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    Herland - A terra das mulheres

    Charlotte Perkins Gilman

    Via Leitura
    2018
    185 páginas
    6h 10m
    ISBN-13: 9788567097558
    Português Brasileiro
    3.6
    552 avaliações
    Leram697Lendo41Querem625Relendo0Abandonos27Resenhas106
    Favoritos24Desejados625Avaliaram552

    Publicado pela primeira vez em 1915, Herland: a terra das mulheres é uma novela que coloca os holofotes sobre a questão de gênero. Escrito pela feminista Charlotte Perkins Gilman, o livro descreve uma sociedade formada unicamente por mulheres que vivem livres de conflitos e de dominação. A história é narrada por um estudante de sociologia que, junto a dois companheiros, chega ao lendário país ocupado por mulheres. As diferentes visões dos três exploradores geram um choque cultural com a organização social utópica que terão de confrontar. Herland subverte questões como a definição de gênero, a maternidade e o senso de individualidade. Gilman, nesta obra, cria uma história revolucionária e dá uma importante contribuição às discussões sociológicas sobre os papéis masculino e feminino em sociedades de qualquer época.

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    Flávia picture
    Flávia04/06/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    🍎 Herland e o avesso da Eva!

    Escrito em 1915 por Charlotte Perkins Gilman, Herland é considerado um clássico feminista de ficção utópica, celebrado por imaginar uma sociedade exclusivamente feminina, pacífica e altamente desenvolvida. Aclamado por muitos como uma visão libertadora do mundo sem o patriarcado, o livro também provoca desconforto e reflexão. E foi exatamente por isso que eu não consegui me conter: esta resenha acabou sendo mais longa do que o habitual — porque Herland é, sim, um livro provocativo. E quanto mais ele provoca, mais ele exige resposta. Gilman constrói Herland como um lugar sem falhas, sem histórico de traumas, sem conflitos internos. Tudo o que existia de “ruim” antes do advento do matriarcado foi apagado — inclusive da memória coletiva. Isso pode parecer libertador, mas resulta numa cultura que não lida com os próprios fantasmas. A história é negada, não ressignificada. Outro incômodo recorrente foi a maneira como Gilman trata as emoções. O amor, o desejo, a alegria — tudo existe, mas de forma asséptica, controlada, como se fosse possível sentir sem que o corpo responda. Mas emoção sem resposta fisiológica não é emoção. É um conceito vazio. Isso não é elevação espiritual, é anestesia narrativa. Não há tremores, corações disparando, olhos que se perdem. Apenas um racionalismo plano, idealizado, impessoal. Em Herland, nem todas as mulheres são mães — mas as que o são, carregam consigo uma aura quase divina. E as que não são consideradas aptas precisam ceder espaço para que as mais “preparadas” assumam a criação da criança. A justificativa da autora é pragmática: da mesma forma que os pais não tratam os dentes dos filhos, mas os levam ao dentista, também não deveriam ser os responsáveis pela criação se não forem especialistas. Mas aqui está o problema: filho não é buraco de dente, e maternagem não é técnica. É relação. Vinculação não se delega, se constrói. Quando Van pergunta sobre crimes, doenças mentais ou desvios de conduta, recebe como resposta algo do tipo: “Você puniria alguém por estar com febre?” A comparação é perigosa. Porque aqui Gilman nega a existência de transtornos mentais reais, como se todo comportamento violento ou disfuncional fosse puramente fruto de competição masculina. O conceito de psicopatia, alexitimia, disfunções cognitivas — nada disso tem espaço. Criminosos não são doentes: são, simplesmente, homens. A sociedade de Herland vive num suposto equilíbrio absoluto. Mas não existe divergência, e onde não há divergência, há imposição. O tom é sempre brando, mas o conteúdo é rígido. Ninguém pode ser diferente. Nem as próprias mulheres. O filho não pertence à mãe. O amor não é físico. A individualidade é diluída em nome de um bem coletivo que nunca é debatido, só aceito. E essa passividade compulsória é, na verdade, uma forma elegante de autoritarismo. A forma como o livro lida com o desejo humano chega a ser desconcertante. O desejo é retratado como um impulso animalesco, irracional, que só existe nos homens. As mulheres amam, mas um amor cerebral, límpido, sem toque, sem nervos, sem aceleração. Um amor que, na vida real, seria mais próximo da assexualidade ou de uma construção idealizada de pureza do que de uma experiência humana compartilhável. A mensagem implícita é clara: sentir desejo é inferior. E, por extensão, quem sente — homens, no caso — também é. Terry é o “machista padrão”, construído para cair. É o homem tradicional que questiona, deseja, impõe — e por isso precisa ser punido, ridicularizado e banido. Ele é um personagem feito para perder — e para merecer a derrota. Van, o narrador, é o fiel escudeiro da autora. Um homem que observa, aprende, mas nunca discorda. É o porta-voz obediente, que vai aceitando cada nova “verdade” com olhos submissos. É o escriba da utopia. Jeff é o mais simbólico. Ele representa o homem ideal da autora: gentil, calmo, passivo no comportamento. Ainda hétero, mas completamente adaptado ao que lhe é pedido — e que, por isso, nunca ameaça. É o homem domesticado. Eu não acho que Herland exclui apenas os homens. Como mulher, confesso que também me senti excluída. Porque quando a autora transforma a própria verdade em verdade absoluta, ela não constrói uma utopia: ela impõe uma cartilha. E nesse ponto, a obra deixa de dialogar para apenas instruir — o que, na prática, fecha as portas para qualquer enriquecimento real da ideia. É a idealização unilateral do que seria “bom para todos”, mas sem todos estarem incluídos na conversa. Ainda assim, eu amei ter lido este livro. Porque ele me provocou a argumentar. Me fez pensar, discordar, escrever e discutir em quase todas as páginas. Não é uma leitura que causa repulsa. É uma leitura que ativa o cérebro, exige posicionamento. E por isso mesmo, é brilhante no que provoca — ainda que falha no que propõe.

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    Charlotte Perkins Gilman

    Feminista, socióloga e escritora estadunidense, autora de contos, poesia e livros de não ficção, com conquistas excepcionais para sua época. Seus conceitos não ortodoxos e estilo de vida serviram de modelo para gerações futuras de feministas.

    24 Livros
    82 Seguidores
    Connecticut, Estados Unidos da América

    Charlotte Perkins Gilman