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    Desobedecer (Exit) -

    Frédéric Gros

    Ubu
    2018
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9788592886738
    Português Brasileiro
    4.3
    68 avaliações
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    Negar-se a obedecer às ordens de um superior incompetente ou a leis injustas, resistir ao professor, ao padre, ao policial quando abusam de seu poder. O que torna a desobediência tão difícil? Frédéric Gros faz neste ensaio uma reflexão sobre um tipo de desobediência que exige esforço, que provoca o questionamento das hierarquias, mas também dos hábitos, do conforto, da resignação, para defender o que ele chama de democracia crítica. Retomando uma trajetória que parte do pensamento antigo e do clássico Discurso da servidão voluntária, de La Boétie, passando por Thoreau e sua Desobediência civil e o caso Eichmann comentado por Hannah Arendt, entre outros, o autor nos faz descobrir que a verdadeira reflexão sobre a desobediência política depende da resposta à pergunta primordial: Por que obedecemos? A obediência busca estabelecer, sem limites, o domínio político, mas cria principalmente a cegueira e a aceitação do mundo, o medo da desordem sem julgamento. A desobediência só pode ser construída com a resistência ética e a democracia crítica.

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    Laís Mól Alves08/02/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Prefácio Posição 302 Por que você obedece? Porque sou submisso: impossível fazer de outro modo. Clareza absoluta dessa relação cruel. Aquele que obedece por excelência é o escravo. Posição 305 Ser submisso é ser prisioneiro de uma relação de forças que subjuga, domina, aliena no sentido literal. Submisso, estou sob a inteira dependência do outro, o outro que comanda, decide, grita ordens, acaba com você e destrói as vontades. Posição 315 A razão da obediência do submisso está na desrazão da violência cega e das relações de força. Posição 330 Por que o submisso obedece? Porque não pode fazer de outro modo, porque para ele é impossível desobedecer: a sanção seria imediata e demasiado pesada. Posição 331 Humilhado, demitido, espancado, excluído, rebaixado… - Posição 332 preço alto demais. Arriscado demais. Obedece-se porque o custo da desobediência não é sustentável. Posição 339 A partir do momento em que os submissos conseguem se unir para conspirar contra os senhores, assim que sentem e constroem sua força coletiva, a guerra pode ser retomada. Posição 368 Com isso, é preciso compreender que seu corpo realiza a vontade de um outro, mas que sua alma não participa em nada em relação ao que ele executa. Posição 398 Mas fazer o quê? Não passo de um escravo do sistema que reprovo sem ter os meios para combatê-lo. Posição 458 Suportamos ser tiranizados sobretudo porque nos vemos oferecer o prazer de nos tornar o tirano de um outro: “Assim o tirano subjuga os súditos uns através dos outros”. Posição 459 que sustenta a tirania é sua estrutura “democrática”. Posição 459 vinga de sua condição sendo, por sua vez, tirânico para com um outro, de modo que a relação de obediência, longe de formar dois grupos separados (dirigentes/ dirigidos), penetra todo o corpo social, e todos são cúmplices, cada qual leva sua parcela de prazer de ser autorizado a ser tirano de outrem. Posição 484 livre é essencialmente querer ser livre. O que assusta é que a liberdade esteja a tal ponto na vertical de nossa responsabilidade. Posição 500 Obediência a contragosto, de má vontade. Posição 501 Não se trata de desobedecer “ativamente”, mas de obedecer da pior maneira possível; falamos de submissão “ascética” para dizer que não se trata de uma simples negligência passiva ou de inércia Posição 581 a submissão é uma relação de forças histórica, portanto reversível. Posição 609 é preciso sempre se perguntar: quem são hoje os novos escravos? Posição 657 Mas a intensidade da cultura cristã da obediência como via prioritária da salvação e talvez, sobretudo, o medo de que a desordem política provocada pela insubordinação se revele mais aterrador que a injustiça do governo vigente (“ antes a injustiça do que o caos”) podem também conduzir ao bloqueio da relação de obediência. Posição 667 De Agostinho a Lutero14encontramos a lição de que se deve obediência até mesmo a um governo tirânico e cruel, não mais certamente a obediência de gratidão, mas outra: Posição 668 a que suporta, padece e, eu quase diria, tira proveito da crueldade dos senhores, da corrupção dos governantes, para encontrar, na provação, um recurso para “a própria salvação do sujeito”. Posição 672 De modo que é preciso, ao final das contas, preferir um príncipe despótico e cruel, mas que permita ou incentive o culto, a um rei cheio de bondade, que organize uma - Posição 673 distribuição equitativa das riquezas, mas que contrariaria o exercício da verdadeira religião. Posição 816 O ateu é aquele em quem Deus não crê mais, que se encontra privado de sua presença, de seu amparo. Posição 816 A-theós: ele se encontra sem Deus. Essa é a condição trágica de Antígona: Posição 865 1O segredo da obediência poderia estar não num fervor, mas numa inércia passiva. Posição 866 A obediência às leis? É um produto do hábito, um hábito reforçado pelo seguidismo. Cada pessoa alinha seu comportamento ao de todos os outros. Obedece-se por conformismo. Posição 875 Momento crucial: cada um, sem dúvida, olha para o outro, avalia, espera algo como uma afirmação coletiva. Só uma pequena dezena se destaca do grupo para manifestar recusa. Muito pouco. Os demais permanecem presos na cola dos outros, impedidos pelo grilhão invisível e pesado da inércia coletiva, prisioneiros da massa, pegos na armadilha, cada