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    O romance luminoso -

    Mario Levrero

    Companhia das Letras
    2018
    648 páginas
    21h 36m
    ISBN-13: 9788535930788
    Português Brasileiro
    4.3
    90 avaliações
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    Considerado o principal romance latino-americano depois de 2666, de Roberto Bolaño, O romance luminoso é um romance sobre o desejo de escrever um romance. Um romance sobre manias, transtornos do sono, vício em computadores, hipocondria, o amor e a morte. Um romance sobre as experiências luminosas e sobre tudo aquilo que não se pode narrar. No ano 2000, Mario Levrero recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim para terminar de escrever O romance luminoso. O livro tinha sido iniciado em 1984, na mesma época em que o autor, endividado, se mudou de Montevidéu para Buenos Aires à procura de trabalho. Com a bolsa, em vez de se dedicar ao romance, no entanto, Levrero se lançou à escrita febril de um diário da escrita do romance, diário este que se tornaria, ele mesmo, o seu magistral O romance luminoso. O livro narra em detalhes as confusões cotidianas de um homem de sessenta anos. Estão aqui todos os tiques de um narrador obsessivo tomado por fobias e superstições. Para o autor uruguaio, a possível transcendência só poderia surgir da repetição de manias que atribui à vida real sua condição de permanente adiamento. Assim, a procrastinação e a busca deste livro “luminoso” são a própria matéria de que são feitas as horas, e a aventura literária se insinua através de idas e vindas da espera simbolizada pelos relatórios irônicos do andamento do projeto ao “Sr. Guggenheim”, por visitas amorosas, madrugadas insones em frente ao computador, a busca pelo significado dos sonhos, passeios pelas ruas de Montevidéu e advertências, prefácios, prólogos e epílogos. “Um dia enfim abri O romance luminoso e fui com ele até a derrota final, incapaz de deixar de lado esse tão fascinante herói da escrita.” — Enrique Vila-Matas “Enquanto seus contemporâneos continuavam publicando versões rotineiras do grande romance latino-americano, Levrero construía uma literatura nova; uma obra que via com ceticismo os caminhos do boom e que se opunha a toda pressão normalizadora. Ele não queria fundar ou confirmar ou refutar mitologias: queria escrever, somente, solitariamente.” — Alejandro Zambra

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    Alexandre Kovacs13/06/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Mario Levrero - O Romance Luminoso

