O Passa-Paredes (Mestres do Horror e da Fantasia #7) -

    Marcel Aymé

    Francisco Alves
    1982
    162 páginas
    5h 24m
    Português Brasileiro

    O Passa-Paredes compõe-se de dez contos publicados durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Numa época em que o escritor, para sobreviver, apelava não poucas vezes para a escamoteação da realidade, Aymé deu largas ao pendor para o fantástico e o alegórico, ironizando a crescente degradação do homem, a decadência de costumes e da sociedade francesa de seu tempo. Num sentido restrito, poderia ser chamado de puritano e conservador. Porém, se atentarmos bem verificaremos que seu puritanismo nada mais é do que a tentativa de manter-se íntegro diante de um mundo, de uma civilização que parecia desabar diante das panzerdivisionen alemãs. Neste livro de contos, Aymé aborda temas essenciais à literatura de idéias: o da identidade pessoal em "As Sabinas", o da precariedade do tempo e sua manipilação em "O Cupom de Tempo", "O Decreto"; a mistura do fantástico ao real é cada vez maior, a ponto de serem abolidas as fronteiras entre um e outro, ou melhor, sere marcadamente fabtásticas certas narrativas como "O Oficial de Justiça". Em todos os contos insere-se o fantástico, quer seja no dom de atravessar sólidos, na história que dá título ao livro, quer na possibilidade de se multiplicar de Sabina, ou em pequenos detalhes como em "As Botas de Sete Léguas", cujo intenso lirismo o transforma num intenso poema. Em outros, é o tom de lenda que predomina: "Lenda Poldava", "O Cobrador de Esposas", p. ex. Mesmo quando se restringe mais ao real, Aymé introduz aqui e ali pitadas de fantástico: "O Provérbio" e "À Espera". Assim, Marcel Aymé se antecipou em muito à atual voga de literatura do realismo fantástico e é justo que deixe agora seu quase total esquecimento para ser relido e reavaliado com interesse pelo público brasileiro. Fernando Py

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover

    Similares (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    Fábio França picture
    Fábio França04/05/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Kafka + Voltaire

    Apesar de vergonhosamente ignorado pelo público brasileiro – aliás, este livro, datado de 1982, é sua última obra publicada por aqui – Marcel Aymé é um dos nomes mais notáveis da literatura francesa do século XX, sobretudo na área do realismo fantástico. Esta antologia justifica bem a originalidade do autor ao contextualizar situações absurdas e surreais ao cenário sociopolítico vivido por ele. Publicados no início da década de 1940 (ou seja, durante a ocupação alemã na França), os contos de Aymé presentes nesta edição exploram várias facetas e “graus” do fantástico, geralmente com uma nota sutil de humor. O conto que dá título ao livro é certamente o mais famoso; a propósito, o autor foi homenageado em Paris com uma praça que leva seu nome e tem a curiosa escultura de Dutilleul – o protagonista do conto – atravessando um muro. Como o título sugere, trata-se da história de um funcionário dos Registros que descobre ter o dom de atravessar paredes. A princípio ele não dá muita atenção a esse “dom” recém-adquirido e continua levando uma vida medíocre até que seu novo chefe passa a maltratá-lo. Isso é o estopim para uma mudança total no comportamento de Dutilleul, acarretando uma série de situações cômicas que o elevam ao status de celebridade do mundo do crime. O segundo conto, “As Sabines” trata de uma mulher que tem o dom da ubiquidade, isto é, ela pode se multiplicar à vontade e estar em vários lugares ao mesmo tempo, embora possua uma só alma/consciência. Apesar do tom humorístico das aventuras em que Sabine e suas cópias vivem, este conto tem um desfecho um tanto sombrio e moralista no qual ela é punida por sua(s) vida(s) pecaminosa(s). O terceiro e quarto contos – “O Cupom do Tempo” e “O Decreto” – têm um forte apelo de crítica política. Embora com abordagens distintas, em ambos a ideia central é a manipulação do tempo pelo governo para o “bem da nação”; o que se vê, porém, é que tal manipulação é ridiculamente ilusória e se por um lado se ajusta às conveniências políticas, por outro prejudica diretamente as vidas dos cidadãos pelas quais deveria zelar. No quinto conto, “O provérbio”, o elemento fantástico é posto de lado e o autor recria um núcleo familiar essencialmente patriarcal, liderado por um homem intimidador que usa o sucesso/fracasso de seus conhecidos como exemplo para oprimir a própria família. Sua prepotência é posta em xeque quando ele decide ajudar o filho com a lição de casa. “Lenda poldava” é um dos contos mais engraçados do livro; nele há referências políticas, mas o fantástico retorna com força total através da história de uma beata que após a morte tem o acesso ao Paraíso negado, enquanto seu sobrinho mau caráter e outros sujeitos de péssima índole têm livre acesso aos portões de São Pedro. Além do humor da situação em si, o desfecho com a saída encontrada para contornar a injustiça cometida contra a pobre devota é impagável. “O cobrador de esposas” é outra história em que o humor oriundo do absurdo resulta numa obra comparável a Voltaire. Como nos demais contos, aqui há uma crítica implícita, dessa vez à burocracia e à coleta de impostos. O protagonista é justamente um fiscal que tem dificuldade em pagar seus próprios débitos. Uma atitude leviana da esposa acaba levando-o a adotar uma forma hilária de regularizar a situação de seus impostos, servindo de exemplo para toda a cidade em que ele vive. Talvez “As botas de sete léguas” seja o melhor conto do livro: aqui há um equilíbrio perfeito entre o humor, a identidade infantil e a realidade crua. Um grupo de crianças anseia por ser dono de um par de botas supostamente mágicas que está à venda numa loja cujo dono, além de excêntrico, é muito careiro. Cada membro do grupo tem planos próprios para as botas e enquanto ninguém as obtém, somos apresentados aos contrastes da vida de cada um deles, sendo que o foco é dado ao mais pobre, que não tem pai e cuja mãe é vítima de exploração e exclusão por ser empregada doméstica e “não ter homem”. O penúltimo conto, “O oficial de justiça” lembra vagamente “Um conto de Natal”, de Dickens: o protagonista, mesquinho e orgulhoso do seu rigor nos negócios, falece e ao ter de prestar contas de suas ações, entra em desacordo com São Pedro. Para solucionar a questão, Deus decide dar ao oficial uma nova chance de viver e reavaliar sua conduta. Por fim, temos “Esperando”, o conto mais deprimente do livro. Além de não ter elementos fantásticos, o humor aqui é restrito a acentuar a miséria dos personagens. O texto retrata com clareza a época da ocupação alemã e se passa à porta de um armazém, na qual se concentra uma fila de 14 pessoas, todas elas amarguradas pela mesquinhez da vida que estão levando naqueles tempos sombrios. Cada membro da fila expõe aos demais as durezas, misérias e desilusões de suas vidas, alguns em longos relatos de uma página inteira, outros secamente, em uma só linha. Particularmente, achei ótimo esse contraponto nas narrativas, encerrando o livro com uma história triste depois das situações deliciosamente estapafúrdias da maioria dos contos anteriores.

    4 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.9 / 35
    • 5 estrelas34%
    • 4 estrelas29%
    • 3 estrelas37%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%