Este livro faz um balanço das relações que as Ciências Sociais mantiveram com o management e responde a determinadas questões. Que formas tomam essas relações com o tempo? Que lugar o management reserva às Ciências Sociais? Qual é a contribuição das ciências à compreensão do management? Qual o espaço que as Ciências Sociais devem ocupar hoje na formação em management?
Ciências Sociais e Management - Reconciliando o Econômico e o Social
Jean Francois Chanlat
Reflexões para a humanização das relações humanas nas corporações
O livro, utilizado no MBA Gestão Empresarial levado a cabo no ano de 2005, trata de como as Ciências Sociais podem contribuir para a compreensão do management contemporâneo, com vistas à formulação de um novo modelo de gestão para o século XXI, levando mais humanidade à forma como a gestão trata, atualmente, as pessoas, em resposta a um mundo necessitado de unidade e esperançoso de mudanças estruturais nas corporações modernas e, por extensão, na sociedade como um todo, que tragam mais liberdade, justiça, eqüidade e legalidade. A obra está dividida em 5 capítulos, nos quais o autor procura apresentar a evolução histórica dos fundamentos filosóficos das ciências sociais e do management, as formas como se relacionam, as práticas de gestão e ao fim apresentando um modelo de gestão para o século XXI. Nossa apreciação crítica procurará destacar os aspectos principais de cada um desses capítulos. As ciências sociais compreendem todas as ciências que se dedicam a tornar inteligível a vida social, por estarem preocupadas em compreender o homem como ser e suas interações com o meio ao qual pertence, sejam essas interações na família, no trabalho ou na religião, e através de métodos próprios expõem esses movimentos para a apreciação da sociedade. O autor afirma que as ciências sociais estão dividias em atitudes: uma naturalista e a outra humanista. A primeira fundamenta-se na idéia de que, pela observação, pode-se estabelecer leis sociais por meio do determinismo causal, apoiando-se em conceitos herdados das Ciências Naturais, tais como física, química, biologia ou astronomia. A segunda linha é mais subjetiva, tenta compreender os atores sociais através de sua interação com os grupos aos quais participam. Assim como o autor, também acreditamos que a corrente naturalista não deve ser a base exclusiva do estudo social, mas ser compreendida para embasar a linha subjetiva ou humanista, que entendemos ser o cerne das Ciências Sociais. Entendendo que o termo management designa tanto práticas e processos como aqueles que ocupam funções de gestão, seus conceitos originaram-se das atividades comerciais e industriais da segunda metade do século XVIII. Antes disso a indústria nascente tinha, como princípios de gestão, somente conjuntos de princípios e técnicas codificadas, dominada que era por engenheiros. Já naquela época as considerações técnicas e econômicas predominavam em detrimento de aspectos mais humanos, o que ainda é surpreendentemente verdadeiro em diversas corporações de nosso tempo. Somente a partir da segunda metade do século XIX, com o crescimento do tamanho das empresas industriais, especialmente no setor ferroviário, é que o management surge como realidade codificada e social, passando a conhecer um grande desenvolvimento e transformando-se em outra manifestação do crescimento da racionalização do mundo ocidental, em um movimento histórico que pode ser dividido em três grandes momentos. O primeiro vai do fim do século XIX até a II Guerra, em que a gestão das empresas aspira transformar-se em ciência, e não permanecer como mais uma simples arte técnica. O segundo parte do fim dos anos 40 e vai até o início dos anos 80, em que surge a sociedade de consumo de massa e as grandes consultorias em management, além da terceirização da economia. A partir dos anos 80 surge a gestão estratégica, em que modificações importantes, com mudanças nas formas de gestão em ritmo alucinante, em função de uma economia globalizada que busca a eficácia. Também é um período de desemprego e incerteza. Em suma, o management é primordialmente uma prática social a partir da qual pessoas se relacionam em organizações objetivando a eficácia econômica, e igualmente uma disciplina das Ciências Sociais, que não buscam a eficácia, mas tornam compreensíveis as condutas humanas. Como instrumentos que estudam as práticas sociais, fatalmente não poderiam deixar de se encontrar. No longo percurso em que estudiosos se ocuparam com a questão da produção e da eficácia, pôde-se observar, num primeiro momento, a relevância concedida aos aspectos técnicos da produção, em uma concepção mecanicista do management e, num segundo momento, a importância dedicada aos aspectos humanos, quando estes, então, passam a ser considerados capazes de assegurar o aumento da produtividade