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    O pau do Brasil -

    Wilson Alves-Bezerra

    Editora Uratau
    2018
    84 páginas
    2h 48m
    ISBN-13: 9788569433743
    Português Brasileiro
    4
    1 avaliação
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    Navega na web, na tevê, afundando todos os pontos e portos da Idade Mídia, a navilouca dos libertinos liberais.A cena política tupiniquim está em chamas. Desde o arrefecimento da Ditadura Militar e da expansão do movimento Diretas Já que não assistíamos a um espetáculo tão radical. Nas ruas,nos jornais e nas redes sociais não existe meio-tom. Não há o menor espaço para a contemporização.A guerra é maniqueísta. Obscena. Porque, você sabe, “no Brasil a vida pública é muitas vezes a continuação da privada” (Barão de Itararé). Enquanto os maus e os piores se enfrentam na Capital Federal, trapaceando na dança das cadeiras, os trouxas — nós — saímos no tapa com o vizinho que torce para outro time ideológico e idolatra outro deus fedorento e corrompido.Os poemas urgentes de Wilson Alves Bezerra denunciam essa cena em chamas, esse circo de horrores que é a nossa fascista-machista-racista democracia.Tempos atrás, André Breton explicou que o ato surrealista mais simples consiste em sair à rua empunhando revólveres e atirar a esmo contra a multidão de cretinos. Mas essa multidão cresceu e espalhou-se tanto,no último século, que não dá mais pra sair à rua abatendo um por um.A opção mais eficaz é o armamento químico da melhor poesia-ironia, que devasta por atacado. Nesta coletânea de cutiladas, Wilson instalou um palanque e um microfonepara os ridículos discursos do Poder.Não importa sua orientação direita ou esquerda, verde-amarelo ou vermelho, o Poder foi, é e será sempre o mesmo leviatã onívoro das lendas selvagens.Se não podemos com o facínora, podemos ao menos tirar sarro dele,cutucando seu cu com vara curta,dando umas lambadas na nádega. É o que Wilson e sua gangue de vingadores — Joyce, Kafka, Oswald, Coltrane,orixás, pajés etc. — fazem em O pau do Brasil. Pra nos redimir e divertir.Golpes cortantes contra o golpe reinante.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos28/03/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Quando a realidade afinal sobrepuja a ficção e vira delírio - Ou porque ler um pouquinho da literatura brasileira e não ficar viajando somente nas lorotas de Harry Potter.

