a humanidade se condenara nem o testemunho do poeta era já possível. Notícias impressas, oratória militar, pregões, cenas de rua, dos corredores do poder e das frentes de batalha alternam num processo de montagem cuja natureza documental só acentua a miséria da linguagem. Os Últimos Dias da Humanidade mostra de que forma as condições de inteligibilidade do presente produzidas pela imprensa fazem, de facto, parte da ordem da morte que alegadamente descrevem. Ao tornar visível essa ignóbil função de tornar invisível o sofrimento dos seres humanos, Kraus encena o moderno mercado da violência que tornou a humanidade cúmplice do seu próprio extermínio.

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    Marcelo Gabriel Delfino24/09/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Quando dizemos que a linguagem é importante, não se trata de soberba. A linguagem é a maneira como conseguimos absorver e expressar o mundo, sem ela somos como animais, impossibilitados de raciocinar. Não compreender a língua de um país, quando viajamos, nos torna incapazes de aproveitar o passeio, de conhecer pessoas, até de pedir uma refeição em um restaurante ou pegar um ônibus. Em nossa língua materna, quando não temos domínio algum, somos facilmente manipulados pela falta de entendimento completo das situações e não podemos, entre tantas outras coisas, nem dizer às pessoas que amamos que nos importamos com elas. Enfim, a linguagem nos permite uma vida em direção à plenitude de nossas capacidades e quando há grandes tragédias históricas, podemos procurar nas alterações que a língua sofreu para localizar um declínio das capacidades intelectuais e da moralidade de um povo. Recuperar o sentido da linguagem significa recuperar a realidade. Isso está na tradição filosófica mais importante do Ocidente. Enquanto há filósofos e pensadores preocupados com a criação de novos significados para as palavras, outros procuram restituir o que foi perdido, mostrando como só através dessa dimensão se pode colocar a humanidade “nos eixos”. Alterar o sentido das palavras é uma das principais tarefas dos revolucionários de todos os tempos, pois isso implica a criação de novos modos de pensar, o estabelecimento de uma nova visão de mundo. Ser revolucionário, nesses termos, é alterar a compreensão de termos já definidos e criar outros. Talvez esteja aí uma possível explicação para a literatura do século XX, sempre tão preocupada com a linguagem, com novas formas de narrar eventos, com a procura incessante por uma brecha onde seja possível disseminar novos sentidos e romper com a tradição, com o arcaico. A linguagem é algo tão complexo que pode exprimir mesmo uma falta, como que por ausência de termos, para significar a realidade que se tem diante de si. É aqui que entra o entendimento de Karl Kraus e a maneira como ele trabalhou a linguagem nesse livro. Não temos um enredo linear, nem mesmo personagens que apareçam enfrentando conflitos e sendo modificados por eles, até uma conclusão. O livro é uma espécie de compilado de falas reais (muitas vezes inacreditáveis) do período da Primeira Guerra Mundial. Os personagens vão falando uns com os outros, mostrando como a realidade foi subitamente escondida pela linguagem (porque um dia alguém “acorda” do transe que toda a época mergulhou e consegue enxergar, mas, até então, o processo passa despercebido por todos, dando a impressão que aconteceu repentinamente, mas isso pode demorar longos anos), o que significa que as versões e o imaginário se sobrepuseram ao real. Isso fica claro na maneira como se fala da guerra, sempre com elogios sentimentais a seus soldados, a descrição do inimigo como uma espécie de monstro desumano. Também no exagero sobre as vitórias e negação das derrotas ou da derrota definitiva. Nos jornais, criando manchetes completamente alheias aos acontecimentos, sempre buscando vender e desprezando a informação verdadeira — o que poderia permitir uma reação diante das adversidades, mas como modificar a situação se não se sabe como ela realmente é? Políticos que mentem para os jornalistas e, depois, acreditam no que está escrito nos jornais. Enfim, todo um período que se deixou levar pelas versões, pelas narrativas e desprezou a realidade a ponto de substituí-la totalmente, agindo de acordo com seus desejos e se perdendo neles. A linguagem como substituta da realidade, eis o tema da obra de Karl Kraus. Quando vai analisar o nazismo, Eric Voegelin se vale do pensamento de Kraus e mostra como o fenômeno se repetiu e levou a nova