qual cativo desses “outros” que não existiriam sem cada um deles. Posição 1016 Zamiátin Posição 1030 O conformismo “moderno” faz surgir uma igualdade então de normalização. Por meio dela a ordem do mundo se torna para nós aceitável, e quase desejável. É pelo desejo de sermos nós mesmos que nos fazemos mais parecidos com os outros. Os que decidem sobre a economia, os papas da comunicação Posição 1032 fazem cintilar, no fundo do lago do conformismo, o fantasma de um si liso, luminoso. E cada um, novo Narciso, mergulha para aí morrer. Posição 1039 Para podermos sentir até que ponto desobedecer pode ser visto como difícil e arriscado, é preciso lembrar o quanto, ao contrário, a obediência desresponsabiliza e faz conhecer o conforto de não ter de prestar conta a ninguém. Posição 1044 Adolf Eichmann é capturado na Argentina pelos serviços secretos israelenses em maio de 1960 e logo extraditado. Será julgado em Jerusalém entre os meses de abril e dezembro de 1961. É o planejador logístico da Solução Final, seu mestre de obras. Posição 1136 é isso que lhes permite dizer que a denúncia do sistema desculpabiliza o indivíduo, pois então só resta um funcionamento sem alma. Posição 1181 22Eichmann é incapaz de ter uma opinião, ele só gosta das ideias prontas. Posição 1272 separação entre alma e corpo não é um problema metafísico. É uma ficção política. Posição 1273 É esse momento da perversão ética, da desresponsabilização que Arendt chama de burrice. Mas é uma burrice ativa, deliberada, consciente. Posição 1287 A título de abertura, uma observação: os anarquistas muitas vezes concentraram sua raiva crítica no direito de voto e no casamento. - Posição 1295 Em suma, você consentiu, e consentiu livremente. O consentimento é um ato pelo qual nos constituímos prisioneiros de nós mesmos. Posição 1296 2O consentimento é uma obediência livre, uma alienação voluntária, uma Posição 1374 A ideologia do consentimento é fazernos compreender que é sempre tarde demais para desobedecer. Posição 1375 Nossa modernidade política deu como ponto de gravitação para a obediência cotidiana às leis um consentimento efetuado por cada um e por todos, um consentimento instituinte: e por meio dele uma ordem política, uma sociedade Posição 1376 regida por leis comuns, uma autoridade soberana e um Estado de direito se tornaram possíveis. Posição 1380 14Se o pacto primeiro é a tal ponto motivado pelo medo de morrer, todo ato de desobediência será imediatamente suspeito de reintroduzir a anarquia primeira. Posição 1391 Pois bem, o escândalo de uma preferência egoísta: desobedece aquele que prefere seu interesse pessoal à coletividade. Posição 1392 Não é a ética do sobrevivente que deve animar a obediência política, mas uma ética sacrificial. A vontade geral é um novo tirano, o Supereu culpabilizante. Posição 1396 cada homem, ao obedecer ao soberano,só obedece a si mesmo”. 19 Posição 1404 Mas resta– Arendt e Habermas o compreenderam– algo de explosivo, de secretamente subversivo na ideia de contrato social, desde que aceitemos dizer: “Atenção, não consentimos previamente em obedecer nem em nos fundir numa unidade imposta de cima (o Bem do povo, o Estado protetor), mas simplesmente em fazer sociedade”. É Posição 1415 Os movimentos de desobediência civil– entendo aí movimentos coletivos de contestação, não protestos isolados–25podem ser lidos como momentos de reativação do contrato social, expressões da democracia transcendental. 26A desobediência civil apoia-se na constituição de um coletivo que exprime a recusa de ser “governado assim”. 27Longe Posição 1433 Essa exigência, que faz desobedecer, é a “democracia crítica” Posição 1575 mas entre uma desobediência passiva que faz com que apenas mudemos de senhor e uma desobediência ativa que toma como ponto de referência a reforma interior, a exigência crítica. - Posição 1611 fisco, pelo oficial e pelo padre (a Administração, o Exército, a Igreja: os três grandes núcleos da obediência cega no Ocidente)– é sempre: obedeça sem refletir. Posição 1682 Obedecer é também, e sobretudo, dizendo “sim” ao outro, repetir sempre “não” a si mesmo: obedeço sem discutir pois, não, não quero problemas; obedeço cegamente pois, não, não quero ver, saber, interrogar– medo demais do que eu poderia descobrir; obedeço terrivelmente pois, não, não quero correr o risco da solidão: duro demais, complicado demais; obedeço automaticamente pois, não, não quero correr o risco de Posição 1685 arruinar minha vida, minha carreira, meus hábitos. Obedecer é dizer não a si mesmo dizendo sim ao outro. Posição 1790 A solidão é uma ilusão. Posição 1796 “Justificar” não é somente dar razão ou apresentar as razões, é fazer que se torne justo o que decididamente não pode ser justo. Posição 1850 É a essência das revoluções quando cada um se recusa a deixar a outro sua própria capacidade de supressão para restaurar uma justiça, quando cada um se descobre insubstituível Posição 1993 Essa diferença que não faz nenhuma diferença, a aposta da moral e da política humanas é afirmar que faz toda a diferença: surgimento do eu indelegável. É esse eu que desobedece. Posição 2118 Empanturramo-nos quando comemos sem fome, o repouso sem trabalho torna-se uma preguiça irritante. Posição 2160 Uma primeira lição do mito é que esquecemos muito rápido que nossa existência é obra nossa.

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    Frédéric Gros

    Formado pela École Normale Supérieure, é hoje professor de Filosofia na Université Paris-XII e de Pensamento Político no Institut d’Études Politiques de Paris. Especialista em Michel Foucault, publicou três livros sobre o filósofo pela PUF (Presses Universitaires de France).

    8 Livros
    7 Seguidores
    Île-de-France, França

    Frédéric Gros