Nas eleições de 2014, a Carta Capital produziu um texto de Ricardo Alexandre com o título de “Afinal, quem são os evangélicos?” [2], que discorria sobre a rica diversidade dos seguidores das boas novas de Jesus, o Cristo. Seguindo por um caminho semelhante, somado ao conceito de polifonia ou multiplicidade de sons, Davi lago traz uma introdução bem precisa sobre quem são os cristãos e sua influência sobre o direito e a política desde os inícios das eras.
Davi Lago consegue ser polifônico nas fontes que usa: de Calvino a Marilena Chauí, de Pero Vaz de Caminha à Karl Popper, de Bobbio à John Stott, de Platão à Habermas, de Marx à Igor Miguel e de Richard Dawkins à Lipovetsky. Sabendo usar o melhor de cada autor, apesar de suas cosmovisões diferentes, demonstra como superar um mal de nossa época: a liquidez de tudo, o individualismo, a falta de diálogo pelo orgulho de acreditar que a “esquerda não tem nada para contribuir” ou a “à direita é opressora”.
Coxinhas se sentirão desconfortáveis e mortadelas acharão o livro proselitismo religioso. Porém aqueles que querem ir mais fundo, entenderão porque as relações entre os evangélicos, política e sociedade são mais sérias do que se imagina. O autor denuncia de forma sensata pecados denominacionais e ideológicos, fazendo que uma boa definição do livro seja uma verdadeira defesa da fé (apologética) sobre como os princípios cristãos vão além das nossas tentativas ideológicas e preconceitos.
O livro é bem editado, diagramado, a linguagem varia entre curiosidades históricas jornalisticamente, com técnica jurídico-filosófica, ministração da Palavra, não deixando de ser um livro denso, mas que foi trabalhado para ser o mais acessível possível. O livro é para cristãos que se cansaram de buscar apenas sinais ou sabedoria, mas que querem uni-los, atingindo o coração, cativando-o a fazer algo. É também para não crentes, para explicar de forma didática, que evangélico não é só aquele que anda com a bíblia suada embaixo do braço.
A grande quantia de sons que ouvimos por aí estão causando um ruído desgraçado. A tarefa do cristão moderno hoje é conseguir na arena pública ser um maestro que saiba colocar essas notas de forma harmônica. Que apesar de sempre existirem notas de tensão pelos acordes complexos aumentados e diminutos ou de passagem, possamos socialmente encontrar mais notas de descanso, e assim, encontrar Graça. Até porque, os evangélicos, são aqueles que trazem boas novas e indicam o caminho para a Salvação, seja da alma, da política e da sociedade.