PREIA-MAR
A relação entre poesia e urbanismo não é nova na literatura e parece se acentuar com o passar do tempo. Lógico, não se pode desconectar a figuração do espaço literário da constituição do mundo sensível, sobretudo em um tempo como o nosso, no qual é brutal o contraste significativo nas grandes cidades: pobreza, riqueza; privado, público; luz, escuridão e sobretudo, violência desmedida. A realidade acentuadamente urbana agride, marca e reflete os impasses de uma subjetividade que se sente mal situada, que vivencia o estranhamento e o desencontro frente a realidade da cidade transformada velozmente, com consequentes perdas de individualidade para o sujeito, submetido ainda ao automatismo, agindo como máquina programada. E como se não bastasse, o homem é constante vítima das agressões das mercadorias, anulado pela multidão, estando condenado a vagar pela cidade como um embriagado abandonado. O poeta imerso na cidade é ao mesmo tempo aquele que racionaliza e experimenta a paisagem, lança seu olhar sobre o urbano, sobre os impasses da vivência nas cidades, a partir de subjetividades que se vão constituindo no cruzamento com a paisagem dominante e a natureza: ruas, prédios, cruzamentos, canteiros de obras, esquinas, shopping centers... Encontros e sobretudo, desencontros. A palavra paisagem escrita acima se nos afigura, portanto, negativa. Não é mais vista. É habitada e sentida como uma extensão do espaço pessoal, sua amplidão é do tamanho da envergadura de um corpo próprio aumentado até os limites do horizonte. Dessa forma, podemos notar que a questão da paisagem é de suma importância para uma compreensão abrangente sobre a relação entre poesia e experiência. Essa questão tem sido interesse dos poetas desde o Romantismo, a partir do instante em que os mesmos não cansam de se manifestar por este termo e por esta temática, pois ela é tão rica de sentidos que são ao mesmo tempo múltiplos e contraditórios. Como consequência, há um crescimento da tomada de consciência cada vez mais nítida da relação que une o sujeito ao mundo, o espiritual ao corporal, o tempo ao espaço, o invisível ao visível e então o poeta segue pelas ruas, esbarrando nas multidões, entregue às discrepâncias do cotidiano. “Preia-mar” é o título do livro de poemas da escritora Juliana Ben. Gaucha de Porto Alegre. Juliana compôs seu livro em três partes: “Ida”, “Permanência” e “Mais além”. Na primeira parte encontramos o poema “Violência subliminar” que a nosso ver constitui verdadeiro despertar, e desabafo contundente do eu poético imerso na grotesca conjuntura urbana: “a galeria é a rua / é minha / é tua / a contradição está nua / ao pé do morro / do gozo / de ser rua estou descalça de mim / nesta cidade / azul de si / e de tantos Dós / que já não escuto / mais quero com urgência / as seis notas sem Dó / porque não tenho mais / Dó eu tenho Sol”. Ainda nesta primeira parte é significante o longo poema “A cidade” onde observamos a configuração de um olhar inquieto, insatisfeito do indivíduo que se afasta, sem possibilidade de retorno, de um horizonte de harmonia e de totalidade, imerso que está num mundo cada vez mais desfigurado. Reflita-se sobre esses versos: “A cidade chama / enxames de gente e de lama” , “A cidade nota / que ricos e pobres / dividem o mesmo desprezo / pelos seus” , “A cidade assusta / e cai sobre aqueles que teimam em entrar / pela porta da frente”. E veja-se toda a segunda parte do poema: II “a cidade é uma gota de chumbo / em um riacho vazio / é aquilo que fica / quando o presente se esvai / é a tocha assombrada / de um passado / sem cidades”. Porque dizemos preia-mar? O que significa? É expressão que provém do português antigo prea, que deriva do latim plena, feminino do adjetivo plenus, que significa “cheio” ou “pleno”. Mar cheio. A “Ida” de Juliana engloba poemas que denotam o ser sufocado, em vias de “afogamento” em um mar alto e revolto que é o mundo em que vive. Mas disto se pode abstrair também que, seja qual for a maré cheia, sempre aprendemos a manejar vela e leme. Essa figuração de linguagem que utilizamos nos leva a um outro pensamento que se apoia naquele modelo descritivo ou epistemológico (estruturação de múltiplos saberes), da teoria filosófica de Gilles