Um livro que aluga andares em nossa mente, justamente por externar uma perspectiva totalmente decolonial sobre os povos negros, recoberta de um epicismo genial e conhecimento teórico de Nei Lopes.
Em um bairro do Rio de Janeiro vive Nozinho, um menino que possuía uma grande habilidade com idiomas e admirado por muitos, principalmente, por ser um preto que fala iídiche. Ele passa a trabalhar na fábrica de uma rica família judia e se apaixona por Raquel, a filha do dono. Com isso, parece aquelas histórias de amor proibido, mas a construção deste livro vai muito além.
Com diversos personagens e acontecimentos que vão do patamar histórico até o realismo fantástico, 'O preto que falava iídiche' para mim é uma jornada épica, recoberta de elementos que criam uma narrativa que tem como principal objetivo falar de duas comunidades: a judia e a negra, com seus respectivos desenvolvimentos e inserção na sociedade brasileira.
Ao longo da história novos cenários e personagens se revelam e são apresentados ao leitor de forma didática e crítica, proporcionando encanto e muitas reflexões que fazem com que se saia da 'bolha' do eurocentrismo aprendido nas escolas.
A narração é feita por um amigo ('pai adotivo') de Nozinho e, por conta disso, a história não segue uma linha temporal clara e haviam momentos que eu me prdia um pouco e precisei reler alginss trechos pra me situar. Como disse no início, não se trata apenas da história de Nozinho, há outros personagens que acabam por ganhar espaço justamente por está linha narrativa, que deixa em alguns momentos de acompanhar o protagonista e passa a focar em personagens secundários (que são interessantíssimos por sinal).
Eu gostei muito do tom épico que se desenvolveu, a verosimilhança criada por meio dos recursos narrativos que mesclam o real e o imaginário, as reflexões históricas sobre o racismo impregnado na sociedade brasileira e a respeito do desenvolvimento de uma narrativa que demonstre o protagonismo negro em sua própria história.
Recomendo a leitura sobretudo para quem gostou do livro 'O cortiço', de Aluísio de Azevedo, 'Macunaíma', de Mario de Andrade, e para quem deseja iniciar estudos sobre relações raciais no Brasil.
"O lorde não conta que essa versão da história circula em livros que jamais chegaram e nem vão chegar ao Brasil"