O Texto Primeiro: uma hermenêutica teológica para a pregação Abraham Kuruvilla
Muitos títulos têm sido desenvolvidos no campo da hermenêutica e homilética para dar suporte metodológico e teológico à interpretação e pregação das Escrituras. Expondo os parâmetros, pressupostos e implicações de cada uma destas áreas de forma profunda e precisa. Mas aparentemente observamos uma certa independência entre elas. Diante disto temos uma carência de obras que façam a ponte entre a interpretação e a pregação. Em suma, entregar uma verdade teológica à congregação por meio de um processo contínuo, que vai da descoberta do significado e significância frutos de uma análise textual técnica até sua proclamação no púlpito. Uma das maiores contribuições neste assunto foi a de Abraham Kuruvilla. Postdoc em Medicina pela Baylor College of Medicine na Índia e PhD em Hermenêutica pela University of Aberdeen na Escócia; Atuando como professor-pesquisador sênior no Dallas Theological Seminary no Texas (USA), pastor interino em várias igrejas na mesma cidade, e como conferencista e palestrante em muitos lugares ao redor do mundo. Autor de obras como Text to Praxis: Hermeneutics and Homiletics in Dialogue (2009), Genesis: A Theological Commentary for Preachers (2014), Homiletics and Hermeneutics (2018), dentre outros títulos.[1] Em O Texto Primeiro, traduzido aqui no Brasil em 2017 pela Editora Cultura Cristã, é desenvolvido o que ele intitula de hermenêutica teológica da pregação. No qual consiste em analisar uma perícope e chegar a sua teologia, por meio da identificação do que o autor está fazendo com a verdade exposta no texto, e fazer com está teologia seja o centro da pregação. E essa teologia visa ser cristoicônica. Em outras palavras o quanto o povo de Cristo é moldado gradativamente à Sua imagem a partir da pregação, perícope após perícope. Para isto o livro é divido em quatro capítulos: 1) Hermenêutica geral e hermenêutica especial; 2) Perícopes, teologia e aplicação; 3) Exigência divina e obediência fiel; 4) O Akedah e a intepretação cristiocônica. No primeiro deles é estabelecido que se todo texto é fruto de um ato comunicativo, o texto bíblico deve possuir os mesmos pressupostos gerais de interpretação de qualquer texto, como: o significado de um texto está vinculado a intenção do autor, que um texto expressa um ato de comunicação com um leitor (primário e/ou secundário) e que os referentes de sua comunicação pertencem ao contexto primário. E esses referentes atuam como literatura de poder. Onde quebra a barreira cultural-temporal entre o texto e o leitor posterior, projetando o sentido do mundo do texto para o futuro. E dentro deste ambiente o processo defendido por Kuruvilla para busca do sentido do texto é o da tríade de E.D. Hirsch. Que se inicia na identificação do sentido original do texto, seguindo da observação da intenção trans-histórica nele (aquela mensagem central do texto que se pretende comunicar de forma universal e atemporal) e extrair desta intenção as exemplificações (possíveis aplicações futuras). Podemos aplicar aqui como exemplo o texto de Dt 22.8. Onde o sentido original seria construir um parapeito no terraço de casa para que ninguém caia e você seja culpado de sangue, a intenção trans-histórica (o que o autor está fazendo com o que está expondo) étomar medidas de segurança anti quedas em construções que estejam sob sua responsabilidade, para que ninguém caia e você seja culpado e as exemplificações parapeito, guarda-corpos, escadas, telas de proteção, cinto anti queda, sinalização, etc.. Mas outros elementos da hermenêutica geral deverão estar presente nestes textos que possuem esta característica trans-histórica: perenidade (o texto resiste ao tempo devido ao compartilhamento de verdades relevantes e comuns a todas as eras), pluralidade (fixo em significado mais amplo em significâncias), prescritibilidade (tem função normativa de aplicar sua intenção aos leitores) e digressão (implicações que não fazem parte do significado, mas auxiliam no cumprimento das exemplificações). Apesar destes elementos da hermenêutica geral poderem ser aplicados a interpretação das Escrituras, eles não são suficientes. Por ser um livro de origem divina (a Palavra de Deus) devemos adotar as regras de interpretação da hermenêutica especial: exclusividade demarcar os livros canônicos que podem ser utilizados para os propósitos de aplicação; singularidade considerar o texto canônico como uma unidade singular para fins de aplicação. Um todo integral, intrinsicamente relacionado em todas as suas partes; finalidade a forma final do cânon deve ser considerada o objeto de interpretação para fins de aplicação; aplicabilidade cada texto na Escritura canônica pode ser usado para fins de aplicação para igreja universal; eclesialidade obriga que a leitura da Escritura para fins de aplicação seja conduzida sobre os auspícios da comunidade que reconhece sua canonicidade; centralidade concentra a interpretação de textos canônicos para fins de aplicação sobre a pessoa preeminente de Cristo e sua obra redentora, que cumpre a vontade do Pai no poder do Espirito Santo. Estas regras não trabalham para estabelecer o significado, mas delimitam o processo e determinam o que, em termos amplos e gerais, é válido ou inválido. Em outras palavras, estabelecem os limites da interpretação bíblica. No segundo capítulo Kuruvilla expõe o local onde todas estas interações ocorrem: a perícope. É um segmento textual do todo canônico que é selecionado para a pregação. Dele é extraído a teologia da perícope (primeira etapa) que permite as exemplificações válidas (segunda etapa). Esse segmento do mundo canônico que é projetado pela perícope, ao qual o leitor é chamado a