Em A Política, Aristóteles realiza uma reflexão completa sobre os modelos de governos possíveis para ele, bem como suas variações devido às corrupções em seus modelos e à ética presente neles e em seus cidadãos. O autor também estuda a natureza das revoluções que levam à ruína e ao surgimento de novos governos, analisando esses temas ao longo de oito livros, que abordam, além disso, a natureza humana e diversas críticas à obra A República, de Platão.
No primeiro livro do tratado, Aristóteles inicia seu estudo sobre a natureza humana e disserta sobre o escravo, a sociedade conjugal e as virtudes. Para ele, alguns nascem para serem comandantes, enquanto outros para serem comandados. Assim, é natural que exista uma classe necessariamente escrava, composta por pessoas com suas faculdades mentais reduzidas e maiores capacidades e aptidões físicas para trabalhos braçais. Além disso, reflete sobre as relações conjugais e o papel das mulheres na sociedade, concluindo que a presença delas na política apenas levou a declínios sociais. Por fim, Aristóteles reflete sobre a virtude, tema que retornará com frequência ao tratar da definição de cidadão.
No segundo livro, Aristóteles inicia suas críticas à obra A República, focando especialmente na comunidade de mulheres proposta por Platão. Ele retoma suas críticas à função das mulheres na política e começa a analisar os governos vigentes de sua época.
No terceiro livro, Aristóteles aborda a virtude nos governos, diferenciando entre homem e cidadão e estabelecendo restrições para que determinados homens possam se tornar cidadãos, voltadas principalmente à hereditariedade e à virtude. Ele então analisa as diferenças entre governos que possuem cidadãos virtuosos e aqueles formados apenas por homens que vivem em sociedade.
No quarto livro, Aristóteles prossegue com seu estudo sobre a virtude, afirmando que uma boa vida para o cidadão é uma vida virtuosa, e que cidadãos virtuosos levam a uma cidade virtuosa. Além disso, propõe as classes necessárias para a constituição de uma cidade, sendo elas: lavradores, artesãos, guerreiros, homens ricos, padres e juízes. Ele aponta erros em A República por dar menos ênfase à classe dos guerreiros. Trata também da constituição do casamento, julgando que as uniões deveriam ocorrer em idades mais avançadas do que era comum na época, para evitar os riscos à saúde de mulheres jovens na gravidez e permitir o desenvolvimento educacional e físico dos homens.
No quinto texto, Aristóteles abrange os temas de educação, preparo físico e arte para jovens e para a sociedade. Ele argumenta que a educação deve ser ministrada de forma comum, independentemente das classes, e reflete sobre o papel da arte no ensino e no lazer, validando que ela deve ser ensinada aos jovens tanto para valorização do lazer quanto para um ensino formal. Por fim, reflete sobre a prática do exercício físico, que deve ser feita separadamente do estudo, pois ele argumenta que um limita o desenvolvimento do outro. Assim, defende que o jovem deve focar primeiro no preparo físico e iniciar os estudos em uma idade mais avançada.
Na sexta parte do tratado, Aristóteles reflete sobre as três formações iniciais de governo e suas três variações corruptas: a monarquia, que ao ser corrompida torna-se tirania; a aristocracia, que se torna oligarquia; e a república, que se corrompe em democracia. Ele argumenta que, dentre os governos corruptos, a democracia seria o menos prejudicial por ser liderada pela maioria, dificultando a corrupção do governo em si. Entre os governos ideais, considera a república como o modelo superior.
No sétimo livro, Aristóteles reflete sobre as formas de democracia e sobre o conceito de democracia em si, que difere do atual. Para ele, democracia é o governo dos homens livres, e o tipo de democracia varia conforme a definição de homem livre em cada governo. Por exemplo, em alguns casos, um homem livre seria aquele que detém riquezas, aproximando-se do modelo oligárquico.
Por fim, na oitava parte, Aristóteles reflete sobre as revoluções em cada modelo de governo e como elas podem afetar e alterar a política governamental. Ele explica as transições de um modelo estável para um corrupto, bem como as variações entre tipos de governo por ascensão social ou agrupamento da elite. Também argumenta sobre formas de evitar essas revoluções por meio de ações dos governantes e como manter a estabilidade de cada modelo de governo. Para ele, o governo mais estável é aquele fundamentado no meio-termo, com poucos ricos e pobres, mas com uma classe média numerosa, formada por homens felizes e bons cidadãos, menos propensos a promover revoluções.
Após discorrer brevemente sobre os oito textos e os temas tratados, quero realizar uma reflexão. A meu ver, Aristóteles acerta profundamente no estudo das revoluções e das sociedades governamentais de sua época. Ele entende intrinsecamente os modelos de governo que propõe e suas características, identificando a república, como meio-termo entre aristocracia e democracia, como o governo ideal. Isso se dá porque a aristocracia é facilmente corruptível e a democracia, embora naturalmente corrupta, é mais estável. No que tange ao estudo da sociedade, Aristóteles demonstra ser disruptivo e à frente de seu tempo, especialmente ao argumentar sobre a relação conjugal e o foco no desenvolvimento físico e educacional do cidadão, além de valorizar a presença das artes nesse processo.
Entretanto, apesar de o livro conter diversas visões positivas e válidas do ponto de vista político, certos aspectos diminuem minha avaliação geral da obra, especialmente o início do tratado. Tendo lido Ética a Nicômaco e compreendido os conceitos de ética e virtude nos estudos sociais de Aristóteles, não consigo entender como ele mantém a visão da natureza do escravo e da presença política das mulheres. Isso é ainda mais incompreensível considerando que ele dedica um livro inteiro a destacar a diferença entre homem e cidadão baseada na virtude, bem como as vantagens da democracia, que ele caracteriza como "o governo dos homens livres". Parece, portanto, que Aristóteles foi à frente de seu tempo em muitos temas, apresentando argumentos valiosos inclusive para os modelos de governo atuais, mas pecou fortemente em sua análise desses pontos específicos.