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    A Relíquia -

    Eça de Queiroz

    L&PM
    2018
    315 páginas
    10h 30m
    ISBN-13: 9788525409119
    Português Brasileiro
    3.4
    146 avaliações
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    Teodorico fica órfão muito cedo e vai morar em Lisboa com sua tia Patrocínio. Ela é dona de uma incalculável fortuna, muito devota e avessa às coisas mundanas. Ele sonha com Paris, ela acha a cidade uma perdição, então sugere uma viagem a Terra Santa e pede que traga uma relíquia dos sagrados lugares.

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    Aryana picture
    Aryana31/01/2026Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A inutilidade da hipocrisia

    A relíquia é Eça de Queiroz no auge da lucidez: escrita elegante, inteligência cruel e ironia afiada como lâmina bem passada. Uma aula de como pensar e escrever sem pedir licença aos moralmente frágeis. No livro, acompanhamos Teodorico Raposo, devoto profissional que aprende cedo que a fé, quando bem encenada, pode render heranças e conforto. Criado sob a vigilância moralista da tia Patrocínio, Teodorico transforma a hipocrisia em método: reza em público, peca em segredo e jamais confunde virtude com convicção. A peregrinação à Terra Santa surge como o auge dessa farsa cuidadosamente construída, uma viagem que deveria coroar sua imagem de santo doméstico, mas que apenas expõe, com requintes de deboche, a distância entre discurso e prática. Em Jerusalém, Teodorico não encontra redenção, encontra-se a si mesmo: frívolo, interesseiro e perfeitamente adaptado à comédia humana, aí entra o espetáculo do falso moralismo, tratado com a crueldade que ele merece. Eça não poupa os devotos de fachada, os castos de conveniência, os moralmente superiores apenas em público. Ele os desnuda com sarcasmo, expõe suas contradições e os reduz ao que são: vaidade, hipocrisia e desejo mal disfarçado. Ler A relíquia é constatar, com prazer perverso, que o moralismo sempre foi uma farsa barulhenta, e que Eça já sabia disso tudo há mais de um século. E aí vem o final (absolutamente genial).. nada de redenção edificante ou conversão tardia para agradar leitor sensível. Teodorico termina exatamente como começou, sem aprendizado espiritual algum, perde tudo que julgava ter conquistado com esperteza, não por castigo divino, mas por algo muito mais cruel: a lógica implacável da própria farsa. Eça não precisa de moralismo nem de redenção cristã; ele apenas deixa o personagem nu. Não oferece consolo, nem catarse, só lucidez. Não transforma o personagem, apenas o expõe. Fingir não eleva, não redime, apenas posterga o inevitável. Eça nos lembra que não existe inferno mais eficaz do que perceber, tarde demais, que toda aquela encenação foi… perfeitamente inútil. Literatura de alto nível, riso afiado e um aplauso merecido à lucidez implacável de Eça de Queiroz. Livro lido com prazer, malícia e aquele sorriso torto de quem sabe que o deboche é merecido.

    22 curtidas

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    3.4 / 146
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    • 4 estrelas30%
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    • 2 estrelas17%
    • 1 estrelas6%
    José Maria de Eça de Queiroz profile picture

    José Maria de Eça de Queiroz

    José Maria de Eça de Queiroz nasceu em Póvoa do Varzim, norte de Portugal, de pais que não eram casados – só o fariam quatro anos depois. Essa situação, escandalosa para a época, talvez tenha contribuído para a visão profundamente crítica à moral da classe média portuguesa que o escritor imprimiu à sua obra. Eça ingressou aos 16 anos na Universidade de Coimbra, de onde saiu formado em Direito. Nesse período reuniu-se a outros jovens literatos, como Antero de Quental, que formaram o grupo conhecido como a Geração 70. Mudou-se para Lisboa, seguindo uma carreira de jornalista que continuaria em Évora e em sua volta para a capital. Em folhetins e na poesia, havia até então sido um adepto do Romantismo. Contudo, na volta a Lisboa, tomou parte no grupo de intelectuais conhecido como <i>O Cenáculo</i>. Sob a influência do escritor Gustave Flaubert e do teórico anarquista Pierre-Joseph Proudhon, aderiu ao Realismo. Em 1870, publicou, em parceria com Ramalho Ortigão, o romance <i>O mistério da estrada de Sintra</i>. No mesmo ano ingressou na carreira diplomática e, dois anos depois, assumiu o posto de cônsul em Havana – seguida por cidades europeias. Em 1895, sob a influência do Naturalismo, publicou o romance <i>O crime do padre Amaro</i>, que provocou protestos da Igreja e de setores da sociedade. Três anos depois, <i>O primo Basílio</i> teve recepção semelhante, apesar do sucesso de vendas. Em 1888 saiu <i>Os Maias</i>, romance considerado sua obra-prima. Parte da extensa obra do escritor, como o romance <i>A cidade e as serras</i>, veio à luz postumamente. Eça, que deixou quatro filhos, morreu em Paris, de tuberculose.

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    José Maria de Eça de Queiroz