alinhar sua vida, possui significado particular que contribui para o todo do desenvolvimento da revelação bíblica. Significado que tem potencialidade e intenção de provocar mudanças nos ouvintes durante um sermão (renovação de aliança com a vontade de Deus). Onde o objetivo dessas operações eclesiásticas e homiléticas é o alinhamento gradual da igreja com os preceitos, prioridades e práticas do mundo canônico completo. Em resumo, o processo que ocorre na perícope é: análise do texto -> projeção do mundo do texto -> simplificação; sentido original do texto -> teologia da perícope -> aplicação contextualizada. No capítulo 3, ele dá um panorama sobre as principais abordagens evangélicas sobre a Lei (luterana, reformada, dispensacionalista e NPP), situando sua posição numa linha reformada de maior continuidade entre o que foi prescrito no AT. Contrastando as posições antinomianas a partir da compreensão de que: Cristo é o ÏÎÎ»Î¿Ï da Lei (Rm 10.4) como seu cumpridor e finalidade, e não como aniquilador da Lei; que a Lei da fé não é uma nova Lei, mas a Lei cumprida pela Fé (Rm 9.31-31); que não foi feita para cumprimento para salvação, mas para santificação em uma vida de relação pactual com Deus (Rm 18.4-5); e que a letra mata, mas o espírito vivifica (2Co 3.6) não se refere ao fim da Lei por causa da Nova Aliança, mas de como esta Lei deve ser cumprida pelo Espírito em obediência de fé. Não por obras meritórias próprias que só levam a condenação; que esta expressa imutabilidade pois está intrinsecamente ligada aos atributos do próprio legislador. Mas se todo o processo seguido anteriormente pelo pregador (indo da interpretação à homilética) deve fazer com que aquilo que um texto expressa seja transmitido contextualmente a realidade da congregação local, com a Lei de Deus não é diferente. A validade de sua aplicação hoje [sendo toda a Lei em sua perspectiva], sua perenidade, só é possível pela identificação do princípio que está por traz de suas exigências na perícope. Sendo assim, não temos uma aplicação direta do conteúdo do texto, mas indireta pela teologia expressa nele. No último capítulo o autor visa demonstrar como a regra da centralidade pode ser aplicada através da hermenêutica cristiocônica. Onde o pregador deve: 1) identificar que cada perícope, por meio da sua teologia do mundo texto, traz uma projeção particular da imagem de Cristo em seus preceitos. E que o somatório de todas imagens do cânon formam o todo da imagem perfeita de Cristo; 2) os crentes devem ser chamados no sermão a cumprir tais preceitos para se conformarem progressivamente a imagem de Cristo; 3) observar que Cristo foi o único capaz de cumprir integralmente e perfeitamente as exigências da perícope, e que devido à queda dependemos de Sua graça e Espírito para cumpri-los em amor e fé. Sendo este cumprimento não para salvação, mas para santificação e relacionamento pactual; 4) ler o AT em seus termos (não numa leitura cristológica) para compreender o que o autor faz com o que diz. Podemos observar esse método sendo aplicado em sua interpretação de Gn 22. Onde ao invés de vermos a relação entre Abraão e Isaque como um tipo da relação entre Deus Pai e Jesus, ou vermos o cordeiro substitutivo como um tipo de Cristo, devemos identificar o que o autor está querendo fazer com o que está dizendo: fé nas promessas de Deus por meio de uma obediência auto sacrificial, que tem como padrão supremo a própria obediência de Jesus Cristo. Em resumo as contribuições desta obra são vastas. Destaco a sua exposição positiva da Lei quanto ao seu propósito, extensão e validade a nós hoje. Como, mesmo discordando de outras abordagens, trouxe com sabedoria, honestidade e clareza um panorama delas e suas subdivisões. Outro ponto é que, além das questões teológicas sobre a interpretação, o livro traz excelentes insights a respeito das questões epistemológicas em relação a busca de significado, e históricas com relação a padrões homiléticos na Igreja. Mas possivelmente sua principal contribuição esteja naquilo que seu método propõe como centro da pregação: conduzir a Igreja a santificação por meio da Escritura. Não por métodos humanos, nem religiosidade, nem legalismo, mas por meio da autoridade do texto revelado e do atuar da graça pelo Espírito na pregação. Há outros pontos que coloco aqui como possibilidade de futuras pesquisas com relação a alguns temas aqui levantados. O primeiro deles seria observar como o seu método pode se relacionar com os usos que os autores do NT fazem do AT (tipológico, apologético, analógico, etc.). Pois se cada tipo de uso gera um tipo particular de interpretação e significado em um texto, isto não seria um indicador de que o autor está fazendo algo com o que está dizendo? Ele não teria uma intenção particular com a referência/alusão que faz? Na defesa de sua posição ele alega que apenas o resultado é inspirado (o texto) e não os métodos hermenêuticos dos autores bíblicos. Portanto não deveríamos dar importância a eles. Isto carece de maior explicação quanto ao papel do Espírito Santo no processo da revelação, e não somente no seu resultado. Um outro ponto que ficou sem muitas explicações é: se a lei civil e cerimonial são válidas para nós hoje, como o método cristiocônico interpretaria textos que trazem prescrições deste tipo? Em suma é uma obra essencial para todo hermeneuta e pregador. Faço coro a afirmação do Kevin Vanhoozer quanto a sua importância para a homilética: Este livro sobre a pregação fundamenta-se na teologia em vez de apoiar-se na arte da comunicação e, por essa razão, sou muito grato. [1] KURUVILLA, Abraham. Curriculum Vitae. [S. l.], 2012. Disponível em: https://homiletix.com/about-me-2/curriculum-vitae/. Acesso em: 26 jul. 2020.