tragédia. Eu arriscaria dizer que a única forma de fazer uma análise correta dos totalitarismos e de como as sociedades se deixam levar ao ponto do colapso é olhando para esse tema. Se não há apoio ao autoritarismo ainda, a sociedade pode sofrer uma alteração em sua visão de mundo, de modo que as pessoas não sejam capazes de enxergar o que de fato está acontecendo, ficando submetidas a um sistema de significados e de signos que as remete a uma era de plenitude e felicidade. A linguagem serve para expressar o que vemos, para compreender o está diante de nós, mas também para dar forma ao que temos em nosso interior. Mas, quando ela é deturpada, quando se torna joguete de forças que desejam modificar a sociedade, nós assistimos uma tremenda perda dessas capacidades. É como se, inconscientemente, ficássemos sabendo que aquilo que procuro expressar em minhas palavras não fizesse o menor sentido para outras pessoas; assim, posso até preferir me calar, pois sei não serei compreendido. E, consequentemente, também deixo de ser capaz de entender o mundo. Tudo cai em um relativismo insuperável, onde qualquer coisa pode ser qualquer coisa, as hierarquias de importância perdem o sentido e reina um nivelamento por baixo que torna qualquer esforço para ascender completamente inútil e ilusório. O fato é que depois que a humanidade descobriu essa ferramenta, ela jamais deixou de ser usada. O totalitarismo é definido portanto, menos pelas perseguições, censuras, mortes, do que seu caminho de alteração da visão de mundo na sociedade para chegar ao poder. “Na guerra, ambos os lados gritam desde as trincheiras palavras de propaganda, mas em seu próprio interior são perfeitamente articulados. O problema na guerra, portanto, é que a linguagem não deve ser verdadeira senão no interior de um espaço limitado. Em outras palavras, na guerra sobressai o caráter regionalista da verdade. Eu não acredito no que o inimigo diz; e, sem me importar com o que ele diga, faço a guerra contra ele. A vitória na guerra implica não ter escutado o inimigo! Podemos definir a guerra, em termos de linguagem, como uma situação em que não escutamos o inimigo porque estamos demasiado sensíveis a qualquer rumor ou murmúrio dentro de nosso próprio grupo.” (A Origem da linguagem, Rosenstock-Huessy, p. 58). Mas, como as fronteiras são permeáveis e dentro de cada país pode estar também o inimigo, a propaganda termina sendo usada dentro do território, tendo efeitos sobre a sua própria sociedade. Quando Rosenstock-Huessy explica o que é essa doença da linguagem, ele está perfeitamente certo, mas precisamos levar em conta a dimensão concreta da organização dos países. Essa necessidade de fazer a propaganda contra o inimigo acaba se deslocando para o interior das fronteiras, com a mesma finalidade, mas com efeitos deletérios para a produção da verdade. Como Karl Kraus mostra, os políticos mentem para os jornais (atividade estratégica para ludibriar o inimigo), mas terminam acreditando e se valendo das mentiras que eles mesmos contaram, de modo a produzir uma imprecisão completa. Poderíamos dizer que esse é um dos efeitos mais dramáticos da mídia, o alinhamento às necessidades políticas da sociedade. E não sei como isso pode ser resolvido, porque o caso em nossos dias é exatamente o mesmo. É o alinhamento à doxa, à opinião dominante e “necessária” que faz originar uma retórica que se volta contra os que a proferiram. Esse diagnóstico já está em Platão ao criticar os sofistas e descobrir os perigos de pessoas públicas, que se pronunciam para multidões (algo potencializado pelos meios modernos de comunicação), abandonarem a busca da verdade e se enquadrarem naquilo que lhes dá prestígio ou corresponde ao que a maioria espera delas. Nesse processo, tenha a causa pessoal que tiver, a verdade é sempre perdida, sempre acomodada à opinião dominante. Não estou nem mencionando a questão financeira, que pode ser prioritária muitas vezes, o que adiciona um outro elemento de volatilidade no comportamento da mídia. Lobaczewski consegue explicar muito bem como o fenômeno da domesticação das massas acontece pela manipulação da linguagem. Ele explica que um sistema patocrático visa, sobretudo, a destruição do senso de realidade das pessoas. As palavras tem seus significados modificados, aquilo que era normal se torna crime — e o crime passa a ser desculpado com base nos novos valores, que costumam ser contraditórios entre si, produzindo uma confusão interminável na cabeça das pessoas —, a verdade conhecida até então, se torna