e da eficácia. Neste último, fatores como o ambiente de trabalho, a motivação, o comportamento de grupo e os valores passam a ser tidos como importantes para os resultados positivos das empresas, passando, assim, a serem incluídos no discurso e nas práticas do management. Outro tema também relacionado à questão da eficácia e que ocupou importante posicionamento nas Ciências Humanas foi o da dominação, a qual não apenas se fez presente, mas de maneira mais popular, nas significativas análises de Karl Marx e Engels. Suas críticas vieram a contribuir efetivamente para a sociedade, que viu surgir a organização do movimento operário tanto nas fábricas, graças aos sindicatos, como ainda, na política, graças à atividade dos partidos de inspiração socialista. Novos direitos sociais surgiram, produzindo efeitos tanto na melhoria das condições de vida, quanto nas práticas gestionárias das empresas. Contudo, sob uma visão diacrônica, as reflexões conferidas à dominação mostraram-se mais amplas nas Ciências Humanas do que, de modo geral, na própria ciência do management. Uma das grandes influências nas Ciências Humanas, que norteou alguns pesquisadores a desenvolverem trabalhos voltados a temas como a dinâmica dos grupos, a articulação do psíquico e do social e a personalidade dos dirigentes, foi a psicologia social de Freud. A questão dos sentidos e das significações, desde então em voga, é igualmente abordada nas ciências da linguagem, despertando o interesse de gestores que começam a aplicá-la não somente nas trocas, mas em todos os aspectos da vida coletiva. Neste momento, constata-se a passagem do management de uma concepção mecânica da comunicação à ampla dimensão simbólica vida humana. Neste aspecto, poucos não são os esforços que as Ciências Humanas vêm dedicando também às questões da solidariedade e dos valores ante a análise crítica das práticas sociais. É possível, porventura, se falar de solidariedade no contexto atual, em que as taxas de desemprego aumentam e a instabilidade profissional é cada vez maior? Enfim, diante de todas as questões sociais já suscitadas da relação estabelecida entre o mundo da gestão e as Ciências Humanas, estas contribuíram, de algum modo, para as novas exigências de eficácia surgidas a cada contexto histórico, ora tentando desenvolver técnicas de gestão social em resposta às demandas institucionais, atuando, assim, como disciplinas operacionais, ora tentando descrever e compreender a realidade humana, social e histórica. Todo esse movimento desembocou em uma racionalização das práticas de gestão, resultando em uma série de perdas para os trabalhadores, como ocorreu por exemplo com os trabalhadores assalariados norte-americanos a partir de 1973, fenômeno esse que se repetiu em todos os países, apesar da realidade americana ser totalmente diferente. O fato é que as práticas de gestão utilizadas pela maioria das organizações na atualidade visam somente a maximização do lucro. O trabalhador, apesar de ser o maior prejudicado com essa situação, não é o único perdedor, a empresa também sai perdendo. As organizações, fascinadas com as diversas teorias de gestão “inovadoras", como a reengenharia, por exemplo, ao implementar os modelos propostos promoveram vários cortes, principalmente de pessoal e benefícios sociais, a fim de compensar os gastos empenhados com a implantação desses programas, verificando em seguida que as mudanças não surtiram os efeitos desejados, partindo então para novas reestruturações ou fusões, com perdas ainda maiores para os trabalhadores. Entendemos que tais fatos demonstram que a maioria das organizações modernas não se preocupa com o lado social e econômico de seus funcionários, e com isso não colaboram para a diminuição da pobreza, o que pode ser facilmente constatado quando o autor destaca os elementos principais dessa realidade: salários sob pressão com desigualdades sociais crescentes; o declínio dos benefícios sociais; um endividamento crescente da população; reestruturações ineficazes; economia dominada pelos imperativos das finanças; e, como uma espécie de corolário, as conseqüências humanas, visíveis ao constatar-se a deterioração da coesão social e outros flagelos humanos. Quando a lógica financeira predomina sobre a lógica humanista, que, como vimos até aqui, parece ser predominante no management das corporações, as sociedades podem entrar em crises profundas se nada é feito para reverter esse quadro, fazendo-se necessária a ampliação da visão do ser humano e assim modificar essa realidade perniciosa e deletéria para as corporações, as pessoas e o próprio planeta. É a partir dessas constatações, da maneira como o ser humano é visto e tratado nas organizações, que o autor propõe a ampliação dos horizontes pelos pensadores e estudiosos das Ciências Sociais, na direção de criarem uma