Narrativas de histórias de vida como formação de si (Compendium) - Um jogo com adolescentes do povoado do Maracujá

    Élica Luiza Paiva

    Chiado
    2018
    282 páginas
    9h 24m
    ISBN-13: 9789895218653
    Português Brasileiro

    Narrativas de histórias de vida como formação de si: um jogo com adolescentes do Povoado do Maracujá é uma pesquisa-formação heterobiográfica que busca compreender como acontece a formação humana, tendo as narrativas de histórias de vida como dispositivo de formação. E nesse processo de pesquisa as histórias de vida dos adolescentes e dos velhos do Povoado vão se fundindo com as histórias de vida da autora, que propõe atividades formativas para os adolescentes, ao tempo que também se forma/torna pesquisadora.

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    Bruna09/04/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Memória, afeto e aprendizado

    É uma experiência enriquecedora poder ler obras escritas por nossos próprios professores. Este livro, escrito por minha professora favorita do curso, foi uma oportunidade única de mergulhar mais a fundo no seu trabalho. Foi fascinante perceber como os conceitos que ela trabalhou conosco nas aulas se refletiram em sua escrita, criando uma conexão ainda mais especial. Este livro é o resultado de uma pesquisa conduzida pelo Projeto Maracujá, realizada com adolescentes no Povoado do Maracujá, situado no município de Conceição do Coité. A pesquisa aborda temas de memória e narrativas de histórias de vida, com o objetivo de despertar nos jovens o interesse por sua própria trajetória, bem como pela história do lugar em que vivem, a partir dos relatos dos velhos da comunidade. Eu achei muito interessante a escolha do termo "velhos" ao invés de "idosos". O que me fez lembrar de discussões que já tivemos sobre isso em sala de aula, após a leitura da reportagem "A casa dos Velhos" de Eliane Brum. Este livro despertou em mim boas lembranças de leituras anteriores e me motivou a explorar novos títulos. Por exemplo, a descrição do Povoado do Maracujá me remeteu à Fazenda Água Negra, cenário do livro "Torto Arado", de Itamar Vieira Jr., e me fez refletir sobre a vida na roça da família do meu pai e seus antepassados. A menção a Graciliano Ramos também me trouxe à mente "Vidas Secas", obra que nunca li, mas que agora tenho grande vontade de conhecer. No final do livro, a professora Élica ainda cita trechos de "A elegância do Ouriço", de Muriel Barbery, que com certeza será minha próxima leitura. "Penso que a relação que as pessoas que moram na zona rural estabelecem com o meio ambiente é de espera e paciência: a espera ansiosa pela chuva a paciência em lidar com as situações que incidem sua chegada." (Pg. 153) Uma das escolhas mais criativas do livro foi a substituição dos nomes dos adolescentes por flores da caatinga. Além disso, gostei de ver como é compartilhado tanto os acertos quanto os desafios da pesquisa, mostrando que recomeçar faz parte do processo e que o mais importante é não desistir. As reflexões sobre memória individual e coletiva, a partir de autores como Halbwachs, também me tocaram profundamente. As discussões sobre recursos narrativos — como anacronia, analepse e prolepse — foram riquíssimas e ilustradas com exemplos do próprio texto, o que contribuiu para minha compreensão desses conceitos. "Halbwachs (1990), nesse contexto, teoriza que a memória individual existe, todavia, ela está enraizada na memória coletiva" (Pg. 75). A leitura coincidiu, de forma muito feliz, com o momento em que estou cursando a disciplina de Antropologia. Foi interessante perceber as semelhanças entre o Projeto Maracujá e o conceito de trabalho de campo de Malinowski, no qual o pesquisador se aproxima do outro com escuta atenta e sensibilidade. O autor ia a campo para descobrir "mistérios etnográficos", através da investigação minuciosa, adquirindo uma "intimidade" com o outro e estabelecendo um diálogo, assim como fizeram no Projeto Maracujá. Para Malinoski o pesquisado não é um mero objeto de pesquisa, também é humano e o pesquisador não é superior ao pesquisado. Isso me fez lembrar do que Gadamer fala sobre diálogo genuíno, que valoriza a troca mútua e a transformação provocada pela escuta verdadeira. "Gadamer (1997) fala que as situações, os contextos e as ideias que emergem em um dialogo não são nem de um nem do outro que está dialogando, que até mesmo a pessoa que começa o diálogo sabe que, nesse jogo, quanto mais autêntica for uma conversa menos possível será conduzi-la, por qualquer uma das partes." (Pg. 36) Concluir essa leitura foi como atravessar um caminho de lembranças, aprendizados e afetos. Gostei muito do livro — não apenas pela admiração que tenho pela professora-autora, mas porque ele me ensinou sobre a potência da memória, das histórias contadas e das relações que se constroem quando ouvimos com o coração aberto. Em tempos de esquecimento, este livro me lembrou que a memória é resistência, identidade e, acima de tudo, afeto. "Só podemos interpretar o que aconteceu, só podemos interpretar o passado. O tempo presente das vivências não pode ser capturado. Quando o capturo, ele já é passado, já é memória." (Pg. 171)

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