Deleuze e Félix Guattari. A noção de rizoma foi adotada da estrutura de algumas plantas cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto, assim como engrossar e transformar-se em um bulbo ou tubérculo; esse conceito rizomático pode ser entendido nos seguintes termos: “nada de ponto de origem ou de princípio primordial comandando todo o pensamento; portanto, nada de avanço significativo que não se faça por bifurcação, encontro imprevisível, reavaliação do conjunto a partir de um ângulo inédito.” Em Deleuze, o conceito de rizoma traz consigo o desdobramento do mundo em duas dimensões, a imanente e a transcendente, porque o sujeito não vive somente em um microcosmo, mas em abertura constante para o macrocosmo. Literatura é um rizoma equivalente à ‘obra aberta’, como já nos fez ver o grande esteta italiano, Umberto Eco, e ainda Deleuze afirma que: “escreve-se sempre para dar a vida, para libertar a vida lá onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga”. Isto suscita o ressurgimento do ato de pensar. O ‘pensar expressivo e intensivo’, porquanto resistência, nômade, é que é verdadeiramente revolucionário, com a necessária produção de afetos, a fim de atualizar e afirmar as forças inusitadas que atravessam o humano. Explicamos melhor ainda, com um texto em prosa poética de Juliana Ben – positivamente o melhor de todo o livro. Chama-se “O traço é início e fim”: “Sei que devia começar pelo início, mas começo pelo fim. Me pego pensando onde o fim começa, onde nos perdemos. Em que esquina, em que avenida. Tendo a pensar que foi numa rua muito larga para os carros e estreita para quem anda a pé. Me pergunto qual pedra deixamos de pegar, qual bolha deixamos de assoprar, qual vento começou a sufocar. Busco minha medida do fim. O maleável que não tem fim nem começo, só mudança. A mudança é presente e acontecimento. Sei que a porta está ali, mas sei também que ela só abre se eu pego o trinco com força, se tomo ele pra mim. Entendo que estou só, mas que o mundo me abraça se eu abraço o mundo. Vejo o fim de perto. Afago suas rugas e manchas. Acolho suas intempéries. Sou folha e falha, fogo e fundo. Faço graça do medo e cubro o tempo com retratos da gente. Do que a gente foi e do que a gente é. Do que eu me tornei sem nós. Um se tornar tornado. Um assombro contínuo que rega e dissolve. Gosto de pensar na vida como um brócolis, com grandes talos firmes e raminhos que se multiplicam para cima e para os lados, em uma lógica singular. Volto pro fim. E percebo que o fim é o início. Um início de devir. Uma bola de sorvete que escorre pela minha boca”. Observe-se que esse texto “O traço é início e fim” vai justamente ao encontro de um daqueles seis princípios fundamentais da filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari, o princípio que faz menção à multiplicidade: importante destacar que o rizoma não é feito de unidades, mas de dimensões. Não tem início nem fim, mas um meio, no qual a ideia da gênese mostra-se como um devir. A multiplicidade, portanto, refere-se ao fato de que ela própria é constituinte do rizoma. E vamos “Mais além” de um princípio de consciência humana mais evoluída. Veja-se esse poema na terceira parte do livro: “Que a forma do meu corpo” não me impeça de ser / eu mesma que o passado mais fique / que venha que as pressas fiquem presas / e os vestidos / rodados que eu não precise pedir mais / que eu não precise / demais que a força do que vejo / pouse calma e segura que os dedos cheguem / que as ondas passem / que o tempo / urja” A sensação que nos fica após a leitura de Juliana Ben, assemelha-se aquele passeio rápido que damos à beira-mar... a delícia que é sentir a água fria arrastar os grãos de areia que dançam no embalo das ondas e acaba por molhar-nos os pés. O caminhar lento, ao lado do eterno embalo das vagas nos arrasta também, pensativos, para além do horizonte, onde o céu mistura-se com o mar... Pena que isto dure tão pouco tempo porque a obra é, em seu porte físico muito reduzida. Fica a saudade do passeio e o anseio de que a autora, muito em breve, nos presenteie com outras incursões nas praias da vida... Livro: Preia-mar – Poesias de Juliana Ben – Editora Penalux, Guaratinguetá-SP, 2018, 62p. ISBN 978-85-5833-309-2.

