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    Ascensão e Queda de Adão e Eva -

    Stephen Greenblatt

    Companhia das Letras
    2018
    392 páginas
    13h 4m
    ISBN-13: 9788535930801
    Português Brasileiro
    4.4
    26 avaliações
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    O que seria da humanidade sem as histórias? Poucas delas têm o poder de atravessar gerações e nos influenciar de maneira tão espantosa. Vencedor do National Book Award e do prêmio Pulitzer, o professor Stephen Greenblatt se debruça sobre o mito que está no cerne de nossa formação. Em meio a tantos mitos que se perdem com o tempo, o que a história de Adão e Eva — que ocupa um lugar privilegiado na criação das religiões, mas também da filosofia, da arte e da psicologia — tem a nos dizer sobre a maneira como somos e nos relacionamos hoje? Com ousadia, erudição e clareza lapidar, o professor Stephen Greenblatt mostra o poder dessa alegoria, que, apesar de caber em menos de duas páginas da Bíblia, continua sendo exaustivamente analisada. Para o autor, nossa insistência em recontar essa história extraordinária talvez se explique por um motivo: o gesto de rebeldia, ilustrado com a decisão de comer o fruto proibido, é capaz de nos fazer questionar os significados do amor, do sexo, da perda, da morte e do livre-arbítrio. “As teorias mais modernas da civilização humana tratam, fundamentalmente, da necessidade de lidar com a mortalidade. O Novo e eletrizante livro de Stephen Greenblatt, no entanto, ao abordar as peregrinações da história de Adão e Eva — a mais influente tentativa de capturar o infinito retorno à criação —, mostra como a questão das origens humanas para as concepções pré-científicas da humanidade é central”. — Tim Whitmarsh, The Guardian

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    Valdemir Martins29/06/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A perda de um paraíso que nunca existiu.