uma versão dentre tantas, ou seja, perde seu peso e é equiparada aos maiores devaneios imagináveis, tudo isso vindo de autoridades intelectuais, de artistas, de pessoas com status na sociedade, capazes de influenciar milhares de outras (eis a razão pela qual o termo influencer se tornou importante). Depois de um tempo, as pessoas ficam imobilizadas mentalmente, incapazes de reconhecer e nomear a realidade, incapazes de raciocinar. É o momento em que o debate público se torna uma questão de sentimento, de emoções. As pessoas são reduzidas a respostas aos estímulos que recebem, condicionamento, para usar o termo correto. Se perguntadas sobre os motivos de certos comportamentos, não conseguem entregar uma resposta satisfatória, afinal perderam a capacidade de compreensão da realidade, perderam a capacidade de expressão e sabem apenas sentir — algo que o behaviorismo ensinou ser capaz e obter resultados de condicionamento próximos aos de animais. No livro, isso aparece diversas vezes, com as pessoas reagindo, se unindo em pequenos grupos, como cristais de massa, que dão origem a slogans e manifestações as mais tolas possíveis. A manipulação da linguagem acarreta domínio sobre as percepções das pessoas e controle sobre seu comportamento, porque elas perderam a capacidade de raciocínio. Os líderes dos países, com um instrumento tão formidável em mãos, não perderam a oportunidade de tornar sua população mais dócil e inclinada ao sacrifício por eles... Nesse quadro, qualquer tentativa de pensamento, de raciocínio, qualquer pessoa que conteste a verdade estabelecida, se torna inimiga e perigosa. A sociedade caminha em uníssono e qualquer desvio do coro, mesmo um mero desafinar, é perigoso e deve ser silenciado rapidamente. Não são poucas as vezes em que pessoas tentaram contestar a fala dominante e foram abafadas — quando não agredidas — no livro. Dessa forma, mesmo que não pareça, Kraus consegue fazer um retrato fiel de uma época, nos mostrando como as pessoas se distanciaram da realidade através de uma armadilha que nem conseguiram notar. Uma distinção importante, já que mencionei Voegelin e sua interpretação sobre o nazismo, é que esse mecanismo foi posto em movimento naquele período, mas os mesmos que o fizeram se tornaram suas vítimas. Já com o comunismo e o nazismo, alguns anos mais tarde, a linguagem havia se tornado um instrumento de manipulação das massas, toda uma “ciência” de como produzir determinados efeitos no povo para se alcançar dividendos políticos se estabelecera. Havia-se dominado a capacidade de manipular as populações através de termos que evidenciam ou escondem acontecimentos e verdades de acordo com as conveniências de quem estiver no poder. Naturalmente, a linguagem, quanto mais à serviço da verdade estiver, menos será manipulativa; mas essa capacidade de construir visões de mundo se tornou um instrumento formidável para os totalitarismos. Não é uma leitura prazerosa, porque o livro é uma coletânea de falas, sem enredo, como disse antes. Mas é uma verdadeira obra-prima, por conseguir tornar visível, apontando e nomeando, um fenômeno que modificou a sociedade e gerou terríveis consequências. Sem Karl Kraus, talvez nunca tivéssemos compreendido como mesmo os manipuladores da linguagem, aqueles que pretendem gerar novos valores, são vítimas, em alguma medida, de suas próprias ações. Quando a realidade se perde, não é mais possível ter ações reais e efetivas na sociedade, todos mergulham nessa zona não específica da sentimentalidade, onde a inteligência é expulsa e vemos apego a símbolos, líderes, partidos, etc. Alguns anos mais tarde, George Orwell vai desenvolver ainda mais essa ideia. A linguagem como forma de controle e manipulação da sociedade.. Isso quer dizer que a autonomia da linguagem se completa e se descobre uma ferramenta de controle magnífica, capaz de produzir o passado e direcionar o futuro.

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    Karl Kraus

    Foi um dramaturgo, ensaísta, aforista e poeta austríaco. Denunciava com grande virulência nas páginas do Die Fackel ("A Tocha") - revista que fundou e da qual foi praticamente o único redator durante quase quarenta anos - os compromissos, as injustiças e a corrupção, notadamente a corrupção da língua, na qual via a fonte dos maiores males de sua época, responsabilizando principalmente a imprensa. É considerado um dos maiores escritores satíricos em língua alemã do século XX.

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    Viena, Áustria

    Karl Kraus