    Essa noite eu tive um sonho. Sonho não, pesadelo, que resenhista também os tem. Creio que reflexo, da leitura de certo livrinho. Uma onda surreal que poderia se dizer típico de alucinações de maconheiro inveterado. Conto antes de começar a resenha. Como já disse uma coisa para lá de maluca... Machado de Assis (1839-1908) delirou, também se deu comigo a princípio nas linhas do bruxo: “um hipopótamo nesse pesadelo arrebatou-me pelos ares. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino. - Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos” e então o hipopótamo compeliu-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações”. Em um cenário dantesco de dores e sofrimentos atrozes vi um tempo tresloucado. Gregório da Matos Guerra (1636/1696) trepado num veículo caveirão (carro blindado usado por batalhões de operações especiais das Polícias Militares), a barba hirsuta e branca a declamar seus versos seculares: Que falta nesta cidade?-Verdade / Que mais por sua desonra? -Honra / Falta mais que se lhe ponha? -Vergonha. / demo a viver se exponha, / Por mais que a fama a exalta, / Numa cidade onde falta / Verdade, honra, vergonha... Vi a princípio uma nuvem escura onde divisei a figura do poeta Tomás António Gonzaga(1744-1810) peregrinando de fórum em fórum a exigir justiça porque a sua Maria Dorotéia andou a espalhar pela cidade umas tais cartas chilenas denunciando roubalheiras, abusos e desmandos do governo, da polícia, ou dos traficantes e acabou emboscada e morta a tiros de pistola junto com seu cocheiro em uma noite fria. Mas logo o sol se abriu num calor insuportável e vi multidões em luta sangrenta, todos contra todos. Pedros Malazarte importados de Portugal medieval por todos os lados e de todas as cores trocando tiros de fuzil, ouvi os lamentos do sargento corrupto Leonardo Pataca, filho de uma pisadela e um beliscão de “Memórias de um Sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida (1830-1861), clamando por justiça porque sua mulata Vidinha, grávida de 7 meses tomou uma bala no ventre que matou o bebê. A guerra se desenrolava em um ambiente extremamente hostil onde se amontoavam por todos os lados imensas moradias semelhantes aos Cortiços de Aluísio Azevedo (1857-1913) que por sua vez constituíram cidades imensas e desordenadas onde se concentram 84,36% dos habitantes de um país. Por toda parte jaziam corpos, de um lado o mulato Policarpo quaresma de Lima Barreto (1881-1922) funcionário público a meses sem receber salário, baleado com tiro de fuzil na perna se esvaia em sangue numa calçada, de outro, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato (1882-1948) que havia sido preso por vadiagem, resolver vender trouxinhas de maconha. Podia-se apreciar ainda outro triste espetáculo. O Macunaíma de Mario de Andrade (1893-1945), o herói sem nenhum caráter, e que teve vários de seus parentes índios-pretos queimados em praça pública, enlouquecido de tanta cachaça, deu de correr de um lado para outro, alucinado e berrando que queria virar a constelação da Ursa Maior jé e já! Turbas de Capitães de areia de Jorge Amado (1912-2001) que haviam se dividido ao longo do tempo, haviam subido os morros e favelas, uns tornaram-se traficantes, outros entraram para a polícia para matar ladrões pretos e outros ainda, a maioria, aguentou a “sorte da vida” e tornaram-se trabalhadores honrados convivendo lado a lado com os migrantes miseráveis de Graciliano Ramos (1892-1953) e Raquel de Queiroz (1910-2003). E entretanto, e apesar de tudo, imune, assistia ao espetáculo de arquibancadas bem altas e bem distantes, uma plateia composta por ratazanas políticas e capitalistas aquelas protegidas por dispositivos constitucionais, esses por vidros blindados. Dir-se-ia o verdadeiro “Seminário dos ratos” de Lygia Fagundes Telles (1923). Fiz esforço supremo para libertar-me de todo aquele incômodo e constrangimento. Em vão, o hipopótamo virou-se, olhou-me bem dentro dos olhos e disse: - Pobres seres são os da sua espécie... Conservam-se bestiais na substância e tudo rebaixam ao seu nível – religião, estado, sociedade, justiça, ética... Para adaptá-los a si operam contínua redução de todos os valores morais. Presos aos instintos do furto e da guerra é necessário que atravessem dores terríveis, porque só estas poderão fazer-se entendidas e abalar-lhes a inconsciência. Estão equilibrados no seu nível; oprimidos por uma luta áspera e por uma realidade de dor, mas iludidos, insensíveis, inconscientes, resistem a toda melhoria substancial; correm atrás dos sentidos, anseiam a ascensão exterior, econômica, ávidos de abusar de tudo, imersos no egoísmo do momento, ignorantes do amanhã, em horizonte fechado. As verdades já foram amplamente divulgadas, mas