Sabe aquela velha mania nacional de querer se parecido com o outro? Já fomos de tudo: portugueses, franceses, americanos, adiantados, atrasados..., mas sempre diferentes. É sobre esse tipo de construção idealizada que a autora Maria Rita Kehl, em seu livro se propõe a trabalhar ‘brasilidade’ a partir do conceito de bovarismo.
O termo “bovarismo” foi cunhado pela primeira vez pelo filósofo e psicólogo Jules de Gaultier, em 1902 com base na personagem Emma Bovary de Gustave Flaubert. No romance, “Madame Bovary”, a protagonista Emma, é uma mulher provinciana que passa a vida tentando se tornar outra, e que busca alcançar isso pela via do amor. Por meio de vários relacionamentos amorosos, Emma buscava em seus amantes o que ela não conseguiu por meio de seu casamento com Charles Bovary: de mudar seu destino medíocre de província, de se tornar uma mulher de corte, uma heroína dos livros de romance que lera na adolescência.
Para Julie Gaultier, o bovarismo consiste na ilusão de se tornar um outro, uma alteração no sentido da realidade quando uma pessoa se considera outra que não é. Segundo Maria Rita Kehl, os brasileiros teriam quê de Bovary. Nesse sentido o bovarismo seria um sintoma da realidade brasileira, um mecanismo de evasão da realidade que nos permite não aceitar o país real e imaginar um país diferente do que se é.
Machado de Assis e Lima Barreto são colocados como os primeiros a detectar o bovarismo nacional. Nos livros de Machados de Assis, os personagens sempre aparecem marcados por uma certa ironia: aparentam ser medíocres, sonham ser outra pessoa e, esse sonho de acreditar que é possível ser outro, acaba se destinando para o lado da fantasia.
O personagem Rubião, do romance Quincas Borba é um homem caipira, pobre e que se torna herdeiro de um fortuna de um tio fazendeiro, o Quincas Borba. Ao ingressar para o Rio de Janeiro, Rubião vai se integrar na vida burguesa carioca buscando abandonar o modo de pensar provinciano tentando se adequar aos novos códigos sociais de uma elite burguesa. Seu sucesso na sociedade carioca dependia de se fazer-se passar por um outro.
De modo semelhante, o bovarismo brasileiro se traduz na ideia do “sempre querer ser outro”, o português, o francês, o americano... porém sem se modernizar; sem abolir a escravidão, sem diminuir as desigualdades de classe... Essas ambiguidades que constitui a nossa ideia de nacionalidade fica escancarada na farsa da “modernização” na história brasileira: O processo de independência não promoveu mudanças profundas na sociedade, as palavras de ordem e progresso conviveram com a escravidão. Nossa história é marcada por acomodações sociais sem grandes rupturas. O futebol, é uma espécie de metáfora brasileira: aguardamos que algo sempre aconteça e resolva a partida em vez de planejar mudanças duradouras. Essa tentativa de se tornar outro, obscureceu a busca de se trilhar caminhos próprios, capazes de resolver nossas contradições internas e na busca por caminhos emancipatórios.
Em um segundo momento do livro, a autora levanta dois exemplos marcantes de anti-bovarismo, traduzidos em grupos sociais, projetos políticos, formas de expressão popular, -no caso do samba, e do mangue beat- que traz como aspectos em comum a tentativa de tirar o melhor da condição do brasileiro, ao invés de tentar se tornar um outro, ou tornar-se semelhante ao “americano” ou “europeu” em certos aspectos.
Ao trazer o tema do samba, a autora aborda como tema central a construção da figura do “malandro” num contexto pós libertação institucional dos escravos, e logo após a primeira geração de sambistas. O elogio ao anti-trabalho, presente nas letras dos sambas e a posição do malandro, expressava a condição social dos descendentes desses escravos libertos, em um contexto de escassas condições objetivas de ocupação e educação para se viver. Além disso, a autora busca explorar a posição do malandro como uma forma de vida entre o público e o privado, se desdobrando para experiências contemporâneas como o Manguebeat de Chico Science, Racionais MC e outras expressões anti-bovaristas.
No balanço geral, as discussões trazidas pela autora trouxeram uma série de questionamentos pertinentes para se pensar algumas patologias sociais brasileiras. A crítica social advinda de outros e meios, como a Psicanálise e a Literatura, na minha percepção trouxe grandes contribuições ao fugir um pouco dos posicionamentos mais genéricos em torno da Teoria Crítica, além de servir para pensar algumas características que insistem teimosamente em comparecer na nossa realidade nacional.