Resenha do livro CORROSÃO de Ricardo Labuto Gondim
No posfácio a esse livro incrível, o autor Ricardo Labuto Gondim faz um inspirado depoimento sobre o tanto de pesquisa, de reflexões profundas e de árduo dispêndio de energia mental que foram necessários na escrita de Corrosão. Em um trecho particularmente comovente, o escritor relata:
Em algum momento de 2014, meu filho, Yuri Gondim, me encontrou debruçado sobre as plantas do navio. Eu estava muito pálido e encovado depois de três jornadas consecutivas de quatorze horas de trabalho, praticamente sem comer ou dormir. O rapaz me pegou pelas mãos e conduziu ao sofá.
Você está indo longe demais. Este é um livro de ficção. Ficção, compreende?
Mais do que dar a medida da entrega do autor no processo de criação de sua obra, esse depoimento (generoso em sua intenção) nos mostra como uma obra da magnitude de Corrosão exige muito trabalho duro. Além, é claro, de toneladas de talento.
Talento, aliás, eu sei bem que Ricardo tem de sobra, pois sou fã desse brilhante autor desde a leitura de seus livros anteriores, Deus no Labirinto (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2017/04/deus-no-labirinto-ricardo-labuto-gondim.html), de contos, e o policial irônico B (https://www.facebook.com/photo/?fbid=10203448138151844&set=a.10203218903901131). Contudo em Corrosão o autor alça-se a novas e vertiginosas alturas, mostrando o que uma mente genial é capaz de criar quando determinada a encarar muita pesquisa, muitas reflexões e muitos quilowatts de conexões sinápticas.
É muito difícil tentar listar todas as virtudes desse livro, por isso vou me limitar a falar sobre o que primeiro vier ao meu coração. Antes de mais nada, Corrosão é entretenimento de primeira qualidade. A história captura o leitor, possuindo aquela rara capacidade de nos transportar inteiramente para o mundo imaginado pelo autor. Pela forma como a trama está estruturada, penso que a Netflix faria muito bem em transformar Corrosão em um filme ou série.
Contudo essa narrativa envolvente e pra lá de tensa está longe de ser um mero entretenimento. Corrosão parte de uma ideia genial e evolui em torno de conceitos extremamente atuais da filosofia e da ciência. Pode-se dizer que essa espetaular história de ficção científica está a serviço da difusão dos novos paradigmas de pensamento, que a humanidade precisa absorver o quanto antes se quiser continuar por aqui mais tempo. Outro motivo para a Netflix querer fazer uma adaptação desse livro!
Como leitor, só lamento ter ficado sabendo de antemão de um elemento central da trama, que foi amplamente divulgado pela excelente editora Caligari, em uma estratégia de marketing necessária e, talvez, inevitável. A revelação desse elemento certamente não prejudica o prazer da leitura, mas eu fiquei imaginando o tamanho de minha boca aberta caso não soubesse desse detalhe, ao me deparar com a sua apresentação, que no livro ocorre por volta da página 100. Se você não sabe que detalhe é esse, meu conselho de amigo é: vá correndo ler Corrosão, mas deixe para ler o texto da contracapa somente depois de ter terminado o livro. E depois venha me contar de sua surpresa.
Além de tudo isso, Corrosão traz algumas frases realmente inspiradas:
No fim, tudo o que resta é corrosão.
Quando a morte é encarada como derrota, a vida é que fracassa.
O homem é o único animal consciente do Tempo e o único que não conhece o presente. Vive no passado ou, com mais frequência, no futuro.
Desistir é pior do que perder.
Em outros trechos, como pepitas encravadas na história, há convites a ricas reflexões e questionamentos:
Em meados do século XXI, as grandes corporações os bancos em relevo já não eram a eminência parda do poder político transnacional. Os vultosos investimentos em imagem, que dissimulavam o articulado domínio exercido sobre as nações da Terra controlando economias inteiras, fomentando guerras, corrupção e manipulando as ânsias incontroláveis da fome foram progressivamente revogados. Conceitos frágeis, alienados e alienantes, como a ideia de que uma empresa poderia ter algum compromisso com o Homem e a Sociedade, foram substituídos pelo arbítrio ostensivo.
(
) todos os poemas classificados como grandiosos são expressões de um raciocínio lógico profundo. Reconhecendo a unidade entre lógica e síntese, os leitores se supreendem e se emocionam. O sentimento está no leitor, não no poema. Uma mente embaçada pela emoção não pode produzir uma obra-prima.
O termo cientista hoje carrega alguma imprecisão, não acha? Tornou-se sinônimo de cientificismo. Uma fé deslocada na superioridade da ciência sobre todas as outras formas que o hardware biológico dispões para compreender a realidade.
(
) nenhum Estado ou Nação do mundo oferece proteção aos seus cidadãos. Os governos só protegem a si mesmos.
Gratidão profunda ao escritor Ricardo Labuto Gondim, por ter colocado sua inspiração e transpiração a serviço de tamanha Literatura!
https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2022/01/ficcao-cientifica-de-primeira-grandeza.html