o esgotamento dos ideais é coisa tão velha quanto o homem, e a sociedade está acostumada a considerá-los como mentiras. Sabem, por instinto nascido da experiência secular, que, a par de tantas coisas elevadas, há a própria miséria moral e material; que são retóricas e esta a realidade; e creem nas verdades em que todos creem: a festa do próprio ventre e a vitória por qualquer meio... E isto afinal empurrou-me de tal forma contra o fundo de mim mesmo que quando dei por mim, vi que o animal “começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato, menor do que um gato”, pareceu-me uma tábua, um pedaço de papelão colorido, mas era um livro, justo o livro que eu lera na noite anterior e que se chama “O PAU DO BRASIL! Do senhor Wilson Alves-Bezerra. * “O pau do Brasil é livro polêmico de nascença. A julgar por sua ficha catalográfica, estaríamos diante de mais um livro de poesias. Não deixa de ser verdade, entretanto, o que encontramos são pequenos textos em prosa poética divididos em 8 capítulos. Na orelha da obra somos avisados que: “os poemas urgentes de Wilson Alves-Bezerra denunciam essa cena em chamas, esse circo de horrores que é a nossa facista-machista-racista democracia”. Com efeito, o cenário extremamente conturbado que vivemos no Brasil atualmente, ao lado das feridas históricas abertas estão ali a berrar de modo furioso. Nada escapa ao olhar extremamente crítico do autor que foca a sua prosa poética, no que diz respeito aos desdobramentos decorrentes do impeachment/golpe da Presidenta Dilma, e a ascensão ao poder do Vice Michel Temer. Lenha na fogueira que já vai com fogo alto. O autor é contundente, ferino e não tem papas na língua! Traduz a indignação e a revolta de milhões e milhões de brasileiros que estamos nessa situação vexatória de baderna geral. No capítulo “O fim da história e o último homem”,(o melhor do livro), há um texto, o 3º no qual foca o comportamento da população inerte e perplexa: … “A História muda, não me fala mais. O Exército não veio; a Polícia não veio; o Repórter não veio; o Militante não veio; o Maratonista não veio. As famílias de bem estão assistindo aos linchamentos apenas pela televisão. Num silêncio de rasgar as pregas, eu, Gregor Samsa, danço miudinho aguardando vir mais um que pensa que vai conduzir a criadagem”. Em “Não nunca ninguém”, lemos no 1º texto um trecho de inspiração indígena, por assim dizer. “Ardem as palhas da tapera tapuia. Beiço na botija, focinho na cuia. Delator manda mais que presidente: entra pela porta dos fundos, sai pela porta da frente. A carroça se destroça numa curva. Os meninos da imprensa brincavam: quem é o chefe da quadrilha? Não era o Collor, não era o Lula, não era o Dólar, não era Dirceu nem era eu. O chefe não é o que madruga, é o que calcula, o que inventa e paga a lei; o que enraba presidente, senador e justiça, e anuncia seu bife em capa de revista. É dos espertos, não dos lerdos, é dos sagazes. Cai o rei de ouros, cai o rei do pó, cai não fica nada. O velho mandatário, arregalado, empalado, em sua defesa grita sobre o crime perfeito, vai falar dos trilhos mas já vendeu os trens. Não serve mais para mordomo, nem para vigiar o carro do patrão; não aguenta até o fim, começa a lhe falhar o rim; não aguenta em pé nem sentado, escasseiam senador e deputado para lhe limpar o rabo; o pobre urubu encapetado não aguenta nem a semana, já tem até quem clama por diretas já”. Ainda em “O fim da história e o último homem” 6º texto, tome-lhe inspiração africana: “Exu acordou apavorado e prega a desobediência civil, [grifo meu] para fazer caírem discursos e os traços da cara, e ninguém mais ser emasculado na terra com nome de árvore. Ibirapiranga, Ibirapitanga, Ibirapitá, Orabutá, Arabutã é tudo nome desse pau cortado. Índio sitiado por estradas, acossado por palavras. Tem as pedras, tem as lanças, tem os venenos, tem as ervas. Correm cutias, cipós, lencinhos, tostões. Não são indiozinhos, nem indiozões, nem um nem dois nem dia. Exu falou tá amarrado e na maloca se armou um auê. Seu grito foi escutado”. Em “Terra em transe” a nossa belíssima consciência cívica “Amo meu país, seus quadris prazenteiros, habilidosos em capturar o mais volátil capital. Amo cada miss que derrota uma venezuelana; amo quem conquista a cobiça, com uma cruzada roliça, cada infiel que passou. Não há volatilidade. Não há. Foram anos dividindo para todos. E se hoje falta, um exército de putas há de prover carestias. Pátria grande, eu te evoco, dos pipocos que ouço do Morro dos Macacos, dos arrepios que tenho no sovaco da mulher amada, que a ordem há de imperar, que os morros serão pacificados e a bala será detida em seu voo pela fé do pastor. Eu prometo, nunca mais molharei a mão da polícia, nem