    Charles Darwin, o ícone da ciência evolutiva, cravou há mais de dois séculos que “o paraíso não havia sido perdido”, uma vez que nunca existira. Corroborando essa teoria, o contemporâneo e respeitadíssimo historiador, crítico literário, professor e pesquisador da Universidade de Harvard, Stephen Greenblatt, escreveu este desconcertante “Ascensão e Queda de Adão e Eva”. Vencedor dos Prêmios National Books Award (2011) e Pulitzer (2012), ambos de “Não Ficção” e conhecido no meio cultural, científico, acadêmico e teológico por seus inúmeros, polêmicos e preciosos livros, Greenblatt tem o grande mérito da profunda pesquisa para desenvolver e comprovar suas teses. Debruçando-se com afinco nas tábulas de argila da civilização babilônica, elaboradas em média em 1800 antes da era cristã (AEC) e descobertas no século XIX em escavações de um templo de Nínive, capital do antigo império assírio (hoje Irã), ele contesta enfaticamente o Gênesis das bíblias judaica e cristã. E assim, leva de roldão as histórias do Paraíso ou Jardim do Eden com Adão e Eva a bordo; o Dilúvio, afogando Noé e os animais num mar de provas científicas; e, para encurtar, as científica e naturalmente impossíveis personagens com mais de 900 anos de vida. Voltando às tábulas de argila babilônicas, ele descobre que um dilúvio, igual ao de Noé com barco salvador e tudo o mais, foi causado pelo deus babilônio mais de dezoito séculos antes da era cristã e, portanto, em documentos muito anteriores e bem mais antigos do que a data em que Moisés teria recebido as tábulas da Torá no monte Sinai. Para o assiriologista britânico Georges Smith, o decifrador das tábulas, ficou claro que a narrativa hebraica das orígens não era única de sua espécie. “O Gênesis era, evidentemente, uma resposta ao que os cativos hebreus tinham escutado vezes sem conta – dos babilônios - enquanto sentavam e choravam seu cativeiro junto aos rios Tibre e Eufrates. Comprovadamente os hebreus estavam decididos a se distiguir, desde a aurora dos tempos, dos seus ex-captores.” Assim, constituiram sua escritura religiosa hebraica à sombra das místicas babilônicas juntadas à sua história, plagiada posteriormente pelos cristãos como seu Velho Testamento. Na sequência, Greenblatt contesta e desmonta, de maneira enfática, empírica e severa, Santo Agostinho, o maior defensor dos Gêneses bíblicos, apenas cruzando os textos de Confissões, obra máxima do religioso, com sua biografia pregressa. Surpreendente observar que um beato defensor do contrato de casamento apenas para procriação tenha vivido treze anos em concubinato libidinoso com uma mulher da qual nem cita o nome e com a qual teve um filho indesejado, exatamente como condenava. Agostinho tornou-se um maniqueísta, sistema religioso cristão persa que considerava Jesus como um avatar da luz em oposição ao senhor das trevas e não como Filho de Deus. Os maniqueus não aceitavam as escrituras hebraicas e escarneciam dos capítulos iniciais do Gênesis, os mesmos ferrenhamente defendidos posteriormente pelo incongruente Agostinho. Em sua última crença, Agostinho radicaliza despejando em Eva a culpa por todos os pecados da humanidade, originadas pelo “pecado capital” perpetuado por Adão, vítima de sua parceira, e o transforma, em seus escritos e pregações, no episódio central do drama da existência humana. Para ele, por ser Deus justiçoso, o pecado original tem como extensão toda a perversidade humana e todas as desgraças como crimes horrendos, os horrores da tirania e das guerras, terremotos, incêndios, inundações, “não passam de punições distribuídas por um Deus justo”. A isso, Greenblatt rebate com a pergunta: “Poderia alguém afirmar que um doce bebê acometido de uma doença degenerativa esteja apenas recebendo a punição que mereceu?”. E o que dizer dos milhares de crianças que morrem de fome na África e no Oriente Médio e que não são judias nem cristãs? Segundo Agostinho “para Deus ninguém é livre do pecado (...), nem o recém-nascido” (Confissões 1.7). Responsável pela difamação de Eva como a orígem de todos os pecados (segundo Agostinho), a condição da mulher, ao longo da história, passou a ser a de um ente inferior e sempre subjugado, até no Islamismo – como se comprova em seus costumes – pois Adão e Eva também estão presentes no Alcorão. Para (São) Jerônimo, no século IV, “não foi Adão que foi enganado, mas a mulher que, seduzida, caiu em transgressão”, conceito repetido vezes sem conta ao longo dos séculos. Foi incutido em criancinhas, invocado sempre que o equilíbrio de poder do marido se via ameaçado e lançado contra mulheres inteligentes e articuladas que pareciam não conhecer o seu lugar. Diante do obscurantismo da Idade Média, esse conceito negativo sobre a mulher e sua orígem em Eva tomou corpo e até o filósofo Tomás de Aquino chegou ao extremo de afirmar: “para viverem juntos e fazer companhia um ao outro, dois amigos juntos são melhores que um homem e uma mulher”. Tudo com o lastro da forte e sanguinária Inquisição Católica, cujos troféus máximos eram extirpar nas fogueiras a bruxaria praticada pelas mulheres e caçar os judeus que causaram sofrimento a Maria. O primeiro desmonte público – apesar de dissimulado – das ditas fábulas do Paraíso foi lançado pelo filósofo protestante francês Pierre Bayle, em sua obra Dictionaire Historique et Critique lançada em 1697, no crepúsculo do século 17, na sombra de sua proclamação de que “uma Igreja cristã que procurava obter uniformidade mediante instrumentos de tortura e fogueira, violava a própria essência do evangelho”. Os personagens Adão e Eva aparecem em inúmeros verbetes e notas de rodapé sempre sob o olhar cético e destruidor de Bayle. Seu Dictionaire – trinta anos após a publicação do maior poema de louvor ao Gênesis (Paraíso Perdido, do inglês John Milton) - jogava na lata de lixo lendas que pouco a pouco haviam sido adicionadas à narrativa do Gênesis ao longo de mais de mil anos. A exemplo deste pensador francês, Voltaire, mais adiante em 1764, publicava seu Dicionário Filosófico com diversos verbetes destrutivos sobre o casal pecaminoso do Paraíso. E antes de finalizar esta brilhante obra, Greenblatt não deixa de demonstrar a incompatibilidade do darwinismo com a crença em Deus, que com certeza é incompatível com a crença em Adão e Eva. Saindo das lendas e ficções da religiosidade e das descostruções filosóficas, Greenblat leva-nos ao epílogo desta obra analisando as semelhanças humanas com os chimpanzés sob a luz da ciência e do evolucionismo. Pondera uma eventual vida dos símios num paraíso e quais seriam suas reações mediante a nudez, ao conhecimento e demais itens importantes nos argumentos paraisionistas. E após uma demorada e detalhada observação de um grupo completo de chimpanzés (crianças, jovens, adultos e velhos) em seu habitat natural, junto com outros cientistas, notaram que eles possibilitaram ver como seria viver sem o conhecimento do bem e do mal, da mesma forma como vivem sem sentir vergonha e sem saber que estão destinados a morrer. E conclui: “Eles ainda estão no Paraíso.”. Mas isso acontece porque formamos nossa ideia do Paraíso a partir de noções oriundas do nosso conhecimento do bem e do mal. “Nós já caímos; eles, não.”. Assim, como o mito de Adão e Eva está no cerne da nossa formação religiosa e cultural, deixando suas marcas através dos séculos, de vários pontos de vista – psicológico, artístico, teológico -, a trágica fábula determinou o modo como lidamos com o amor e a morte, a culpa e o desejo, e moldou de forma definitiva nosso destino. Ascensão e Queda de Adão e Eva, apesar de tratar de um assunto tão sério, é uma obra eletrizante de fácil leitura e compreensão, passível de ser contestada somente por outros cientistas e estudiosos isentos, mas jamais por religiosos, por razões óbvias de defesa dos pilares das principais crenças religiosas dominantes. Valdemir Martins 25.06.2020

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    Stephen Jay Greenblatt

    É considerado por muitos como um dos fundadores do New Historicism (Novo Historicismo) - a que ele também se refere como "poética cultural" -, uma das mais influentes escolas de crítica e teoria literária, a partir do início dos anos 1980, quando Greenblatt introduziu a expressão na introdução de The Forms of Power and the Power of Forms (1982), uma coletânea de ensaios sobre o Renascimento editada por ele e publicada como edição especial do periódico Genre. Stephen Greenblatt escreveu vários livros e numerosos artigos sobre o Novo Historicismo, o estudo da cultura, a Renascença e sobre a obra de Shakespeare sendo considerado um especialista nessas áreas. Seu trabalho mais conhecido é Will in the World, uma biografia de Shakespeare que esteve na lista dos livros mais vendidos durante nove semanas, segundo o New York Times. Editou mais de dez obras, incluindo a sétima edição de The Norton Anthology of English Literature. É fellow da American Academy of Arts and Sciences e recebeu vários prêmios e honrarias.

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    Massachusetts, Estados Unidos

    Stephen Jay Greenblatt