    Editora Companhia das Letras - 648 Páginas - Tradução de Antônio Xerxenesky - Publicação original: 2005, Lançamento no Brasil: 13/04/2018. Este romance póstumo do uruguaio Mario Levrero (1940-2004), em excelente tradução de Antônio Xerxenesky, é o segundo livro do autor lançado no Brasil (o primeiro, Deixa Comigo, foi publicado pela Editora Rocco em 2013 para a coleção "Otra Língua" organizada por Joca Reiners Terron). O estilo do Romance Luminoso é um exemplo do que costumamos classificar como metaficção, ou seja, uma narrativa ficcional que tematiza o próprio processo da escrita literária, transformando o autor em personagem. Contudo, aqui é explorado um tipo de problema bem específico enfrentado durante a elaboração de um texto e, no entanto, comum a muitos escritores: a procrastinação, o adiamento sucessivo da tarefa de escrever, a luta para superar o bloqueio criativo. Mario Levrero recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim no ano 2000 para concluir um romance inacabado que havia iniciado em 1984 e abandonado com apenas cinco capítulos, O Romance Luminoso, de cunho autobiográfico. Ele iniciou então um diário detalhado que chamou de "diário da bolsa", de agosto de 2000 até agosto de 2001. O período coberto pelo diário é coincidente com o final de uma relação amorosa importante e, de certa forma, é o "testemunho de um fracasso" já que foi impossível para Levrero retomar o antigo projeto que acabou ficando com a sua forma e tamanho originais, de aproximadamente 140 páginas, enquanto o diário de mais de 500 páginas, publicado como um "prólogo" assumiu a identidade do próprio romance. Mas, afinal, que fatos extraordinários poderiam ser narrados a partir do cotidiano de um escritor rabugento e hipocondríaco de 60 anos, que praticamente não sai de casa, vive "insuportavelmente sujo", trocando o dia pela noite, viciado em desenvolver programas de computador, jogos e pornografia na internet e a leitura de policiais baratos? "Há coisas que não podem ser narradas", segundo Levrero afirma em seu prefácio, mas ele mesmo nos prova o contrário com seu brilhantismo narrativo, mesmo quando os temas são difíceis, como a velhice, solidão e morte. De qualquer forma, neste livro confirmamos que o argumento não tem grande importância; o estilo, a forma de narrar, é tudo. Por exemplo, o trecho abaixo é uma hipotética carta, muito bem-humorada, à Fundação Guggenheim, patrocinadora do projeto, na figura do "Sr. Guggenheim", onde Levrero resume o seu impasse criativo. "Prezado sr. Guggenheim, espero que esteja consciente dos esforços, registrados neste diário, para melhorar meus maus hábitos, pelo menos alguns deles, ao menos na medida em que me impedem de me dedicar plenamente ao projeto de escrever esse romance que o senhor tão generosamente financiou. O senhor pode ver que faço tudo o que está humanamente ao meu alcance, mas tropeço de vez em quando contra esse monte de escombros que eu mesmo, certa vez, derrubei no meu caminho. É necessário remover totalmente esses escombros para poder continuar andando; digo isso porque me conheço e sei, ainda por cima, que não consigo atingir a inspiração de outra maneira. Porque a inspiração de que preciso para este romance não é qualquer uma, mas uma inspiração determinada, ligada a acontecimentos que jazem na minha memória e que devo reviver, à força, para que essa continuação do romance seja uma verdadeira continuação e não um simulacro. Não quero usar meu ofício. Não quero imitar a mim mesmo. Não quero retomar o romance a partir de onde o larguei há dezesseis anos e continuá-lo como se não tivesse acontecido nada. Eu mudei, Meus pontos de vista mudaram. Minha memória mudou, e com certeza alterou os fatos. Lembro-me muito bem, diria quase perfeitamente, para além de pequenas variações inevitáveis — porque a memória é dinâmica e criativa; como já disse muitas vezes, ela põe e tira várias coisas por conta própria (...)" (Págs. 109 - 110) Em muitas passagens, Levrero comenta os seus gostos literários a partir de autores como: Somerset Maugham, Franz Kafka, Samuel Beckett, Thomas Bernhard, Peter Handke, William Burroughs, J. D. Salinger e Philip K. Dick, assim como seus romances policiais prediletos, partindo de alguns nomes consagrados no estilo como: Edgar Wallace, Ellery Queen ou Dashiell Hammett até uma série de escritores desconhecidos de coleções populares. Na área da música ele confessa a predileção por Villa-Lobos e a sua total aversão à ópera que "pode levar as pessoas a proferir esses gritos monstruosos, repulsivos, a forçar a voz dessa maneira antinatural, insolente, afetada, como se participassem de uma competição nas Olimpíadas, demonstrando um esforço físico, querendo bater algum recorde. Nada mais remoto, mais distante, mais oposto à arte." Um belo dia, Levrero identifica o cadáver de uma pomba num telhado próximo de sua casa e, poucos dias depois, vê a suposta companheira da pomba morta em atitude de velório. Ele designa a pomba viva como "a viúva", supondo que o cadáver é um macho. Deste ponto em diante, ao longo de todo o diário, Levrero descreve uma dramaturgia sobre a população de pombas que visitam aquele espaço. São passagens absolutamente hilárias onde ele utiliza a imagem das sucessivas pombas e as (imaginadas) relações entre elas como um símbolo para a vida, amor, sofrimento e morte. Aqui vai um resumo das páginas com as inserções da epopéia das pombas e do cadáver da pomba, assim como um trecho em citação (quem sabe possa ser de alguma utilidade para outros leitores apaixonados pelo tema, como eu): 164 / 174 / 194 / 201 / 220 / 224 / 226 / 255 / 263 / 274 / 299 / 305 / 335 / 409 / 423 / 436 / 449 / 475 / 480 / 483 / 484 / 510 / 514 / 645. "A família de pombas parece ter se desintegrado. Faz muitos dias que os jovens foram viver sua vida independente, e durante algum tempo se enxergava o casal a sós, em seu lugar de