Gosto muito de conhecer a escrita de alguns autores através de seus contos. Considero histórias curtas uma excelente porta de entrada para avaliar se vou gostar de determinado autor ou autora. Foi com esse intuito que decidi ler a coletânea de contos "A Estrutura da Bolha de Sabão", de Lygia Fagundes Telles.
Eu já havia tido contato com um conto da autora chamado "Venha Ver o Pôr-do-Sol", que, segundo li, é considerado um dos mais famosos de Lygia. Particularmente, não gostei desse conto, mas, mesmo assim, decidi dar mais uma chance para a autora me conquistar. E que bom que fiz isso.
Durante a leitura desta coletânea, deparei-me com contos que conseguiram me agradar bastante e mostrar, de forma efetiva, o estilo característico da autora. Os contos dela exploram temas universais como solidão, conflitos interiores, preconceitos da sociedade da época, morte, impulsos vingativos e outros.
Entre os contos que mais chamaram minha atenção está "A Testemunha". Ele me fez passar algum tempo pensando nas questões que a autora deixa subentendidas e tentando imaginar o que Rold presenciou que deixou Miguel tão perturbado a ponto de levá-lo àquele momento de ruptura. Li o conto duas vezes para tentar compreender melhor o que levou Miguel a cometer aquele ato tão surpreendente no final. O fato de ter que reler para compreender melhor se deve à autora escrever diálogos um tanto confusos, recheados de gírias que, às vezes, não parecem tão naturais e fluídos. Ainda assim, confesso que continuo intrigada com a densidade e a capacidade provocativa da história.
Outro destaque é o conto "Missa do Galo", que tem uma origem muito interessante. Parece que Lygia Fagundes Telles foi convidada a fazer uma releitura desse conto de Machado de Assis, em um projeto que visava revisitar grandes clássicos da literatura brasileira. Por isso, senti-me obrigada a ler o conto original de Machado antes de contemplar a releitura de Lygia. Foi uma experiência muito prazerosa tentar identificar as nuances de cada versão e observar as mudanças que a autora trouxe para a interação entre Nogueira e Conceição. Na releitura de Lygia, ela preserva a essência do conto de Machado, incluindo a atmosfera de ambiguidade e tensão entre os personagens durante o encontro misterioso. Contudo, ela imprime seu estilo ao acrescentar uma sensibilidade emocional e psicológica maior, tornando os personagens mais introspectivos. O conto é repleto de insinuações e subentendidos, que despertaram minha curiosidade e me fizeram adorar a esmagadora tensão presente na cena, além da incerteza sobre o que realmente estava acontecendo naquela noite.
Outro conto que me chamou a atenção foi "O Espartilho". Nesta história, a autora apresenta Ana Luíza, criada pela avó em um ambiente de mentiras. Aos poucos, após um acontecimento marcante, Ana Luíza começa a compreender a história de sua família, o racismo, o nazismo e a manipulação exercida pela avó. Ao aprender sobre a vida e amadurecer, ela passa a entender suas origens e o mundo. Foi extremamente gratificante para mim acompanhar, em poucas páginas, a trajetória de Ana Luíza ao ter sua consciência despertada e decidir tomar as rédeas de sua vida.
Por fim, quero citar o conto que me levou a ler esta coletânea, indicado pelo meu amigo Leonardo: "A Confissão de Leontina". A história nos apresenta Leontina, ou Leo, como era chamada, uma figura frágil que teve a educação negligenciada pela mãe em favor do primo Pedro, que ambicionava tornar-se médico. Leo foi moldada pela mãe para servir sem questionar, perpetuando o ciclo de opressão de uma sociedade patriarcal e desigual. Assim como sua mãe, trabalhou para ajudar a custear os estudos do primo. No entanto, em vez de reconhecimento ou apoio, viu-se traída e abandonada. Pedro, em um gesto cruel, negou-a repetidamente, em um simbolismo que ecoa a negação de Jesus Cristo pelo apóstolo Pedro no Novo Testamento.
A narrativa desse conto me conduziu a um desfecho trágico que, embora previsível, me surpreendeu pela brutalidade e pela maneira como denuncia as estruturas sociais que sufocam mulheres como Leontina. Lygia Fagundes Telles, em minha opinião, consegue equilibrar de forma magistral a delicadeza da linguagem com a crueza da denúncia, tornando o conto ainda mais impactante. Leontina tem um destino revoltante, que reflete a exclusão e desigualdade de uma época em que os direitos femininos sequer eram reconhecidos. Este é realmente um conto poderoso.
O livro contém oito contos, nem todos são perfeitos, mas, ainda assim, aguçaram minha curiosidade em explorar mais obras da autora. Recomendo sem hesitação.