Encontrei apenas três obras do Dovlátov em português (acho que são os únicos traduzidos até agora) e todos eles falam das mesmas coisas e giram em torno dos mesmos temas – muitas vezes até mesmo recontando as mesmas passagens, embora com detalhes trocados. Tenho que admitir que me pegou de vez, virei fã de carteirinha – alguém tem que lançar os outros livros do cara por aqui, estou disposto até a trabalhar para ter dinheiro e comprar. Pago até com meu corpo, mesmo que devido a isso precise ser capítulo por capítulo.
A escrita dos relatos (são contos e novelas autobiográficos) é sempre despojada e é aí que reside parte da maestria do cara. Qualquer macaco escrevendo sabe o quanto é difícil ser despojado e que é muito mais fácil escrever um calhamaço como O Nome do Vento, do que um livrinho como O Velho e o Mar. Mas Dovlátov consegue sempre, e cada página lida se parece com aqueles dias em que tiramos uma leve pausa dos afazeres, damos uma provadinha ou duas naquela vodka que algum tio nos presenteou e, quando olhamos, já estamos deitados no chão com apenas metade da segunda garrafa sobrando. É como se estivéssemos conversando com o sujeito.
Outra coisa que admiro nestes três volumes é o humor, talvez sua característica mais evidente. A escrita leve e ágil, o estilo contido do olhar sobre o mundo, esconde boa parte das observações ferinas do autor. Porque Dovlátov é um cara que pondera sobre tudo que o cerca, mas não diz isso diretamente ao leitor. Você precisa pegar a referência de alguma ação, gesto ou fala, igual à um desses insuportáveis geeks atuais com quem ninguém quer transar fazem com suas séries favoritas. O mundo em que Dovlátov vive é absurdo, mas seu absurdo é em boa parte normalizado, seja por parte dos outros personagens que estão imersos nele sem questionamentos, seja pela própria natureza da União Soviética descrita, que impede o autor de gritar para todos o quanto tudo ali é absurdo. O único lugar em que a lógica deste mundo é subvertida é na literatura – e talvez por isso mesmo Dovlátov seja uma pessoa que só se preocupa em escrever e registrar as coisas, quase ao mesmo tempo em que ocorrem em sua vida. Para mim só é artista quem tem esta fixação doentia; daí ou faz arte ou vai se tratar.
Outro importante elemento (o último, prometo!) que me fez a cabeça nestes livros: a ambientação. É impossível não fazer um paralelo com as situações vividas pelas personagens nos livros e o Brasil atual (sim! A grande ironia, uma comparação justa entre a URSS e o atual governo de um país cuja bandeira jamais será vermelha! Na vida ou você chora ou você ri, camarada). Dovlátov ama seu país onde todos os acentos dos nomes estão sempre nos lugares mais difíceis de se pronunciar, mas tem sérios problemas com o regime em que vive – são hilários seus perrengues com as autoridades nas incontáveis tentativas de publicar seus textos. Alguém sempre lhe aponta ‘erros ideológicos’ ou simplesmente recusa seus livros sem explicação alguma. Tudo é vigiado, tudo é pisar sobre ovos, tudo é incompreensão, tudo é motivo para desacordos. Há fake news feitas com o propósito único de fatos se adequarem à política, há exigências de desculpas descabidas por atos normais, há escaramuças com a KGB que poderiam ser facilmente resolvidas, mas a burocracia e as autoridades sempre atrapalham... Em suma, quem vive em qualquer um desses países perdidos do mundo onde não se pode nem mesmo chamar o presidente de genocida vai se identificar com muita coisa.
E é isso, fica a dica de leitura; eu realmente gostei muito.
Ah sim! E faltou: eu vi poucos escritores escreverem tão bem sobre a vida boêmia, isso aqui é literatura etílica de qualidade.