sempre, na mureta do telhado vizinho. Mas, muito rapidamente, pararam de aparecer juntos. Às vezes aparecia o macho, às vezes a fêmea, e depois não voltei a ver nenhum deles. É muito possível que, uma vez criados os filhos, a viúva tenha considerado que não tinha mais uma boa razão para continuar mantendo ao seu lado esse macho que, provavelmente, não era pai deles. O pai dos seus filhos continua morto, quietinho, ali no telhado; agora, muito sozinho. Outras pombas vêm e vão pela mureta, sempre diferentes, e nenhuma se interessa por ele. Esse cadáver já está me incomodando. É a primeira coisa que vejo todas as vezes que levanto a persiana do quarto. É uma presença ominosa; não combina em nada com a paisagem citadina de ruazinhas antigas que desembocam no porto." (Pág. 299) A rotina do escritor também consiste na descrição de seus sonhos/pesadelos e possíveis interpretações psicológicas, sem descartar o aspecto parapsicológico e, até mesmo, telepático. Entre a enorme e monótona quantidade de trivialidades, hábitos, transtornos sociais e fobias, o autor vai inserindo aqui e ali algumas reflexões brilhantes (nem sempre politicamente corretas, o que é ótimo!) sobre a vida, religião e filosofia, sendo algumas até proféticas (como é o caso da internet que será controlada por comerciantes e estadistas). Selecionei algumas máximas de Mario Levrero que vale a pena conhecer: "Os médicos sempre são categóricos, sobretudo os cirurgiões, e se sabe que os cirurgiões cobram muito bem pelas suas operações" (Pág. 15) "Um romance, atualmente, é quase qualquer coisa que se ponha entre uma capa e uma contracapa" (Pág. 25) "O computador gera automatismos; é um autômato, e, quando alguém frequenta autômatos, em longo prazo se transforma num deles." (Pág. 88) "O importante na literatura não está nas suas significações, mas isso não quer dizer que as significações não existam e que não tenham sua importância" (Pág. 140) "(Somerset) Maugham tem a virtude dessa mediocridade deliberada. Todas as suas reflexões são quase triviais e, ao mesmo tempo, são oportunas e exatas." (Pág. 162) "A superstição, como eu bem sei, é uma construção própria do homem sem religião, é a submissão a alguma espécie de lei superior, embora essa lei tenha sido criada pelo próprio sujeito." (Pág. 278) "A internet sairá definitivamente da esfera da cultura onde nasceu, e será controlada por comerciantes e estadistas." (Pág. 309) "Eu me incomodo que um editor me roube, e os editores com frequência me roubam, e roubam todos os escritores, de uma maneira ou de outra." (Pág. 319) "Villa-Lobos é o único músico que conseguiu usar uma soprano - nas suas 'Bachianas brasileiras' — com arte e elegância, sem machucar o ouvido ou o espírito, sem me provocar impulsos homicidas." (Pág. 496) "Explico aos jovens: não há nada de bom no álcool, no cigarro, nas prostitutas, na pornografia ou nas drogas. São todas coisas que destroem o corpo e a mente." (Pág. 542) "E, se não ficou claro, volto a explicar aos jovens: Não há nada de bom na televisão, nos jornais, no dinheiro, na política, na religião, no trabalho. São todas coisas que destroem o corpo e a mente." (Pág. 543) "Até nas igrejas a mão de Deus pode nos alcançar." (Pág. 543) "Sim, sou católico, da mesma maneira que sou uruguaio. Não por escolha, e sim por nascimento." (Pág. 610) Algumas vezes o comportamento do autor-personagem é francamente repulsivo; e ele não se furta a narrar também essas passagens. O trecho, por exemplo, no qual ele se encanta no supermercado por uma jovem que ele estimava tivesse "algo entre catorze e dezesseis anos" e não se imaginava "seduzindo-a", mas sim "domesticando-a como um animal". A descrição avança para um estupro: "teria que forçá-la, teria que lutar, e ela lutaria e morderia e bateria. Teria que golpeá-la e dominá-la, teria que arrancar suas roupas em pedaços. Ai, meu Deus, meu Deus. E tudo em silêncio, sem palavras; só talvez grunhidos." Até que ponto a ficção avançou na autobiografia, e vice-versa, é uma coisa que nunca poderemos saber. A parte final do livro, ou O Romance Luminoso propriamente dito, é decepcionante se comparado com a carga concentrada de literatura presente nas mais de 500 páginas do diário-prólogo e não poderia ser de outra forma, afinal, o texto que deveria ter sido expandido e completado com o auxílio da bolsa da Fundação Guggenheim, continuou fragmentado e, de certa forma, incompleto. Por outro lado, o auxílio financeiro atingiu plenamente o seu objetivo, permitindo a compra de duas poltronas, uma luminária, um sistema de ar condicionado e a sobrevivência de um escritor brilhante que viria a morrer três anos depois deixando uma obra póstuma perturbadora que, conforme nos conta ao final de seu diário (Pág. 510), deveria ter se chamado: "Uma única, eterna madrugada", talvez um título bem mais apropriado, mas isso é só uma opinião.

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    Jorge Mario Varlotta Levrero

    O uruguaio Mario Levrero permaneceu desconhecido do grande público até o momento de sua morte, em 2004. Fazendo de tudo um pouco para se manter (Levrero escreveu de romances e contos a texos humorísticos, histórias em quadrinhos, parapsicologia e quebra-cabeças e ainda foi fotógrafo, livreiro e chefe de redação de revista) chegou a obter algum reconhecimento na Argentina e foi publicado na Espanha mas foi somente em 2005, com a publicação póstuma de La novela luminosa que Levrero cravou seu nome entre os chamados "raros" uruguaios. Ainda assim, foi no ano passado que um trabalho do uruguaio ganhou sua primeira tradução em língua estrangeira, chegando ao Brasil através da já comentada coleção Otra Língua, na felicíssima iniciativa de Joca Reiners Terron - que também assina a tradução e o posfácio do livro de Levrero - lançada pela editora Rocco.

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    Jorge Mario Varlotta Levrero