nova antropologia do ser humano, a Antropologia Organizacional, através da qual os fatores humanos passam a ser evidenciados. Essa visão nos parece consistente e inclusive vem sendo objeto de crescente interesse por parte das grandes corporações, universidades e consultorias, sob a denominação de “Gestão Servidora”, através da qual a gestão é baseada em valores humanos, que são cultivados e estimulados por toda a organização, a começar pelos próprios executivos de primeiro nível. Consideramos que essa nova forma de gerir o negócio fundamenta-se, em essência, no que o autor cita como "abertura disciplinar", um conceito semelhante ao utilizado por outros pensadores de segmentos sociais variados, segundo o qual a ciência, a arte, a filosofia e a religião ou religiosidade constituem facetas de um conhecimento integral que, fragmentado, resulta em uma sociedade igualmente fragmentada, produzindo efeitos negativos em todas as dimensões do ser humano e conseqüentemente prejudicando a sociedade como um todo. Eugênio Mussak, em seu livro "Metacompetência – Uma nova visão do trabalho e da realização pessoal", Editora Gente, 3ª edição, é um desses exemplos, ao destacar a importância de trilhar o caminho do pensamento em todas as suas inter-relações com o que chama de quatro áreas do conhecimento. “A matéria-prima da filosofia é a lógica, a da ciência é a curiosidade, a da arte é a sensibilidade e a da religião é a Fé.” (p. 66). Na mesma direção encontramos a seguinte citação do autor F. Rivas Neto (Mestre Yamunisiddha Arhapiagha): “Atualmente, em função da visão fragmentada que temos da Realidade, necessitamos de métodos como os da filosofia, da ciência, da arte e da religião, como formas de progredir dialeticamente no sentido da apreensão de verdades cada vez mais abrangentes. Da mesma forma que almejamos uma sociedade onde todos tenham e exerçam, igual e efetivamente, seus direitos a saúde, educação, trabalho e lazer e a realização social, concretizando-se em Paz mundial, acreditamos também que a fragmentação do conhecimento cederá lugar a um novo paradigma de visão integral da Realidade.” (Sacerdote, Mago e Médico, Ícone Editora, 2003, p. 438). Quando nos diz da necessidade do retorno das dimensões fundamentais do ser humano, procura defender o resgate de uma realidade perdida ou não exposta nas organizações, que criam modelos de gestão muito distantes do que acontece de fato nas empresas, pois são criados nos gabinetes frios e distantes das pessoas, fora, portanto, da realidade organizacional em que existe o medo, os jogos políticos, as conveniências e os interesses pessoais, como acontece na prática em todos os grupos humanos. Contudo, entendemos que é bastante compreensível a cautela do management em relação ao que é instável, imprevisível ou disforme, o que é um grande paradoxo entre o desejável e a realidade econômico-financeira das organizações, pois são as pessoas os atores principais a executarem as atividades, que criam as regras, se expõem e, enfim, vivem, portanto é essencial que haja um retorno das “dimensões fundamentais” do ser humano, que precisa ser encarado e sentir-se como ator e sujeito, ter reconhecidas sua experiência e vivência, seus símbolos, sua história e ser tratado com afeto e ética em todos os níveis de entendimento. A capa da edição de abril da revista Você S/A, número 82 de abril de 2005, traz uma reportagem sobre a nova liderança que as empresas precisam e estão buscando, conceituada como “liderança servidora”, segundo a qual o líder serve à equipe em vez de ser servido, coopera com os colegas e é espiritualizado, enfim, é um líder humanizado, distante do líder tradicional das corporações, o que nos parece constituir os primeiros frutos, ou ao menos os mais visíveis, dos conceitos propostos por Chanlat através dessa obra, e que linhas atrás identificamos como “Gestão Servidora”. Embora não seja uma visão exatamente nova – a teoria da liderança servidora, na qual a proposta de Chanlat nos parece estar inserida, surgiu na década de 70 –, somente há pouco tempo é que essa nova maneira de exercitar management começou a se destacar. Na lista das companhias mais admiradas dos Estados Unidos, por exemplo, publicada em março de 2005 pela revista Fortune, entre as seis primeiras colocadas, quatro exercem essa prática: Starbucks (3º lugar), Wal-Mart (4º lugar), Southwest Airlines (5º lugar) e FedEx (6º lugar). Desta forma podemos concluir que "Ciências Sociais e Management" já pode ser devidamente reconhecido nas relações humanas dentro das corporações, nas famílias e na sociedade, e que suas proposições estão se difundindo e trazendo esperança de que a gestão nas empresas pode ser mais humana, fraterna e socialmente responsável, para o bem de toda a coletividade planetária.
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