Estranho é uma antologia de contos sobre o mais íntimo dos sentimentos: o fascínio pela morte. Sete histórias com personagens imortais, muitos consagrados, que percorrem os séculos não apenas aterrorizando, mas expondo os desencontros da alma. Impasses, desfechos misteriosos narrados numa prosa poética peculiar, pois tudo aqui é estranho demais. Seres perturbados, mantidos vivos pela abominável desilusão diante do amor perdido e do sofrimento desumano. Mas quem disse que são humanos? Vlad Tepes, o “Príncipe da Valáquia”, considerava-se um homem, isso porque pouco conhecia do seu passado, nada sabia sobre a mulher para quem se entregou. Um drácula fragilizado, assim como Maggie Wall, a bruxa escocesa, delicada mesmo quando assistia, chorando, ao fogo que a consumiu. Fogo, ele próprio, amigo dos loucos; seja na Rússia ou no Brasil. Alexandra Feodorovna, que ainda acredita ser a grande imperatriz russa, trancafiada em seu fanatismo religioso e orgástico. Trancas de sanatórios que abrigam gritos, seitas que escavam mentes, seja a de um lunático cientista, que já se encontra enterrado na Floresta Amazônica, seja a da portuguesa Bárbara dos Prazeres, a “bruxa sempre bela” que traz lembranças guardadas num livro dourado; na capa, um rei vestido de amarelo. Severa é a maldade que faz sangrar, abortar, que povoa cenários, desde aqueles distantes de uma Verônica menininha ou de uma Verônica mulher. Vidas sobrevoadas por corvos, encerrados por máscaras ou cortinas em chamas; voando assim, chega-se para observar a um Edgar Allan Poe, machista e alcoólatra, abominar sua esposa. O que há de comum entre tantos personagens, além da dor e do horror? A morte que os torna imortais, um tipo de amiga para quando o amor lhes falta; pois quando ele nos deixa, o equivalente que nasce na alma é o ódio. E não há nada de estranho em ser assim; pois isso somos nós.


