Em seu segundo livro de memórias Simone de Beauvoir se dedica a um período importante de sua vida. A narrativa que vai do início dos seus 20 anos a meados dos 30 é marcada por uma grande mudança causada pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Nesse período, Simone diz ter deixado para trás sua juventude e entrado de vez na maturidade. Em A força da idade, a autora descreve como tal mudança aconteceu.
Antes de tudo, é interessante pensar que a autobiografia de Simone passa por dois filtros. Por um lado, os fatos são mostrados como ela os interpreta, por outro, ela expõe apenas a parte que não se importa em compartilhar com o público. Isso ela deixa claro. Existem várias razões para isso, como proteger pessoas ou simplesmente não expor questões intimas que não são tão importantes para o que ela pretende contar. O foco da obra está em mostrar suas relações com outras pessoas e com ideias, seu desenvolvimento intelectual e sua obra.
O livro é dividido em duas partes: na primeira Simone conta sua juventude, já a segunda parte mostra o momento de ruptura em seus valores causado pelos acontecimentos da Segunda Guerra. Um dos temas de grande importância na primeira parte é sua com Sartre, apesar de ser reservada e não tratar das intimidades do casal, Simone apresenta algumas reflexões sobre o relacionamento dos dois intelectuais, como a dependência que tinha de Sartre ao depositar a causa de sua felicidade nele, ao mesmo tempo em que ele a instigava a buscar sua independência: “Não podia ter vontade de renunciar a mim senão em favor de alguém que fizesse precisamente o possível para me impedir disso”, afirma Simone.
Os jovens intelectuais franceses acreditavam que contribuiriam com o mundo com seus livros. Mas Simone reconhece a falta de noção de realidade que tinham naquela época. Simpatizavam com a luta de classes a uma distância segura. Sua intervenção no mundo, quando chegasse o tempo, seria através de livros, até lá acreditavam que as coisas aconteceriam tal como desejavam, sem que precisassem sair do lugar. Tal visão, de acordo com Simone, revelava ignorância do peso da realidade que marcou essa época de sua juventude, podiam ter indiferença ao dinheiro e ao luxo, mas sempre tinham dinheiro o suficiente, exerciam uma profissão que não demandava esforço algum, em suma, em sua condição de pequeno-burgueses, os jovens se acreditavam incondicionados.
Sobre esse pano de fundo desenvolviam a literatura e a filosofia. A paixão à primeira vista de Sartre pela fenomenologia de Husserl, que aparecia como a opção de superação da oposição realismo e idealismo tem grande influência em suas primeiras obras filosóficas que começam a surgir junto com suas obras no campo da literatura. Simone se sente também com a vontade de produzir algo. Conhecer o mundo e se exprimir, comunicar o que há de original em sua existência através da literatura é o objetivo da jovem que não se considera uma filósofa.
Mas diante desses jovens que, para não participar do presente, invocam sua obra futura, surge algo que faz com que a realidade comece a mostrar seu devido peso. Ao voltar sozinha pelas ruas desertas de Paris, enquanto Sartre estava na Guerra, Simone diz nunca ter se sentido tão depressiva. Durante esse tempo as convicções dela mudam, a futura escritora passa da juventude à maturidade, era hora de aceitar a sua situação. Começa por dedicar-se com total empenho à literatura onde discute sobre os temas que lhe são caros, como a morte e a consciência do outro. Tem também agora suas obras publicadas. Surge seu primeiro reconhecimento como escritora, tem de lidar com os elogios e críticas de uma intelectual pública. Com o pano de fundo da guerra, Simone vive essa mudança. Quando em 1944 Paris é libertada do domínio alemão, ela já não é mais a mesma.