farei gato de água, luz e internet. Observo cada mandamento de Deus. E com a vizinha já não me engraçarei, uma ou duas vezes na semana, porque respeito o compadre Jackson, jornalista bem informado, que nunca mais fará matéria sobre boi zebu. E o fiofó de Eulália não mais comercializarei. Desde que o rábula sacripanta se apropriou de nós, entendi o sentido de mim, e lhe faço oferendas, comunistas em bandejas de prata, para que o novo patriarca nos possa prover. E nesta nova pátria é que quero morrer, contente e contrito, de braços dados com o Juiz a quem dirijo grito, prece e o rabo guloso de minha irmã. Assim será a terra de Jubiabá, ancas para os governantes e dedicação infinita para nós”. Ainda em “Terra em transe” aquele sentimento de que nada muda: 5º texto. “Façamos as contas, milongas, conchavos e depois, escondidinhos, de carnes secas, façamos nossas sepulturas. Façamos de conta, façamos um rombo, nas sombras, façamos apelidos para os próceres, não doerá, sabemos que não, é assim, foi assim e sempre será. Mudaremos as moscas da carniça, mudaremos os ternos e as cores das gravatas, apenas, e as novas larvas se comprazerão em dizer: façamos as contas, de conta, façamos conchavos e, ao largo, façamos como sempre foi. Alianças atávicas, as ligas de futebol society da várzea, que hão de compartilhar a carniça em proporcionais partes. Um discurso de surdos para a televisão sem espectadores”. E finalmente, ainda no capítulo “O fim da história e o último homem, 1º texto. Como estamos a reagir ante esse estado de coisas, a velha atitude derrotista de mãos dadas com o conformismo conivente: “As ruas estão desertas, estão cheias de pessoas, as ruas estão cheias de policiais, as ruas estão cheias de selfies e de ais, de bombas e de hinos nacionais. A rua quer fazer uma linguagem, que ligue uma rua às outras; mas a rua sempre parece pouca, para a estrada aonde vai. As ruas, à queima-roupa, incendeiam a crina dos cavalos dos policiais; as ruas tiram fotos das ruas num espetáculo de se masturbar. As ruas escancaradas sorriem para os jornais. As passeatas não se movem, não se resolvem, e bebem os perfumes que deveriam cheirar. Eu enlouqueço no berço a mucama, que tem que me dar de mamar. Vomito ódio em suas tetas de macaca. Brasil, desempaca! Vai adiante, mais índios para queimar, mulatas para meter, pretas para trabalhar. A pátria não pode parar. Brasil vai adiante, pelas ruas cheirosas dos noticiários; ouvi nosso protesto: vamos acabar com todos, vamos colocar os lordes, os heróis, os bossas, no lugar destes pagodes funks raps de doer. Refundar a pátria sem os párias, cagar na boca da gentalha, e nunca mais um miserável vai nos afrontar. A riqueza para os ricos, em penicos, iguarias sem igual. Nas ruas que desejo, baderna já não vejo, só carros importados, por pobres, por cavalos puxados. Eu, visionário, declaro, depois de tantos anos de baderna, a escravidão vai nos salvar”. Quem somos nós afinal? O que estamos construindo nesse país, ou antes, destruindo o que foi construído a duras penas? De Gregário de Matos à Tomaz Antonio Gonzaga, de Memórias de um sargento de milícias à Triste fim de Policarpo Quaresma, de Mário de Andrade à Lygia Fagundes Telles os escritores vêm escrevendo suas obras, chamando a atenção, alertando para esse imenso passado que o país vai acumulando pela frente. Vivemos hoje em pleno domínio da realidade brutal que sobrepujou a ficção e mostra o delírio infernal em que estamos metidos. Não importa nada, nem Direita, nem Esquerda, ninguém é cidadão, o que prevalece é a total incompetência e desonestidade generalizadas. “Enquanto os maus e os piores se enfrentam na Capital Federal, trapaceando na dança das cadeiras, os trouxas – nós – saímos no tapa com o vizinho que torce para outro time ideológico e idolatra outro deus fedorento e corrompido”[está na orelha da obra também]. Wilson Alves-Bezerra nos faz ouvir essa selva de ecos como proposta para outras escutas, temos mais alguns séculos para “escutar” antes de efetivamente nos levantarmos do berço esplêndido e começarmos a atuar. Livro: “O pau do Brasil – Poesias, de Wilson Alves-Bezerra, 2ª ed. ampliada - Editora Urutau – Bragança Paulista – São Paulo, 2018. 84p. ISBN 978-85-69433-74-3

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    Wilson Alves-Bezerra

    Wilson Alves-Bezerra é poeta, biógrafo e tradutor. É autor de Vertigens (Iluminuras, 2015, Prêmio Jabuti de Poesia – escolha do leitor), O pau do Brasil (Urutau, 2016-20), Vapor barato (Iluminuras, 2018) e Catecismo moreninho (Livraria Orgânica, disco de poemas em streaming, 2020), entre outros.

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    0 Seguidor
    São Paulo , Brasil

    Wilson Alves-Bezerra